Amanhecer
O tempo e os sábios
Quando entrevistamos alguém com 93 anos que nos oferece café e pão-de-ló e nos diz "Não tenha pressa", o tempo pára, obrigatoriamente... Na nossa corrida diária, falta-nos tempo para olhar a vida em perspetiva. Não é necessariamente mau. É o que é, como sempre foi, no tempo em que é suposto. Mas faz-nos falta ouvir os "velhos", ter junto de nós os sábios, aqueles a quem a idade já deu tempo, já deu saber e relatividade. Aqueles que nos podem olhar nos olhos e dizer com conhecimento de causa "A vida é breve, minha filha. Não corra tanto..."
Tempo certo
Não há um só dia sem importância, um só minuto sem valor e um segundo a que chamemos de insignificante. Encarando a vida de frente, somos uma sucessão de erros e vitórias, e uns jamais existiriam sem os outros. Hoje (e talvez só hoje) sei que corri a vida toda para chegar a algum lugar. Mas sei também que estive sempre, por mais errado que fosse, onde deveria estar.
Entre o milagre e a coincidência
Não interessa se no mundo ocorrem poderosos milagres ou arrebatadoras coincidências. É um mundo belo, apesar de incontrolável, imprevisível. Talvez não sejamos ainda suficientemente inteligentes para entender o seu caos. Talvez nos bastasse maravilharmo-nos, mas vivemos sedentos de explicações, buscando-as na matéria, quando elas podem estar tão longe daquilo que podemos manipular com as nossas mãos. Hoje chamamos ilusão ao que a nossa mente produz. Talvez um dia chamemos ilusão ao que vemos e tocamos. E talvez, nesse instante, o caos se transforme inexplicavelmente em ordem, e tudo volte a ser tão belo como sempre foi...
Olhar a Vida
Em Barcelona fui vizinha de um poeta que limpava casas para ganhar vida. Não era um poeta qualquer. Tão pouco um empregado da limpeza comum. Ele via imagens nos azulejos sujos, música nas carpetes a arejar ao vento, e poesia no vai e vem da vassoura pelo chão pisado. Sempre que colocava as suas luvas brancas para trabalhar, começava a nascer-lhe um poema. Perdi-o, algures na pressa de viver, mas ficou-me a ideia (ou quiçá apenas a saborosa ilusão) de que qualquer vida tem a sua poesia. E que a beleza das coisas - assim como a sua inquietude - não está nas coisas em si, mas nos olhos com que as vemos. São eles, em grande medida, a balança do nosso sentir.
Do tudo e do nada
Curioso que nada tenha a ver connosco e tudo dependa de cada um de nós. Fazemos parte de um todo que não pode dispensar-nos. E é quando descobrimos o significado da nossa aparente insignificância (ou talvez a insignificância de todo o significado) e a força daquilo a que todos chamam fragilidade (ou a fragilidade daquilo que julgávamos ser a nossa força) que nos tornamos verdadeiramente importantes para o que verdadeiramente importa.
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