23/10/10

Despedidas

Recordo-me da primeira vez que perdi alguém. Olhei à volta, perdida, e constatei em choque que o mundo tinha continuado a girar. Só o meu é que tinha parado. Quando ganhei forças, corri, aos tropeções, atrás dos outros. Demorei algum tempo a apanhá-los, tive quedas, parei cansada muitas vezes. E quando os apanhei percebi que teria que aprender a suportar as perdas sem quebrar a engrenagem. Criei defesas. E quando voltei a perder alguém que me fazia falta, o meu mundo já parou menos. E hoje o meu mundo já não pára. O coração queixa-se, por dentro, mas as pernas continuam a caminhar, e o corpo deixa-se arrastar. Já não teima. Sabe que tem de ser. Um dia será ele a parar, e o mundo terá que continuar a avançar...
Não sei se isto é crescer. Não sei se isto é endurecer. Mas não pedi que a vida levasse quem me levou. Não posso culpar-me daquilo que em mim mudou.
18/10/10
De que cor são as minhas asas?
Porque me olhas assim?
Um triângulo adormecido em negros sonhos de cetim...
Diz-me o que quero quando te olho!
Deixa-me só adivinhar para não ter que te negar...
Diz-me se sou o que escrevo, o que sou, ou a imagem que tens de mim.
Ah! Como é irónico esse teu Deus quando ri...

Não sei o que quero,
Mas sei que é mais do que aquilo que me podes dar
Ou mais do que aquilo que sei desejar
Mas não consigo agir sem duvidar, nem duvidar sem me esgotar...

Quero que me ajudes
Mas não sei querer-te!
Não quero que fujas
Mas só respiro quando adormeço e não te sonho!
Temes ser a rocha em que eu embata
Enquanto te trespasso sem que me sintas...
Se me odiares uma só vez sem que me mintas!

Pára! Foge!
Deixa-me não seu eu!
Deixa de ser tu!
Tranca-me onde me descobriste e esquece os olhos que te viram!
Mas não te destruas para me construir
Que eu já me habituei a viver sem existir...

A Sombra dos Anjos, 2001
16/10/10

Transcendência

Somos o único animal do planeta a quem não basta ter dedos para tocar nos outros. Só somos felizes quando conseguimos tocar ou ser tocados para além deles…

Somos o único animal do planeta a quem não basta ter olhos para olhar os outros. Só somos felizes quando conseguimos olhar e ser olhados para além deles…

Somos o único animal do planeta a quem não basta ter ouvidos para ouvir os outros. Só somos felizes quando conseguimos ouvir e ser ouvidos para além deles…

Somos o único animal do planeta a quem não basta a natureza. A nossa felicidade depende sempre da nossa transcendência.