Em dia de Fernando Pessoa, cruzei Portugal a folhear as Pessoas que há em mim. No Alentejo, Alberto Caeiro. Em Lisboa, Bernardo Soares. No cansaço, Álvaro de Campos. Em dias racionais, Ricardo Reis. Mais além, o próprio Pessoa. Nenhum deles completamente. Mas muitos outros, em partes diversas, por razões variadas, vagueando por mim, sempre que me disponibilizo para ser passagem, leito de rio com uma única foz, a da folha de papel.
Em potência, sinto-me a súmula de todas as coisas, de todas as pessoas, de todos os sentimentos. Coerente na aparente manifestação, vivo (ou sobrevivo) à incoerência de todas as personagens que me habitam, que querem ter voz através de mim, que me assaltam a mão para libertar o que nunca chegaram a dizer.
Peco por nunca ser uma. Mas, na escrita, nunca estarei só. E só não vivo em heterónimos porque o meu tempo - ao contrário do de Pessoa - é o da imagem. E eu sou apenas um corpo ao manifesto. Um rosto (sempre o mesmo rosto) que não sabe desdobrar-se para revelar a face de todos aqueles que por ele se expressam...
O novo romance
"Depois de romancear a vida de D. Estefânia – o meu 'Anjo Branco', como lhe chamo – foi importante para mim dissecar a vida e o pensamento de um 'Anjo Negro', porque acredito que todos nós somos feitos de uma matéria e de outra, de sol e de lua, de luz e de sombra."
Dia 21 nas livrarias, recriando um século XVIII de amor e traição, intriga e vingança, onde importa questionar o que de nós é livre arbítrio ou destino.
Novidades para muito breve...
Dia 21 nas livrarias, recriando um século XVIII de amor e traição, intriga e vingança, onde importa questionar o que de nós é livre arbítrio ou destino.
Novidades para muito breve...
Do Medo
Combato em mim o medo de coisa nenhuma que valha a pena. Combato o medo que me chega quando recordo aquilo que um dia me amedrontou. Mas também o medo do que me ensinaram a ter medo. Combato um e outro questionando. Valherá a pena o medo? De quê? Porquê? Para quê? Não será sempre preferível errar a viver no medo de não acertar? Ir sem nunca chegar, do que nunca chegar a partir? Há medo que nos vem de dentro, mas também medo que nos vem de fora, chega-nos do olhar dos outros, das suas críticas, da sua censura. Vivemos rodeados de medo até ao dia em que percebemos que a vida é curta demais para não fazer o que temos de fazer, e que é sempre mais importante do que os outros, tantas vezes mais importante até do que nós próprios...
Fé em Portugal
«Quanto mais pode a Fé que a força humana!» (OS LUSÍADAS, III, 111)
De Camões, para um Portugal a precisar de fé em si próprio e nos seus.
Coisas de Novo livro
Recado da editora: o meu livro está pronto. Em breve entrará no mercado e sinto em mim a vertiginosa incapacidade de voltar atrás. O que fiz, está feito. O que escrevi, será lido. Melhor ou pior, já não me pertence. É agora de quem o folhear e ler, sentindo-o da mesma forma que eu ou diferente.
É inevitável não me perguntar se poderia ter feito melhor, mas estou em crer que não existe outra resposta para essa pergunta que não seja um "sim". Sim, é sempre possível fazer melhor. Mas não suporto que a eventualidade de poder ter feito melhor me roube a capacidade de o ter feito. Fiz o que quis. Fiz o que pude. Agora é vosso. Eu sigo para o próximo.
Dia 21 nas bancas.
É inevitável não me perguntar se poderia ter feito melhor, mas estou em crer que não existe outra resposta para essa pergunta que não seja um "sim". Sim, é sempre possível fazer melhor. Mas não suporto que a eventualidade de poder ter feito melhor me roube a capacidade de o ter feito. Fiz o que quis. Fiz o que pude. Agora é vosso. Eu sigo para o próximo.
Dia 21 nas bancas.
Sobre a liderança
Desde que o homem é homem que sabe que lhe é difícil sobreviver sozinho. Nunca foi um animal solitário, sempre gregário. Tinha o seu grupo, a sua tribo, a sua família... o seu bairro, a sua terra, o seu país, o seu continente. Agregou-se porque precisa de pertencer a algo. E um grupo, seja ele qual for, precisa de um líder. Um líder em que se acredite, que oriente, motive, oiça, resolva. Quando o grupo se torna grande, como o caso de um país, essa liderança pode ter subdivisões, outros líderes e pequenos líderes que liderem nas suas estruturas menores, mas em sintonia com essa liderança maior, em que todos deveriam acreditar.
O problema é que vivemos uma crise de liderança. A liderança, falando de forma generalizada (porque haverá sempre meritórias excepções) passou a ser um posto apetecível, mais do que exigente e de enorme responsabilidade, e a liderança passou a ser uma aspiração, mesmo de quem não tem a menor capacidade para tal. A guerra pela liderança passou a sobrepor-se à responsabilidade que é ser-se líder de um grupo. E o grupo passou a desconfiar dos seus líderes. A desconfiar de todos aqueles que o são e de todos aqueles que o pretendem ser.
A verdade é que, sem líderes, nunca poderemos ser um bom grupo. E isso afeta não só o grupo maior a que pertencemos (o continente, o país, a localidade) como depois também os grupos menores a que pertencemos. A desconfiança é a antítese do espírito de grupo. Uma equipa desportiva que desconfie do treinador, e depois desconfie do capitão, e depois desconfie de cada um dos jogadores, não poderá vencer um campeonato. Assim também um país que vive em regime de desconfiança generalizada nunca poderá vencer uma crise.
Na ausência de líderes em quem se confie, teríamos de reiventar novas formas de organização, que o suprimam. Mas conseguiremos viver em grupo sem líderes? Não creio. Ao mesmo tempo que não me parece que consigamos deixar de viver em grupos, porque somos gregários por natureza. E porque, em última instância, precisamos mesmo uns dos outros, para nossa sobrevivência. Se o humano passar a viver cada um por si, haverá uma guerra em cada esquina, porque o problema da desconfiança não só se manterá, como se agravará.
A solução passa, talvez, por voltarmos a ter líderes fortes. Líderes naturais que voltem a incutir confiança no grupo. Mas não creio que eles apareçam tão cedo. A existirem, não quererão liderar num regime de desconfiança como aquele que está instalado. Não quererão lutar contra a vontade de liderança de quem apenas deseja poder. Esses líderes, a existirem, terão receio da sua capacidade de liderança. Preferirão negá-la a impô-la num sistema subvertido à partida.
Não acredito, portanto, que encontremos esses líderes. Mas acredito que poderemos formá-los. Em uma ou duas gerações, se quisermos, poderemos formar crianças que entendam o que é a verdadeira liderança, que a respeitem, e que saibam trabalhar como grupo com vista a um objetivo comum. É no ensino e no apoio às famílias que pode estar a solução. É nos pais, professores e educadores que pode estar, neste momento, a capacidade de resolver este problema do país, que é extensível à maioria dos outros países também, eu diria mesmo ao ser humano em geral.
O problema é que vivemos uma crise de liderança. A liderança, falando de forma generalizada (porque haverá sempre meritórias excepções) passou a ser um posto apetecível, mais do que exigente e de enorme responsabilidade, e a liderança passou a ser uma aspiração, mesmo de quem não tem a menor capacidade para tal. A guerra pela liderança passou a sobrepor-se à responsabilidade que é ser-se líder de um grupo. E o grupo passou a desconfiar dos seus líderes. A desconfiar de todos aqueles que o são e de todos aqueles que o pretendem ser.
A verdade é que, sem líderes, nunca poderemos ser um bom grupo. E isso afeta não só o grupo maior a que pertencemos (o continente, o país, a localidade) como depois também os grupos menores a que pertencemos. A desconfiança é a antítese do espírito de grupo. Uma equipa desportiva que desconfie do treinador, e depois desconfie do capitão, e depois desconfie de cada um dos jogadores, não poderá vencer um campeonato. Assim também um país que vive em regime de desconfiança generalizada nunca poderá vencer uma crise.
Na ausência de líderes em quem se confie, teríamos de reiventar novas formas de organização, que o suprimam. Mas conseguiremos viver em grupo sem líderes? Não creio. Ao mesmo tempo que não me parece que consigamos deixar de viver em grupos, porque somos gregários por natureza. E porque, em última instância, precisamos mesmo uns dos outros, para nossa sobrevivência. Se o humano passar a viver cada um por si, haverá uma guerra em cada esquina, porque o problema da desconfiança não só se manterá, como se agravará.
A solução passa, talvez, por voltarmos a ter líderes fortes. Líderes naturais que voltem a incutir confiança no grupo. Mas não creio que eles apareçam tão cedo. A existirem, não quererão liderar num regime de desconfiança como aquele que está instalado. Não quererão lutar contra a vontade de liderança de quem apenas deseja poder. Esses líderes, a existirem, terão receio da sua capacidade de liderança. Preferirão negá-la a impô-la num sistema subvertido à partida.
Não acredito, portanto, que encontremos esses líderes. Mas acredito que poderemos formá-los. Em uma ou duas gerações, se quisermos, poderemos formar crianças que entendam o que é a verdadeira liderança, que a respeitem, e que saibam trabalhar como grupo com vista a um objetivo comum. É no ensino e no apoio às famílias que pode estar a solução. É nos pais, professores e educadores que pode estar, neste momento, a capacidade de resolver este problema do país, que é extensível à maioria dos outros países também, eu diria mesmo ao ser humano em geral.
O vulcão que habita em mim
Canto uma canção de embalar ao vulcão que habita em mim. "Sossega, meu bem", digo-lhe com carinho, amaciando a lava que se agita com o calor dos dias. Por mais que as palavras o serenem e os gestos o sosseguem, um vulcão jamais será uma planície. Haverá sempre o dia e a hora em que ele cuspirá fogo por ser quem é e como o fizeram. Não lhe canto com esperança de o mudar. Apenas para não o deixar entrar em erupção fora do tempo certo ou sem nada que justifique...
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