16/09/13

Crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei"

Mais uma crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei" na blogosfera. Ser-se lido, enternece. Mas é quando se é compreendido que tudo ganha verdadeiro sentido...
Obrigada, "Páginas com Memória":

"A primeira descoberta que se faz com esta leitura é a da sagacidade com que Sara Rodi trata a História.(...)
O livro poderia até ser transformado numa ferramenta de ensino atraente, desde que contextualizado.
Mas o prazer maior vem de algo que afectará as leitoras - e, neste caso, o género é importante - de maneira muito mais pessoal. (...)
Visto que se torna amante do rei, ganhou já uma liberdade de costumes que se prolongará para o seu pensamento.
As suas reivindicações e dúvidas falam, primeiro, dos seus desejos num tempo em que as mulheres os não deveriam ter.
A dimensão individual extravasa para a consciência social da sua época, para o papel da mulher evidentemente, mas ainda para o papel subjugado da própria Humanidade aos desígnios que a Igreja, por exemplo, tem sobre as pessoas.
Um domínio sobre o livre alvedrio de cada um ao impôr leituras muito estritas acerca dos fenómenos naturais, por exemplo, já que este é um tema que tocará directamente a vida de D. Teresa de Távora.
Em serviço desta ligação do mundo à sua volta e dos detalhes da sua própria vida está a escolha que Sara Rodi fez para o registo na primeira pessoa.
Muitas vezes tornada numa confissão, cria uma sensação de diálogo com o leitor, que receberá melhor a protagonista.
Uma mulher muito bem traçada, com defeitos e peculiaridades que poderemos censurar mas que aceitamos melhor como pontos de equilíbrio para uma mulher que surge como protagonista por ter sido amante do D. José I.
Mas cujo verdadeiro protagonismo neste livro é o de mulher em confronto - pelo menos, confronto próprio - com o seu tempo.
De sobremaneira, é por não ser perfeita e por a escritora não ter expugnado as suas faltas, que D. Teresa de Távora se torna uma guia tão interessante pelo século XVIII.
Não fosse por estar imiscuída com um lado mais sórdido do reino, não poderia a ficção inseri-la em tantos momentos relevantes e transformadores.
Pelo percurso desta mulher chegaremos a conhecer as tragédias que se abateram sobre Lisboa e sobre os próprios Távoras. As tragédias que haveriam de vincar o nome do Marquês de Pombal na memória colectiva.
Ela dá-nos uma visão da História com uma perspectiva de leitura histórica pouco habitual, o que faz com que o livro nos esclareça tanto quanto nos exige que reflictamos sobre o que se passou no período da vida desta mulher.
Dar protagonismo a uma amante é, de certa forma, entrar na História por uma porta lateral. Mesmo se, neste caso, se trata de uma porta que nunca esteve escondida.
Mas não importa por onde entremos, pois também essa porta lateral vai permitir que constatemos a magnificência do edifício que se ergue para lá dela."

http://paginas-com-memoria.blogspot.pt/2013/09/d-teresa-de-tavora-amante-do-rei-sara.html
11/09/13

Florbela, Bela Flor

Um poema da juventude (1994), escrito numa noite escura de poesia:




FLORBELA, BELA FLOR

Poema dedicado a “Soror Saudade”





Que fizeste em mim, Florbela,

bela Flor?



Que do teu reino tão distante,

tão só teu,

lanças sobre mim esse sopro de loucura, de demente

Talhas-me com aquilo que eras,

não me deixas ser aquilo que nunca foste,

e riste-te por voltar a ver, em mim, essas quimeras...



E todas essas falsas esperas,

de sonhos e desejos infinitos,

de amores nunca correspondidos,

de Deuses, de anjos benditos...



Diz-me Florbela, bela Flor,

qual será o meu destino...

Se é também morrer na dor

Se é viver esse constante ardor,

de uma vida em desatino..?



Nisso te enfrento, fraca Flor!

Que o meu caule é de ferro e fogo

E o meu espírito anseia por viver

nesta vida, a tentar ser,

marinheiro que enfrenta um Bojador...



Mas até nisso me persegues, me confundes,

o que era Vida, acabas por vencer

E se algo resta em mim, como uma flor,

até nisso acabas por morrer...



E és só tu, e sou só eu, já somos nós,

numa fusão de sonhos desfeitos,

poemas bem feitos,

almas que choram num dia de sol,

por se ser tanto, e depois nada,

viver para logo morrer,

sofrer a duração de uma risada...



Quiseste tudo,

acabaste por ser nada

E eu quis ser Eu,

acabei por seres Tu,

e nem Tu nem Eu,

nem Eu nem Tu,

que fomos tudo,

somos nada...

Outono em Mim

A sermos coerência, ela é necessariamente cíclica, em movimento permanente, como tudo aquilo que nos rodeia e a que pertencemos na mesma medida em que tudo nos pertence. Como a rotação da Terra. Como o fluxo das marés. Como o ciclo das estações.
Sinto em mim a chegada do Outono. O vento a perseguir-me, o frio a tocar-me e a empurrar-me para um solitário recolhimento. Do verão, guardo todo o alimento que em mim ficou, para suportar a escuridão: descanso, sol, água, luz. Mas agora é tempo de me recolher, trabalhar o interior, sentir a chuva e o frio, fechada no meu casulo. Até que uma nova primavera desperte em mim e as asas se voltem a abrir para rasgar o céu azul...


Outono de Vivaldi
10/09/13

As Máscaras da escrita

"As máscaras olham-se sabendo-se máscaras. Usam um olhar que não lhes pertence, e esse olhar, que vê, não se vê. Colocamos no rosto uma máscara e somos outro aos olhos de quem nos olhe. Mas de súbito descobrimos, aterrados, que, por trás da máscara que afinal não poderemos ser, não sabemos quem somos."

José Saramago em "As Máscaras que se Olham"
09/09/13

Da música e do seu poder

Pode a música ser instrumentalizada para nos conduzir o pensamento? Estará o segredo na afinação?

http://portugalmundial.com/2013/08/440hz-conspiracao-contra-a-mente-humana/

Não tenho dúvidas acerca do poder da música. Não tenho dúvidas de que esse poder tem sido usado por quem tem sede de poder. Mas a verdade é que a música tem mudado ao longo dos tempos. Espontaneamente, o homem começa a criar com outras balizas, dá vida a outras vidas, procura intuitivamente novas sonoridades. Talvez a música acompanhe a nossa evolução. E os criadores, inconscientemente, colocam essa evolução em pauta. E ao partilharem-na - porque a música tem efetivamente esse poder de unificar e conduzir - empurram a Humanidade para onde ela deve caminhar. Às vezes por caminhos tortuosos (também eles fazem parte da evolução). Outras através de saltos evolutivos que fazem toda a diferença, no nosso mundo.
Escutamos a rádio. A música mudou. Há uns anos agitava-me. Hoje, tranquiliza-me. Eu mudei. Mas a música também mudou, criada por músicos que mudaram também. E, todos juntos, trilhamos o caminho necessário, ao som da música que nos embala.
03/09/13

Crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei" no blog O Tempo entre os Meus Livros

Outra crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei" na blogosfera. E penso para mim que, se um livro publicado é um pensamento que ganha corpo, um livro que é lido é uma vida que interage com as outras vida à sua volta... E isso, para o bem e para o mal (porque nem todos os relacionamentos são perfeitos) é tudo o que faz sentido para quem o criou.

"
É na voz de D.Teresa que Sara Rodi nos remete para o séc. XVIII, mais propriamente para os anos de 1738 e seguintes, passando pelos sangrentos 1755 (Terramoto de Lisboa) e 1759 (todo o processo dos Távora que culminou com a execução daquela família).

Quem nos fala não é uma mulher perfeita e tem consciência disso. Questiona as suas atitudes, interroga-se sobre aquilo que quer, comete erros e reflete sobre eles. D.Teresa, em jeito de confidência, conta-nos os seus segredos e as suas preocupações, sentindo-se um mero peão em jogos de poder que a ultrapassam completamente. Ama livremente numa época em que isso não é bem visto: as mulheres vêem-na como uma rameira e sentem medo dela; os homens, cobiçam-na.

Mas Teresa questiona também o papel da mulher na sociedade, prometida que estava, desde que nasceu, a seu sobrinho Luís Bernardo. Questiona a fé e o papel da Igreja, as profecias que justificavam os grandes desastres da natureza, como foi o terramoto, através dos pecados cometidos pelos homens.

Este tom intimista, que a autora soube tão bem reproduzir, revela uma imaginação surpreendente tanto mais que só se conhecem os traços gerais da vida de D. Teresa. O que achei espectacular ao fazer esta leitura foi o conseguir aperceber-me quais os factos verídicos que estão por detrás desta história e quais os que saíram da imaginação de Sara Rodi, sem que isso viesse a desfavorecer esta estória. Bem pelo contrário!

Retratar D.Teresa foi, sem dúvida um desafio superado com mestria. As suas ideias revolucionárias e complexas para a época mas também algo ingénuas foram soberbamente postas no papel e levam-nos a criar uma certa empatia com o seu sentir, o seu viver e o seu sofrer!

A capa traduz na perfeição o interior deste livro. Bela, sensual e algo indomável, Teresa de Távora foi alguém que pensava para mais além do que era permitido às mulheres... A autora soube introduzir neste carácter rebelde algumas questões filosóficas como o livre-arbítrio e a predestinação, enriquecendo o romance e tornando-o mais interessante para o leitor.

Recomendo esta leitura, sobretudo para aqueles que gostam de um bom romance histórico!
"

http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.pt/2013/08/d-teresa-de-tavora-amante-do-rei-de.html
01/09/13

Literatura e culinária

Por vezes penso que a literatura não difere muito da culinária. Demoramos tanto tempo a escrever um livro e depois ele lê-se tão depressa... Felizmente, assim como guardamos na memória o sabor daqueles pratos preparados com carinho, também os livros, depois de lidos, ficam em nós. Digerimo-los, aproveitamos o que nos importa para o nosso dia-a-dia (mandando fora o que não nos serve) e guardamos deles o bom sabor das palavras.