Oiço em mim poemas que não o são
Sem métrica, sem compasso, sem estrutura
Multiplicando sem querer as palavras
Distribuindo sem querer essas vozes
Sinto-me poeta nas frases longas de muitas vidas
Fadista em todos os fados que ficaram por cantar
Sem me chegar o espaço, sem me chegar forma, sem me chegar a voz
Sou em potência aquilo que possa existir
Ou seja tudo, ou seja nada, é o meu devir
E se é verdade, ou se é mentira, já não me importa
Sou um fado triste, mas cantado a sorrir
Incerteza ou Ilusão?
Talvez uma sustentável ilusão seja preferível a uma angustiante incerteza...
Valorizo desde há muito o cepticismo, como forma de libertação da crença, mas hoje encaro a crença e não sei, na verdade, se haverá algo para além dela. Será ela assim tão nefasta? Sim, se envolta em preconceito. Não, se livre para voar sobre tudo aquilo que fizer sentido, em cada momento da nossa vida. E o que é o mundo, afinal, se não a nossa crença numa ilusão? Não será essa a única certeza que temos, a de que acreditamos em alguma coisa, por mais incerta que ela seja?
Temo há muito a certeza, por receio de a ver desfazer-se por um qualquer ataque, por um qualquer tremor e, com ela, eu tremer também. Eu me desfazer, com tudo o que construir em cima dela. Mas sem uma certeza, o que somos nós? O que sou eu? Sem uma certeza, nunca serei uma certeza para ninguém. Sem uma certeza, nunca serei uma certeza para mim própria.
Hoje, talvez só porque o sol brilhou e tocou a música certa no rádio do meu carro, decidi que seria uma certeza. Talvez venha a ser muitas certezas diferentes, muitas vezes, ao longo dos dias que me restarem. Talvez venha a pular de certeza em certeza, todos os dias. Mas, de certeza em certeza, serei sempre uma certeza qualquer, em vez de uma dúvida permanente, uma incerteza constante. E, se um dia essa certeza me fizer tremer e me desfizer, como nos meus piores pesadelos, que o faça na certeza de que fui aquilo em que um dia, por alguma razão, acreditei.
Valorizo desde há muito o cepticismo, como forma de libertação da crença, mas hoje encaro a crença e não sei, na verdade, se haverá algo para além dela. Será ela assim tão nefasta? Sim, se envolta em preconceito. Não, se livre para voar sobre tudo aquilo que fizer sentido, em cada momento da nossa vida. E o que é o mundo, afinal, se não a nossa crença numa ilusão? Não será essa a única certeza que temos, a de que acreditamos em alguma coisa, por mais incerta que ela seja?
Temo há muito a certeza, por receio de a ver desfazer-se por um qualquer ataque, por um qualquer tremor e, com ela, eu tremer também. Eu me desfazer, com tudo o que construir em cima dela. Mas sem uma certeza, o que somos nós? O que sou eu? Sem uma certeza, nunca serei uma certeza para ninguém. Sem uma certeza, nunca serei uma certeza para mim própria.
Hoje, talvez só porque o sol brilhou e tocou a música certa no rádio do meu carro, decidi que seria uma certeza. Talvez venha a ser muitas certezas diferentes, muitas vezes, ao longo dos dias que me restarem. Talvez venha a pular de certeza em certeza, todos os dias. Mas, de certeza em certeza, serei sempre uma certeza qualquer, em vez de uma dúvida permanente, uma incerteza constante. E, se um dia essa certeza me fizer tremer e me desfizer, como nos meus piores pesadelos, que o faça na certeza de que fui aquilo em que um dia, por alguma razão, acreditei.
A tríade existencial
“Deve ficar bem claro que somos todos chamados não a comunicar nós próprios, mas esta tríade existencial que é formada pela verdade, a bondade e a beleza.”
As palavras foram do Papa Francisco, aos jornalistas. Palavras sensatas, de um homem que já começo a admirar. Mas talvez comunicar não seja para todos. Talvez alguns tenham, ao invés, que a questionar, colocando em causa o que é afinal, a verdade, a bondade ou a beleza, de que nos serve e por que nos move. Questioná-la mesmo na sua dimensão mais transcendental, onde nenhum de nós, em última instância, importa.
As palavras foram do Papa Francisco, aos jornalistas. Palavras sensatas, de um homem que já começo a admirar. Mas talvez comunicar não seja para todos. Talvez alguns tenham, ao invés, que a questionar, colocando em causa o que é afinal, a verdade, a bondade ou a beleza, de que nos serve e por que nos move. Questioná-la mesmo na sua dimensão mais transcendental, onde nenhum de nós, em última instância, importa.
A minha banda sonora
A banda sonora do próximo livro. Toca(-me) há vários meses. Prestes a fechar este capítulo da minha vida, sei que nunca mais ouvirei Carmina Burana sem rir e chorar com as minhas personagens. Será para sempre o meu link para esse tempo e esse espaço onde sou quem não sou e faço o que nunca farei.
http://www.youtube.com/watch?v=QEllLECo4OM
http://www.youtube.com/watch?v=QEllLECo4OM
Permanente insatisfação
Começo a chegar à conclusão que a minha geração não é afinal (como tantas vezes lhe chamei) a da permanente insatisfação. É tão somente uma geração que, necessariamente, terá de mudar o mundo...
Melodias que se atraem
De férias numa ilha paradisíaca, habituei-me a tocar flauta ao pôr do sol. Depois do calor tranquilo do dia. Antes do calor agitado da noite. No primeiro dia em que o fiz, um casal a habitar um apartamento vizinho ficou a ouvir-me da janela. No segundo dia, assomaram à porta. A partir do terceiro, já me esperavam, sentados nas suas espreguiçadeiras repousadas no alpendre. Sorriam-me e eu sorria-lhes. Até que, ao sétimo dia, que seria o último, metemos conversa. Eu era uma jovem a despedir-me da universidade. Eles eram um casal de reformados irlandeses que andava a viajar pelo mundo. Eu dei-lhes a minha música, e eles ensinaram-me a deles: uma melodia irlandesa, que me faria, para sempre, recordar aqueles pores-do-sol. Trocámos moradas. E dissemos uns aos outros que talvez um dia nos juntássemos novamente, num qualquer outro horizonte, ao som das nossas melodias.
Uns meses mais tarde, naquele que seria o meu último dia em Barcelona, estava ainda entregue à cama para recuperar da última directa que faria, para entregar um trabalho. Haviam sido meses loucos, de vida, de estudo, de experiências e coincidências imperdíveis. Estava exausta. Estava feliz. Foi quando, ao longe, ouvi uma melodia que reconheci de imediato. Uma melodia que se aproximava de mim, dos meus lençóis, da minha cama de cansaços felizes. Cada vez mais perto. Nas escadas, depois no hall, depois no meu quarto. Destapei o rosto, devagar, pensando tratar-se de um sonho. Mas não era. O casal irlandês que conhecera uns meses antes estava junto à minha cama, a cantar para mim. Encontrara a porta do prédio aberta e subira as escadas, cantando. Encontrara a porta do meu apartamento aberta, e procurara o meu quarto, cantando. Estavam ambos à minha frente, com o mesmo sorriso, noutro horizonte mas com a mesma melodia. Em mais uma das suas viagens, tinham resolvido procurar-me. E ali estavam, simplesmente, para me cantar. Levantei-me de pijama e abracei-os. Se faziam parte do meu sonho, era um sonho bom. A melhor forma de fechar aquele sonho que fora Barcelona.
Sim, a música ajuda-nos a ser quem somos. Sim, a música liga-nos de forma inexplicável aos outros. Se ousarmos tocar, e nos dispusermos a ouvir, somos melodias infinitamente ricas que se atraem, que se entendem, que se sorriem e se abraçam. Amanhã, voltarei a pegar na minha flauta e a tocar à varanda, para quem me quiser ouvir.
Uns meses mais tarde, naquele que seria o meu último dia em Barcelona, estava ainda entregue à cama para recuperar da última directa que faria, para entregar um trabalho. Haviam sido meses loucos, de vida, de estudo, de experiências e coincidências imperdíveis. Estava exausta. Estava feliz. Foi quando, ao longe, ouvi uma melodia que reconheci de imediato. Uma melodia que se aproximava de mim, dos meus lençóis, da minha cama de cansaços felizes. Cada vez mais perto. Nas escadas, depois no hall, depois no meu quarto. Destapei o rosto, devagar, pensando tratar-se de um sonho. Mas não era. O casal irlandês que conhecera uns meses antes estava junto à minha cama, a cantar para mim. Encontrara a porta do prédio aberta e subira as escadas, cantando. Encontrara a porta do meu apartamento aberta, e procurara o meu quarto, cantando. Estavam ambos à minha frente, com o mesmo sorriso, noutro horizonte mas com a mesma melodia. Em mais uma das suas viagens, tinham resolvido procurar-me. E ali estavam, simplesmente, para me cantar. Levantei-me de pijama e abracei-os. Se faziam parte do meu sonho, era um sonho bom. A melhor forma de fechar aquele sonho que fora Barcelona.
Sim, a música ajuda-nos a ser quem somos. Sim, a música liga-nos de forma inexplicável aos outros. Se ousarmos tocar, e nos dispusermos a ouvir, somos melodias infinitamente ricas que se atraem, que se entendem, que se sorriem e se abraçam. Amanhã, voltarei a pegar na minha flauta e a tocar à varanda, para quem me quiser ouvir.
O paradigma do trabalho
O homem não é o seu trabalho. O homem tem de ser mais do que o seu trabalho. Quem nos vendeu esta ilusão de que devíamos estudar a vida inteira para ter um trabalho, e trabalhar o resto da vida para um dia viver daquilo que o trabalho nos rendeu?
Hoje, não somos mais o nosso trabalho. Porque não há trabalho. Mas também não sabemos ser mais do que o nosso trabalho, porque a maioria de nós nunca aprendeu a ser mais do que ele. A ilusão desfez-se. Podemos estudar uma vida inteira para trabalho algum. E trabalhar uma vida inteira para rendimento algum.
Talvez a solução passe por voltar a haver trabalho. Mas eu acredito mais (ou em paralelo) numa solução que passe por sermos mais do que o nosso trabalho. Porque na verdade, no mundo que temos (veremos o que virá depois) não podemos não estudar. Não podemos não trabalhar. Mas podemos, talvez, começar a estudar por outras razões que não sejam a de ter um bom trabalho. E podemos trabalhar por outras razões que não sejam a de ter um rendimento. Podemos estudar para saber. ("Conhece-te. Molda-te. E descobrirás em ti de que forma poderás vir a ser útil") E trabalhar para fazer crescer. ("Constrói. Evolui. Contribui. É essa a tua grande riqueza") A mudança de paradigma é subtil. Mas acredito, talvez na minha inocência, de que poderá fazer diferença numa sociedade que terá de se reencontrar. Num homem que terá de voltar a ser homem.
"Tanto ação, labor e trabalho estão relacionados com o conceito de “Vita Activa”. Para os antigos, a “Vita Activa” é ocupação, inquietude, desassossego. O homem, no sentido dado pelos gregos antigos, só é capaz de tornar-se homem quando se distancia da “vida activa” e se aproxima da vida reflexiva, contemplativa. É justamente nessa visão de mundo grega que os escravos não são considerados homens. O escravo ao ocupar a maior parte de seu tempo em tarefas que visam somente à sobrevivência de si e de outros, é destituído do conceito grego de homem, mas por outro lado ele não deixa de ser humano. Portanto, dentro dessa lógica só é homem aquele que tem tempo para pensar, refletir, contemplar. Nietzsche afirma em seu “Humano, desmasiado humano” que, aquele que não reserva, pelo menos, ¾ do dia para si é um escravo."
(http://www.mundodosfilosofos.com.br/a-condicao-humana-hannah-arendtt.htm#ixzz2Mo9xJJo1)
Hoje, não somos mais o nosso trabalho. Porque não há trabalho. Mas também não sabemos ser mais do que o nosso trabalho, porque a maioria de nós nunca aprendeu a ser mais do que ele. A ilusão desfez-se. Podemos estudar uma vida inteira para trabalho algum. E trabalhar uma vida inteira para rendimento algum.
Talvez a solução passe por voltar a haver trabalho. Mas eu acredito mais (ou em paralelo) numa solução que passe por sermos mais do que o nosso trabalho. Porque na verdade, no mundo que temos (veremos o que virá depois) não podemos não estudar. Não podemos não trabalhar. Mas podemos, talvez, começar a estudar por outras razões que não sejam a de ter um bom trabalho. E podemos trabalhar por outras razões que não sejam a de ter um rendimento. Podemos estudar para saber. ("Conhece-te. Molda-te. E descobrirás em ti de que forma poderás vir a ser útil") E trabalhar para fazer crescer. ("Constrói. Evolui. Contribui. É essa a tua grande riqueza") A mudança de paradigma é subtil. Mas acredito, talvez na minha inocência, de que poderá fazer diferença numa sociedade que terá de se reencontrar. Num homem que terá de voltar a ser homem.
"Tanto ação, labor e trabalho estão relacionados com o conceito de “Vita Activa”. Para os antigos, a “Vita Activa” é ocupação, inquietude, desassossego. O homem, no sentido dado pelos gregos antigos, só é capaz de tornar-se homem quando se distancia da “vida activa” e se aproxima da vida reflexiva, contemplativa. É justamente nessa visão de mundo grega que os escravos não são considerados homens. O escravo ao ocupar a maior parte de seu tempo em tarefas que visam somente à sobrevivência de si e de outros, é destituído do conceito grego de homem, mas por outro lado ele não deixa de ser humano. Portanto, dentro dessa lógica só é homem aquele que tem tempo para pensar, refletir, contemplar. Nietzsche afirma em seu “Humano, desmasiado humano” que, aquele que não reserva, pelo menos, ¾ do dia para si é um escravo."
(http://www.mundodosfilosofos.com.br/a-condicao-humana-hannah-arendtt.htm#ixzz2Mo9xJJo1)
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