01/07/13

A crítica de Ferrão Katzenstein

"'A amante do Rei' é um processo sobre o destino de uma mulher. São as aventuras e desventuras de uma amante do Rei de Portugal, que se vê tolhida numa floresta de armadilhas, entre o clero submisso e a nobreza hipócrita do seu tempo, e que foi apanhada nas mãos do destino que parece tê-la escolhido mais do que ela a escolheu a ele.
Dona Tereza de Távora mantém sempre no seu discurso a vantagem da ousadia, que lhe permite se livrar da culpa antiga, até que o casulo de ferro se vai fechando por completo e ela perdura prisioneira dos interesses duma sociedade enganosa e desapiedada. (...)
O nosso sentimento e imaginação vão sendo conduzidos através da obra, sabor após sabor, elevando-se por ligeiras mudanças. Nos contrastes (mas também nas premonições e nas ressonâncias) entre mais escuro e mais claro, mais rápido e mais lento, mais simples e mais sofisticado, havendo sempre um equilíbrio, mas nem sempre uma simetria demasiado perfeita, para que a obra no seu todo seja sentida como inevitável e verosímil."
Ferrão Katzenstein

O meu profundo obrigada pelo tempo que dedicou ao meu livro.
29/06/13

A crítica de Rute Moreira

Acabo de receber a primeira crítica escrita ao meu livro, daquela que foi também a primeira pessoa a lê-lo, depois de ele chegar ao mercado. Partilho-a, porque diz tudo aquilo que eu poderia alguma vez desejar que alguém pensasse (já não iria ao ponto de desejar que o escrevesse), depois de o ler. Foi escrito por uma amiga que me conhece profundamente, e isso faz toda a diferença a quem o ler. Mas foi também escrito por uma Mulher de quem eu prezo muitíssimo a inteligência e a percepção invulgar do mundo e dos Homens, o que faz toda a diferença para mim.

Obrigada, Rute Moreira. Pelas tuas palavras, que nunca esquecerei, mas sobretudo pela Mulher que és, e que continuará a marcar a minha vida.

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Enquanto Romance Histórico, “A Amante do Rei” cumpre todas as expectativas. Estruturado sob uma pesquisa rigorosa, centra-se numa época rica e emocionante da nossa história – o Terramoto de 1755, as reformas do Marquês de Pombal e o processo dos Távora. Escrito na primeira pessoa e no presente do indicativo, transporta-nos numa viagem no tempo para o quotidiano da época, explora e revela pormenores e acontecimentos que entusiasmam e prendem qualquer amante deste género literário.

Só que, “A Amante do Rei”, é muito mais do que um romance histórico. É uma obra que se supera nos seus objetivos e extravasa a sua natureza. Apesar do tom narrativo acessível e despretensioso, não fica aquém de importantes tratados filosóficos deterministas, provoca Rousseau e faz lembrar, pelo que nos perturba e na genica da prosa, José Saramago que sempre usou o que escrevia para se aquietar e desta forma partilhar as suas mais profundas inquietações sobre a condição humana e o que nos move.

Este livro poder-se-ia chamar um ensaio sobre o Poder, onde Maquiavel teria ainda algo a descobrir e também não ficaria mal numa estante de psicologia, onde aspiramos encontrar respostas para a compreensão, à luz das suas emoções, da dinâmica das decisões e escolhas do Ser Humano.
É uma obra pejada de reflexões sobre a vida e o modo como a vivemos, que constantemente nos surpreende com as mais diversas e irreverentes analogias. O paralelismo entre a descrição de uma Tourada e a Justiça, é apenas um de muitos exemplos de que nos obriga a questionarmo-nos, provocando novos paradigmas.

Como se tudo isto não fosse suficientemente arrebatador para uma obra só, a autora permitiu-se à ousadia de revelar, de forma despudorada e inconsequente, o “Santo Graal” do universo feminino. Segredos que só às mulheres que ousam visitar as profundezas da sua natureza, são revelados, com a condição tácita de os guardarem para além do que consideram ser guardar um segredo.

Se tivesse que escolher uma palavra para definir esta obra, diria que é revolucionária. E como mulher que sou, quebraria de imediato a regra que acabei de criar e usaria ainda outra palavra.

Esta obra é revolucionária por ser estritamente feminina na sua capacidade de polivalência – é um arrebatador romance; uma rigorosa descrição histórica, uma reflexão filosófica sobre o Determinismo e um tratado de psicologia sobre a importância do poder para os humanos e todas as formas que encontram para o exercer - onde o sexo tem a força que todos lhe reconhecemos mesmo que não o queiramos confessar.

Por último e em primeiro lugar, diria que esta obra é revolucionária porque é um acto de coragem da autora, na descrição do pensamento emocional da mulher a quem veste a pele.
Este dificílimo exercício de entrega e verdade obrigou a autora a superar-se na mestria da escrita e a transcender-se pessoalmente, desafiando os seus mais profundos medos e fazendo-nos desafiar os nossos.
D. Teresa é apenas a personificação do que existe de mais assustador - e por isso mesmo irresistível – na essência de cada mulher.

O que não vale a pena dizer, pois o leitor só irá perceber depois de percorrer as páginas deste livro, é que é uma obra profundamente inteligente, por ter a capacidade de expor à vista de todos os mais profundos segredos do universo feminino e, ainda assim, consegue mantê-los hermeticamente ocultos pelo inevitável Determinismo que até a autora está sujeita.

Não me perguntem pela outra palavra que usaria para descrever este romance pois, quando o lerem, perceberão certamente da inutilidade da pergunta e, consequentemente, da resposta.


Se alguém me pedisse para fazer uma crítica ao romance “A Amante do Rei”, seria assim que a faria.

Rute Moreira
29.06.2013
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28/06/13

Convite para a apresentação de "D. Teresa de Távora, a Amante do Rei"

Comparo muitas vezes a escrita de um livro com um nascimento de um filho que depois entregamos ao mundo. Recordo cada um dos meus "partos literários", e sinto muito os meus livros como filhos que depois se fazem ao mundo, uns com mais sorte do que outros, uns com mais aptidões, outros com mais fraquezas.
Este, é fruto de uma "gravidez" dura e de um "parto" difícil. Nunca um livro me tinha obrigado a um confronto tão grande com os meus medos e tabus. A um abalo tão forte nas minhas convicções. Cheguei a temer a destruição. Mas por vezes é importante deitar por terra tudo aquilo que em nós não tinha alicerces para resistir à dúvida. E reconstruir algo novo com aquilo que sobrou...

Conto convosco no dia 2...



26/06/13

Parabéns, Xico!

Há pessoas que se cruzam na nossa vida e nos deixam a sua marca. Por mais que não as tenhamos presentes, no nosso dia-a-dia, recordamos as suas palavras e as suas lições de vida. A minha lista e longa, mas hoje destaco aquele a quem chamarei sempre de "Padrinho" (na melhor acepção da palavra): Francisco Nicholson, que hoje comemora a bonita idade de 75 anos. Com ele aprendi muito de guionismo, mas o que guardo, sobretudo, é o seu olhar sobre a vida. Nunca terei a sua deliciosa ironia, muito menos a sua graça, mas esforço-me muitas vezes por não levar a vida tão a sério... e, com ele em pensamento, mando os problemas para trás das costas e sorrio.
Os meus parabéns, Xico! Pelo aniversário, pelo talento, pela vida.

22/06/13

Mas e o céu?

Quando as dúvidas sobre quem sou me assaltam, e renasce em mim o medo de não saber viver sem me perder, deito os olhos ao céu e procuro-me na certeza de que, a haver algo ou alguém que saiba o que eu desconheço, esse algo ou alguém estará acima de mim. Acima de nós, para além de tudo aquilo que nos é dado conhecer, pelo menos a quem não tem olhos para ver mais além (e eu não tenho). Saber que o céu me conhece melhor do que tudo e todos lembra-me simultaneamente que, aqui em baixo, as únicas certezas são aquelas que decidirmos tomar como certas. Nada é seguro, nada é fácil, nada é concreto ou verdadeiro, senão aquilo em que decidirmos acreditar. E é fácil perdermo-nos quando a base de tudo o que existe é não mais do que uma crença, ou não fosse a crença, na sua essência, etérea e efémera, habitando-nos apenas o tempo suficiente até outra crença nos abraçar com novo fôlego. A crença é circunstância. É local e temporal. Familiar. Contextual. E agarramo-nos a ela como se não houvesse mais nada, e tudo em nós fosse o aqui e o agora e o outro que nos é dado viver. Estamos reduzidos ao espaço e ao tempo e aos que nos rodeiam e há quem viva uma vida inteira na crença de que a vida é isso mesmo. Só isso mesmo. Mas e o céu? E tudo o que está mais além? E tudo o que é tudo e é de todos, sem espaço nem tempo, nem o outro ou o demais? Olhar o céu é tudo o que me resta, quando quero recordar que, acima desta fragmentação de gente, a tentar sobreviver no seu fragmento, existe uma unidade maior que é a única verdade verdadeiramente sem limites.
19/06/13

Saramago... sempre!

Saudades de Saramago...

"No meu tempo de escola primária, algumas crédulas e ingénuas pessoas, a quem dávamos o respeitoso nome de mestres, ensinaram-me que o homem, além de ser um animal racional, era, também, por graça particular de Deus, o único que de tal fortuna se podia gabar. Ora, sendo as primeiras lições aquelas que mais perduram no nosso espírito, ainda que, muitas vezes, ao longo da vida, julguemos tê-las esquecido, vivi durante muitos anos aferrado à crença de que, apesar de umas tantas contrariedades e contradições, esta espécie de que faço parte usava a cabeça como aposento e escritório da razão. Certo era que o pintor Goya, surdo e sábio, me protestava que é no sono dela que se engendram os monstros, mas eu argumentava que, não podendo ser negado o surgimento dessas avantesmas, tal só acontecia quando a razão, pobrezinha, cansada da obrigação de ser razonável, se deixava vencer pela fadiga e mergulhava no esquecimento de si própria. Chegado agora a estes dias, os meus e os do mundo, vejo-me diante de duas probabilidades: ou a razão, no homem, não faz senão dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre os animais, é, também indubitavelmente, o mais irracional de todos eles. Vou-me inclinando cada vez mais para a segunda hipótese, não por ser eu morbidamente propenso a filosofias pessimistas, mas porque o espectáculo do mundo é, em minha fraca opinião, e de todos os pontos de vista, uma demonstração explícita e evidente do que chamo a irracionalidade humana. Vemos o abismo, está aí diante dos olhos, e contudo avançamos para ele como uma multidão de «lemmings» suicidas, com a capital diferença de que, de caminho, nos vamos entretendo a trucidar-nos uns aos outros."

José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote' (1993)

D. Teresa de Távora

Dia 21 de junho é dia de solstício (do latim "sol parado") de verão, no hemisfério norte. Teremos o dia mais longo e a noite mais curta do ano. Teremos também "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei" nas livrarias. E que o sol me ilumine, para dar a cara pelo livro que mais me fez questionar a escuridão...