31/03/13

Escrever

Desengane-se quem pensa que se escreve por coisa alguma.
Inventam-se razões. Explicam-se sentidos, que podem surgir a posteriori. Mas a priori, quem escreve, escreve porque tem que escrever. Numa ausência de sentido que é, para o escritor, a única fonte de significado.
No momento em que o escritor percebe que escreve só porque tem que escrever, entende que a mão não é dele e as palavras não são suas. O que para si é uma estranha urgência, não tem talvez significado para si, porque talvez o escritor, em si mesmo, não importe. Só importa aquilo que ele escrever. Não para que ele próprio encontre o seu significado, mas porque outros terão de o descobrir naquilo que foi escrito.
O escritor não vale, assim, por si. Por isso dificilmente um escritor se sente grande. É pequeno, perante aquilo que teve que escrever. Será sempre pequeno, na sua falta de sentido para o que fez, ainda que outros tenham descoberto no que ele fez todos os significados do mundo.
Escrever é, por isso, uma espécie de crença cega. Não se entendem os porquês, mas é preciso escrever o que se escreve. Não se sabe para que servirá, mas ainda assim terá de ser feito. Porque sim e nada mais. E, paradoxalmente (e talvez assim seja para tudo na vida) fazer-se algo porque sim e nada mais, talvez seja verdadeiramente fazer aquilo que não pode deixar de ser feito.

Boa Páscoa!

Independentemente de credos ou religiões, esta é a história que mudou a nossa História, perdurada século após século sob a forma de livro. A Páscoa é, por isso, para mim, a festa da palavra viva. E o dia em que, invariavelmente, me pergunto que palavras quero que descrevam a minha própria história e em que medida é ela também a história de todos nós.
Boa Páscoa a todos!

27/03/13

O Teatro da Minha Vida

Na última vez que experimentei ser atriz, olhei-me e ouvi-me com a certeza de que aquele não era o teatro da minha vida. O meu palco é, indiscutivelmente, a minha folha em branco. O meu corpo são os meus dedos. As minhas personagens, o que sinto com elas no silêncio da minha escrita. Hoje sinto-me atriz no sítio certo, soltando as palavras que outros dirão, sentindo aquilo a que outros saberão dar a sentir. Hoje, no meu recanto solitário, sou feliz a representar o papel da minha vida.
Feliz Dia Mundial do Teatro!
23/03/13

Duas Faces

Se um dia morrer sem uma única resposta, não me olhem com tristeza julgando que não devia ter vivido com tantas perguntas.
Não me olham julgando que deveria desligar o pensamento. Desistir de pensar quem sou, para que sirvo, o que é o mundo e para que serve. De onde vimos, para onde vamos, porque existimos.
É talvez mais fácil viver sem pensar, anestesiado pela falta de tempo, pela urgência do fazer, pelas alegrias do acontecer. É talvez mais fácil e talvez melhor. Mas quem nasceu para se perguntar, nunca viverá satisfeito na ausência de respostas. O pensamento de quem precisa de pensar para respirar não se desliga. Pode não ser fácil, pode não ser bom, mas é o que é para quem existe para ser assim.
Tentar anestesiar, é apenas adiar o inevitável, porque o efeito da anestesia acaba um dia, porque anestesia em excesso mata.
Tentar calar com a urgência do fazer é rebentar o que de bom existe, porque é preciso fazer muito, demais, para calar o que se quer pensar.
Tentar viver apenas nas alegrias do acontecer é maravilhoso, mas não chega. É como viver apenas uma das faces da moeda, que um dia vai inevitavelmente girar no ar, cair no chão, ser o que nunca se foi. Assumir duas faces - ainda que elas não se entendam, ainda que os outros não o compreendam - é uma verdade melhor do que a mentira de uma felicidade que não se chega.
22/03/13

Uma frase pertinente para os dias de hoje

"Em qualquer país em que o talento e a virtude não produzam progresso, o dinheiro será a divindade nacional."

Denis Diderot
21/03/13

Poeta sem o ser

Oiço em mim poemas que não o são
Sem métrica, sem compasso, sem estrutura
Multiplicando sem querer as palavras
Distribuindo sem querer essas vozes
Sinto-me poeta nas frases longas de muitas vidas
Fadista em todos os fados que ficaram por cantar
Sem me chegar o espaço, sem me chegar forma, sem me chegar a voz
Sou em potência aquilo que possa existir
Ou seja tudo, ou seja nada, é o meu devir
E se é verdade, ou se é mentira, já não me importa
Sou um fado triste, mas cantado a sorrir



20/03/13

Incerteza ou Ilusão?

Talvez uma sustentável ilusão seja preferível a uma angustiante incerteza...
Valorizo desde há muito o cepticismo, como forma de libertação da crença, mas hoje encaro a crença e não sei, na verdade, se haverá algo para além dela. Será ela assim tão nefasta? Sim, se envolta em preconceito. Não, se livre para voar sobre tudo aquilo que fizer sentido, em cada momento da nossa vida. E o que é o mundo, afinal, se não a nossa crença numa ilusão? Não será essa a única certeza que temos, a de que acreditamos em alguma coisa, por mais incerta que ela seja?
Temo há muito a certeza, por receio de a ver desfazer-se por um qualquer ataque, por um qualquer tremor e, com ela, eu tremer também. Eu me desfazer, com tudo o que construir em cima dela. Mas sem uma certeza, o que somos nós? O que sou eu? Sem uma certeza, nunca serei uma certeza para ninguém. Sem uma certeza, nunca serei uma certeza para mim própria.
Hoje, talvez só porque o sol brilhou e tocou a música certa no rádio do meu carro, decidi que seria uma certeza. Talvez venha a ser muitas certezas diferentes, muitas vezes, ao longo dos dias que me restarem. Talvez venha a pular de certeza em certeza, todos os dias. Mas, de certeza em certeza, serei sempre uma certeza qualquer, em vez de uma dúvida permanente, uma incerteza constante. E, se um dia essa certeza me fizer tremer e me desfizer, como nos meus piores pesadelos, que o faça na certeza de que fui aquilo em que um dia, por alguma razão, acreditei.