Um poema da juventude (1994), escrito numa noite escura de poesia:
FLORBELA, BELA FLOR
Poema dedicado a “Soror Saudade”
Que fizeste em mim, Florbela,
bela Flor?
Que do teu reino tão distante,
tão só teu,
lanças sobre mim esse sopro de loucura, de demente
Talhas-me com aquilo que eras,
não me deixas ser aquilo que nunca foste,
e riste-te por voltar a ver, em mim, essas quimeras...
E todas essas falsas esperas,
de sonhos e desejos infinitos,
de amores nunca correspondidos,
de Deuses, de anjos benditos...
Diz-me Florbela, bela Flor,
qual será o meu destino...
Se é também morrer na dor
Se é viver esse constante ardor,
de uma vida em desatino..?
Nisso te enfrento, fraca Flor!
Que o meu caule é de ferro e fogo
E o meu espírito anseia por viver
nesta vida, a tentar ser,
marinheiro que enfrenta um Bojador...
Mas até nisso me persegues, me confundes,
o que era Vida, acabas por vencer
E se algo resta em mim, como uma flor,
até nisso acabas por morrer...
E és só tu, e sou só eu, já somos nós,
numa fusão de sonhos desfeitos,
poemas bem feitos,
almas que choram num dia de sol,
por se ser tanto, e depois nada,
viver para logo morrer,
sofrer a duração de uma risada...
Quiseste tudo,
acabaste por ser nada
E eu quis ser Eu,
acabei por seres Tu,
e nem Tu nem Eu,
nem Eu nem Tu,
que fomos tudo,
somos nada...
Outono em Mim
A sermos coerência, ela é necessariamente cíclica, em movimento permanente, como tudo aquilo que nos rodeia e a que pertencemos na mesma medida em que tudo nos pertence. Como a rotação da Terra. Como o fluxo das marés. Como o ciclo das estações.
Sinto em mim a chegada do Outono. O vento a perseguir-me, o frio a tocar-me e a empurrar-me para um solitário recolhimento. Do verão, guardo todo o alimento que em mim ficou, para suportar a escuridão: descanso, sol, água, luz. Mas agora é tempo de me recolher, trabalhar o interior, sentir a chuva e o frio, fechada no meu casulo. Até que uma nova primavera desperte em mim e as asas se voltem a abrir para rasgar o céu azul...
Outono de Vivaldi
Sinto em mim a chegada do Outono. O vento a perseguir-me, o frio a tocar-me e a empurrar-me para um solitário recolhimento. Do verão, guardo todo o alimento que em mim ficou, para suportar a escuridão: descanso, sol, água, luz. Mas agora é tempo de me recolher, trabalhar o interior, sentir a chuva e o frio, fechada no meu casulo. Até que uma nova primavera desperte em mim e as asas se voltem a abrir para rasgar o céu azul...
Outono de Vivaldi
As Máscaras da escrita
"As máscaras olham-se sabendo-se máscaras. Usam um olhar que não lhes pertence, e esse olhar, que vê, não se vê. Colocamos no rosto uma máscara e somos outro aos olhos de quem nos olhe. Mas de súbito descobrimos, aterrados, que, por trás da máscara que afinal não poderemos ser, não sabemos quem somos."
José Saramago em "As Máscaras que se Olham"
José Saramago em "As Máscaras que se Olham"
Da música e do seu poder
Pode a música ser instrumentalizada para nos conduzir o pensamento? Estará o segredo na afinação?
http://portugalmundial.com/2013/08/440hz-conspiracao-contra-a-mente-humana/
Não tenho dúvidas acerca do poder da música. Não tenho dúvidas de que esse poder tem sido usado por quem tem sede de poder. Mas a verdade é que a música tem mudado ao longo dos tempos. Espontaneamente, o homem começa a criar com outras balizas, dá vida a outras vidas, procura intuitivamente novas sonoridades. Talvez a música acompanhe a nossa evolução. E os criadores, inconscientemente, colocam essa evolução em pauta. E ao partilharem-na - porque a música tem efetivamente esse poder de unificar e conduzir - empurram a Humanidade para onde ela deve caminhar. Às vezes por caminhos tortuosos (também eles fazem parte da evolução). Outras através de saltos evolutivos que fazem toda a diferença, no nosso mundo.
Escutamos a rádio. A música mudou. Há uns anos agitava-me. Hoje, tranquiliza-me. Eu mudei. Mas a música também mudou, criada por músicos que mudaram também. E, todos juntos, trilhamos o caminho necessário, ao som da música que nos embala.
http://portugalmundial.com/2013/08/440hz-conspiracao-contra-a-mente-humana/
Não tenho dúvidas acerca do poder da música. Não tenho dúvidas de que esse poder tem sido usado por quem tem sede de poder. Mas a verdade é que a música tem mudado ao longo dos tempos. Espontaneamente, o homem começa a criar com outras balizas, dá vida a outras vidas, procura intuitivamente novas sonoridades. Talvez a música acompanhe a nossa evolução. E os criadores, inconscientemente, colocam essa evolução em pauta. E ao partilharem-na - porque a música tem efetivamente esse poder de unificar e conduzir - empurram a Humanidade para onde ela deve caminhar. Às vezes por caminhos tortuosos (também eles fazem parte da evolução). Outras através de saltos evolutivos que fazem toda a diferença, no nosso mundo.
Escutamos a rádio. A música mudou. Há uns anos agitava-me. Hoje, tranquiliza-me. Eu mudei. Mas a música também mudou, criada por músicos que mudaram também. E, todos juntos, trilhamos o caminho necessário, ao som da música que nos embala.
Crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei" no blog O Tempo entre os Meus Livros
Outra crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei" na blogosfera. E penso para mim que, se um livro publicado é um pensamento que ganha corpo, um livro que é lido é uma vida que interage com as outras vida à sua volta... E isso, para o bem e para o mal (porque nem todos os relacionamentos são perfeitos) é tudo o que faz sentido para quem o criou.
"
É na voz de D.Teresa que Sara Rodi nos remete para o séc. XVIII, mais propriamente para os anos de 1738 e seguintes, passando pelos sangrentos 1755 (Terramoto de Lisboa) e 1759 (todo o processo dos Távora que culminou com a execução daquela família).
Quem nos fala não é uma mulher perfeita e tem consciência disso. Questiona as suas atitudes, interroga-se sobre aquilo que quer, comete erros e reflete sobre eles. D.Teresa, em jeito de confidência, conta-nos os seus segredos e as suas preocupações, sentindo-se um mero peão em jogos de poder que a ultrapassam completamente. Ama livremente numa época em que isso não é bem visto: as mulheres vêem-na como uma rameira e sentem medo dela; os homens, cobiçam-na.
Mas Teresa questiona também o papel da mulher na sociedade, prometida que estava, desde que nasceu, a seu sobrinho Luís Bernardo. Questiona a fé e o papel da Igreja, as profecias que justificavam os grandes desastres da natureza, como foi o terramoto, através dos pecados cometidos pelos homens.
Este tom intimista, que a autora soube tão bem reproduzir, revela uma imaginação surpreendente tanto mais que só se conhecem os traços gerais da vida de D. Teresa. O que achei espectacular ao fazer esta leitura foi o conseguir aperceber-me quais os factos verídicos que estão por detrás desta história e quais os que saíram da imaginação de Sara Rodi, sem que isso viesse a desfavorecer esta estória. Bem pelo contrário!
Retratar D.Teresa foi, sem dúvida um desafio superado com mestria. As suas ideias revolucionárias e complexas para a época mas também algo ingénuas foram soberbamente postas no papel e levam-nos a criar uma certa empatia com o seu sentir, o seu viver e o seu sofrer!
A capa traduz na perfeição o interior deste livro. Bela, sensual e algo indomável, Teresa de Távora foi alguém que pensava para mais além do que era permitido às mulheres... A autora soube introduzir neste carácter rebelde algumas questões filosóficas como o livre-arbítrio e a predestinação, enriquecendo o romance e tornando-o mais interessante para o leitor.
Recomendo esta leitura, sobretudo para aqueles que gostam de um bom romance histórico!
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http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.pt/2013/08/d-teresa-de-tavora-amante-do-rei-de.html
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É na voz de D.Teresa que Sara Rodi nos remete para o séc. XVIII, mais propriamente para os anos de 1738 e seguintes, passando pelos sangrentos 1755 (Terramoto de Lisboa) e 1759 (todo o processo dos Távora que culminou com a execução daquela família).
Quem nos fala não é uma mulher perfeita e tem consciência disso. Questiona as suas atitudes, interroga-se sobre aquilo que quer, comete erros e reflete sobre eles. D.Teresa, em jeito de confidência, conta-nos os seus segredos e as suas preocupações, sentindo-se um mero peão em jogos de poder que a ultrapassam completamente. Ama livremente numa época em que isso não é bem visto: as mulheres vêem-na como uma rameira e sentem medo dela; os homens, cobiçam-na.
Mas Teresa questiona também o papel da mulher na sociedade, prometida que estava, desde que nasceu, a seu sobrinho Luís Bernardo. Questiona a fé e o papel da Igreja, as profecias que justificavam os grandes desastres da natureza, como foi o terramoto, através dos pecados cometidos pelos homens.
Este tom intimista, que a autora soube tão bem reproduzir, revela uma imaginação surpreendente tanto mais que só se conhecem os traços gerais da vida de D. Teresa. O que achei espectacular ao fazer esta leitura foi o conseguir aperceber-me quais os factos verídicos que estão por detrás desta história e quais os que saíram da imaginação de Sara Rodi, sem que isso viesse a desfavorecer esta estória. Bem pelo contrário!
Retratar D.Teresa foi, sem dúvida um desafio superado com mestria. As suas ideias revolucionárias e complexas para a época mas também algo ingénuas foram soberbamente postas no papel e levam-nos a criar uma certa empatia com o seu sentir, o seu viver e o seu sofrer!
A capa traduz na perfeição o interior deste livro. Bela, sensual e algo indomável, Teresa de Távora foi alguém que pensava para mais além do que era permitido às mulheres... A autora soube introduzir neste carácter rebelde algumas questões filosóficas como o livre-arbítrio e a predestinação, enriquecendo o romance e tornando-o mais interessante para o leitor.
Recomendo esta leitura, sobretudo para aqueles que gostam de um bom romance histórico!
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http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.pt/2013/08/d-teresa-de-tavora-amante-do-rei-de.html
Literatura e culinária
Por vezes penso que a literatura não difere muito da culinária. Demoramos tanto tempo a escrever um livro e depois ele lê-se tão depressa... Felizmente, assim como guardamos na memória o sabor daqueles pratos preparados com carinho, também os livros, depois de lidos, ficam em nós. Digerimo-los, aproveitamos o que nos importa para o nosso dia-a-dia (mandando fora o que não nos serve) e guardamos deles o bom sabor das palavras.
Do espírito competitivo
Oiço frequentemente falar da importância do espírito competitivo, como se ela fosse condição necessária para nos levar a dar o melhor de nós. Mas não será a "garra" ainda mais genuína, se não implicar deixar os outros para trás? Talvez quem não sinta essa "garra", essa vontade de dar o seu melhor, não esteja no lugar certo, a dar aquilo que tem de dar. A verdadeira "garra" é a da paixão por aquilo que se faz. É a da vontade de o fazer. É a da sensação de nele encontrar um sentido. Uma necessidade boa. Uma alegria inerente.
O espírito competitivo não é mais do que um resquício do nosso instinto animal. Da nossa lógica de sobrevivência. Tudo isso nos conduziu até aqui, entre guerras e conflitos, enganos e traições, sede irresistível de poder. Se queremos um mundo diferente, talvez seja tempo de trocar definitivamente o espírito competitivo pelo espírito de entreajuda. A lógica de que temos de ser melhores do que os outros, pela lógica de que todos temos o nosso espaço e as nossas mais-valias, e precisamos definitivamente uns dos outros para construir um mundo melhor.
"A educação que tem prevalecido no passado tem sido insignificante, incompleta, superficial. Só ensina as pessoas ganhar dinheiro para viverem, mas não abre os horizontes sobre a vida em si mesma (...). Não só é incompleta como daninha... Porque está baseada na competição. Qualquer tipo de competição tem uma raiz violenta e cria pessoas que não sabem amar... Naturalmente, têm de lutar e estar em conflito com elas mesmas. Isso destrói as suas alegrias e destrói as suas amizades."
(in "O Livro da Criança", Osho)
O espírito competitivo não é mais do que um resquício do nosso instinto animal. Da nossa lógica de sobrevivência. Tudo isso nos conduziu até aqui, entre guerras e conflitos, enganos e traições, sede irresistível de poder. Se queremos um mundo diferente, talvez seja tempo de trocar definitivamente o espírito competitivo pelo espírito de entreajuda. A lógica de que temos de ser melhores do que os outros, pela lógica de que todos temos o nosso espaço e as nossas mais-valias, e precisamos definitivamente uns dos outros para construir um mundo melhor.
"A educação que tem prevalecido no passado tem sido insignificante, incompleta, superficial. Só ensina as pessoas ganhar dinheiro para viverem, mas não abre os horizontes sobre a vida em si mesma (...). Não só é incompleta como daninha... Porque está baseada na competição. Qualquer tipo de competição tem uma raiz violenta e cria pessoas que não sabem amar... Naturalmente, têm de lutar e estar em conflito com elas mesmas. Isso destrói as suas alegrias e destrói as suas amizades."
(in "O Livro da Criança", Osho)
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