Sou Vento
Não gosto de respostas. Não sei ter certezas. E às vezes culpo-me de ser sempre uma pergunta atrás de outra, porque isso perturba quem me vê percorrer ideias e perspectivas sem me prender. Não sou árvore. Não dou segurança. Mas sereno quando penso que é preciso que alguém seja vento, para que a Terra se renove.
Sociedade Civil
Reiventemo-nos, Humanos
Alian Botton aflora a necessidade de estruturas que preencham o buraco vazio que o afastamento da Igreja criou em muitos de nós. A vida privada não nos chega, defende. A arte não cumpre igualmente essa missão, conclui. A vida política tem outras preocupações que não a moral. O ensino tem demasiado para ensinar. E falta quem diga, preto no branco, o que é bom e é mau, quem pregue, quem confesse, quem perdoe.
Assisto ao surgimento de novos "padres" sem religião, homens e mulheres que, na ausência da Igreja (ou, pelo menos, quando ela não dá resposta), pregam uma felicidade possível. Alguns criam estruturas. Tentam assegurar as necessidades daqueles que os procuram (ou talvez também das próprias). E não consigo deixar de pensar como, por mais que tenhamos evoluído, nos falta sempre a organização do formigueiro, a liderança de uma colmeia, a decisão dos soberanos de uma alcateia. Dizemo-nos superiores, mas somos menos organizados. Temos líderes que não sabem liderar. Contestamos os soberanos. E advogamos uma autonomia e uma independência que, na realidade, não faz parte da nossa natureza. Não somos nada uns sem os outros. E não conseguimos viver uns com os outros. Irónico. E sobretudo devastador. Botton apela à criação de novas estruturas. Mas eu só já acredito na criação de novos humanos.
Porque Amo, porque Sim
As paixões (pelos outros, pelo que fazemos, pela Vida) causam sempre estranheza a quem não as sente, e às vezes até a quem as sente, quando lhe perguntam muitas vezes "Porquê". A verdade é que as Paixões e os Porquês habitam mundos diferentes. Os Porquês, o hemisfério da razão. As Paixões, o do sentimento onde, a existir um Porquê, será sempre e apenas um Porque Sim.
Haja o que Houver
Antes de escrever um livro, escolho a banda sonora que me acompanha nessa aventura, talvez porque a música tenha essa capacidade de tocar em nós os sentimentos certos, de criar empatia com os outros (reais ou personagens), como se em todos nós houvesse a mesma pauta de ADN, 7 notas apenas, que com habilidade podemos combinar e tocar à mesma melodia (ainda que sempre à luz da nossa própria interpretação... e essa é a nossa riqueza e a mais-valia da música e dos livros).
Entre a minha Estefânia e D. Pedro V, houve um destino trágico. Mas houve também Madredeus: "Eu sei... Quem és para mim. Haja o que houver... Eu estou aqui." Também eu estarei com eles sempre que esta música voltar a tocar em mim.
Somos tão somente memória
- Quem és tu, minha filha?
É triste ouvi-lo da boca de alguém que, pelas mais diferentes razões, nos esqueceu. Não custa aceitar que pedaços da nossa vida em comum se tenham apagado das suas lembranças. Quantas vezes não apagamos nós próprios outras tantas vivências com outros alguéns. Custa, sobretudo, pensar que não importa o que fazemos ou o que somos, os nossos títulos ou façanhas. O nosso currículo de experiências só tem valor se deixar uma forte lembrança nos outros. Se os marcar de forma a que não nos esqueçam. Não somos, por isso mesmo, se não memória. E ser-lo-emos apenas e somente enquanto ela durar.
Coisas de Espécie
Não consigo matar um insecto sem que o perigo me obrigue a esmagá-lo com a superioridade que me assiste. Se o vejo caminhar, livremente, mesmo que dentro da minha própria casa, imagino-o em busca de comida, em busca de um caminho, de um regresso à sua própria casa. Mas vê-lo a olhar os meus, aqueles que me importam, espécie da minha espécie, sangue do meu sangue, com desejo de os transformar em presas, acende o instinto que há em mim. A minha mão torna-se grande e certeira, o meu pé espesso e poderoso. Sou da natureza, protejo naturalmente os que respiram. Mas no perigo e na ameaça, tenho um clã. Sou dos meus. E, pelos meus, aqueles que verdadeiramente me importam, também eu sou capaz de matar. PUM.
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