Como um rio que corre para o mar, a vida encaminha-nos também para onde devemos chegar. Sentimo-nos tantas vezes um peixe entre tantos, incógnito, sujeito às malhas do destino, aos predadores vorazes que se escondem por entre as pedras, à poluição corrosiva que nos intoxica sem darmos conta... O medo paralisa-nos. Os perigos distraem-nos. E tudo aquilo que em nós seria natural, espontâneo, dinâmico e poderoso, se perde. Deixamos de estar sintonizados com os outros em cada movimento desejavelmente sincronizado. Deixamos de intuir o perigo. Deixamos de ter defesas para o ataque. Isolamo-nos. Saímos da rota e perdemo-nos. Sozinhos, morremos.
Se os peixes sabem para onde nadar, se os pássaros sabem para onde voar, como podemos nós perder-nos? A vida é necessariamente este movimento que nos encaminha para algo melhor. A vida é esta sincronicidade perfeita com tudo o que nos envolve e todos aqueles que viajam connosco. Intuitivamente, todos nós sabemos o caminho. É um movimento tão natural como respirar. É tão inato como existir. Só temos de sentir para onde a vida nos leva. Alinhados na nossa rota, o mar abre-se para nos deixar passar, o céu rasga-se para nos deixar voar, sem perigos que não saibamos contornar, nem sabedoria que nos falte para chegar onde nos esperam...
http://www.youtube.com/watch?v=Bt3t4j6fYyo
Da loucura de viver
Se se sentissem deste mundo todos aqueles que por aqui andam, não haveria ninguém que ousasse dizer de onde vimos, para onde vamos. Crenças ou não, meras hipóteses ou loucuras, ninguém o sabe, mas esse é o exercício necessário de quem daqui não se sente, buscando o seu lugar fora daquilo que lhe é dado viver. Soa a loucura, efetivamente, essa não-pertença ao pó do caminho, esse olhar o céu sempre mais além, essa certeza no invisível e no indizível... mas porque são mais loucos estes do que todos os outros que se sentem pertença deste louco mundo?
Escrever com verdade
“Boa escrita é escrita da Verdade. Se um homem está a criar uma história, ela será verdadeira em termos proporcionais à quantidade de conhecimento de vida que ele tem e quão consciente ele é!"
Ernest Hemingway
Ernest Hemingway
Crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei"
Mais uma crítica a "D. Teresa de Távora - A Amante do Rei" na blogosfera. Ser-se lido, enternece. Mas é quando se é compreendido que tudo ganha verdadeiro sentido...
Obrigada, "Páginas com Memória":
"A primeira descoberta que se faz com esta leitura é a da sagacidade com que Sara Rodi trata a História.(...)
O livro poderia até ser transformado numa ferramenta de ensino atraente, desde que contextualizado.
Mas o prazer maior vem de algo que afectará as leitoras - e, neste caso, o género é importante - de maneira muito mais pessoal. (...)
Visto que se torna amante do rei, ganhou já uma liberdade de costumes que se prolongará para o seu pensamento.
As suas reivindicações e dúvidas falam, primeiro, dos seus desejos num tempo em que as mulheres os não deveriam ter.
A dimensão individual extravasa para a consciência social da sua época, para o papel da mulher evidentemente, mas ainda para o papel subjugado da própria Humanidade aos desígnios que a Igreja, por exemplo, tem sobre as pessoas.
Um domínio sobre o livre alvedrio de cada um ao impôr leituras muito estritas acerca dos fenómenos naturais, por exemplo, já que este é um tema que tocará directamente a vida de D. Teresa de Távora.
Em serviço desta ligação do mundo à sua volta e dos detalhes da sua própria vida está a escolha que Sara Rodi fez para o registo na primeira pessoa.
Muitas vezes tornada numa confissão, cria uma sensação de diálogo com o leitor, que receberá melhor a protagonista.
Uma mulher muito bem traçada, com defeitos e peculiaridades que poderemos censurar mas que aceitamos melhor como pontos de equilíbrio para uma mulher que surge como protagonista por ter sido amante do D. José I.
Mas cujo verdadeiro protagonismo neste livro é o de mulher em confronto - pelo menos, confronto próprio - com o seu tempo.
De sobremaneira, é por não ser perfeita e por a escritora não ter expugnado as suas faltas, que D. Teresa de Távora se torna uma guia tão interessante pelo século XVIII.
Não fosse por estar imiscuída com um lado mais sórdido do reino, não poderia a ficção inseri-la em tantos momentos relevantes e transformadores.
Pelo percurso desta mulher chegaremos a conhecer as tragédias que se abateram sobre Lisboa e sobre os próprios Távoras. As tragédias que haveriam de vincar o nome do Marquês de Pombal na memória colectiva.
Ela dá-nos uma visão da História com uma perspectiva de leitura histórica pouco habitual, o que faz com que o livro nos esclareça tanto quanto nos exige que reflictamos sobre o que se passou no período da vida desta mulher.
Dar protagonismo a uma amante é, de certa forma, entrar na História por uma porta lateral. Mesmo se, neste caso, se trata de uma porta que nunca esteve escondida.
Mas não importa por onde entremos, pois também essa porta lateral vai permitir que constatemos a magnificência do edifício que se ergue para lá dela."
http://paginas-com-memoria.blogspot.pt/2013/09/d-teresa-de-tavora-amante-do-rei-sara.html
Obrigada, "Páginas com Memória":
"A primeira descoberta que se faz com esta leitura é a da sagacidade com que Sara Rodi trata a História.(...)
O livro poderia até ser transformado numa ferramenta de ensino atraente, desde que contextualizado.
Mas o prazer maior vem de algo que afectará as leitoras - e, neste caso, o género é importante - de maneira muito mais pessoal. (...)
Visto que se torna amante do rei, ganhou já uma liberdade de costumes que se prolongará para o seu pensamento.
As suas reivindicações e dúvidas falam, primeiro, dos seus desejos num tempo em que as mulheres os não deveriam ter.
A dimensão individual extravasa para a consciência social da sua época, para o papel da mulher evidentemente, mas ainda para o papel subjugado da própria Humanidade aos desígnios que a Igreja, por exemplo, tem sobre as pessoas.
Um domínio sobre o livre alvedrio de cada um ao impôr leituras muito estritas acerca dos fenómenos naturais, por exemplo, já que este é um tema que tocará directamente a vida de D. Teresa de Távora.
Em serviço desta ligação do mundo à sua volta e dos detalhes da sua própria vida está a escolha que Sara Rodi fez para o registo na primeira pessoa.
Muitas vezes tornada numa confissão, cria uma sensação de diálogo com o leitor, que receberá melhor a protagonista.
Uma mulher muito bem traçada, com defeitos e peculiaridades que poderemos censurar mas que aceitamos melhor como pontos de equilíbrio para uma mulher que surge como protagonista por ter sido amante do D. José I.
Mas cujo verdadeiro protagonismo neste livro é o de mulher em confronto - pelo menos, confronto próprio - com o seu tempo.
De sobremaneira, é por não ser perfeita e por a escritora não ter expugnado as suas faltas, que D. Teresa de Távora se torna uma guia tão interessante pelo século XVIII.
Não fosse por estar imiscuída com um lado mais sórdido do reino, não poderia a ficção inseri-la em tantos momentos relevantes e transformadores.
Pelo percurso desta mulher chegaremos a conhecer as tragédias que se abateram sobre Lisboa e sobre os próprios Távoras. As tragédias que haveriam de vincar o nome do Marquês de Pombal na memória colectiva.
Ela dá-nos uma visão da História com uma perspectiva de leitura histórica pouco habitual, o que faz com que o livro nos esclareça tanto quanto nos exige que reflictamos sobre o que se passou no período da vida desta mulher.
Dar protagonismo a uma amante é, de certa forma, entrar na História por uma porta lateral. Mesmo se, neste caso, se trata de uma porta que nunca esteve escondida.
Mas não importa por onde entremos, pois também essa porta lateral vai permitir que constatemos a magnificência do edifício que se ergue para lá dela."
http://paginas-com-memoria.blogspot.pt/2013/09/d-teresa-de-tavora-amante-do-rei-sara.html
Florbela, Bela Flor
Um poema da juventude (1994), escrito numa noite escura de poesia:
FLORBELA, BELA FLOR
Poema dedicado a “Soror Saudade”
Que fizeste em mim, Florbela,
bela Flor?
Que do teu reino tão distante,
tão só teu,
lanças sobre mim esse sopro de loucura, de demente
Talhas-me com aquilo que eras,
não me deixas ser aquilo que nunca foste,
e riste-te por voltar a ver, em mim, essas quimeras...
E todas essas falsas esperas,
de sonhos e desejos infinitos,
de amores nunca correspondidos,
de Deuses, de anjos benditos...
Diz-me Florbela, bela Flor,
qual será o meu destino...
Se é também morrer na dor
Se é viver esse constante ardor,
de uma vida em desatino..?
Nisso te enfrento, fraca Flor!
Que o meu caule é de ferro e fogo
E o meu espírito anseia por viver
nesta vida, a tentar ser,
marinheiro que enfrenta um Bojador...
Mas até nisso me persegues, me confundes,
o que era Vida, acabas por vencer
E se algo resta em mim, como uma flor,
até nisso acabas por morrer...
E és só tu, e sou só eu, já somos nós,
numa fusão de sonhos desfeitos,
poemas bem feitos,
almas que choram num dia de sol,
por se ser tanto, e depois nada,
viver para logo morrer,
sofrer a duração de uma risada...
Quiseste tudo,
acabaste por ser nada
E eu quis ser Eu,
acabei por seres Tu,
e nem Tu nem Eu,
nem Eu nem Tu,
que fomos tudo,
somos nada...
FLORBELA, BELA FLOR
Poema dedicado a “Soror Saudade”
Que fizeste em mim, Florbela,
bela Flor?
Que do teu reino tão distante,
tão só teu,
lanças sobre mim esse sopro de loucura, de demente
Talhas-me com aquilo que eras,
não me deixas ser aquilo que nunca foste,
e riste-te por voltar a ver, em mim, essas quimeras...
E todas essas falsas esperas,
de sonhos e desejos infinitos,
de amores nunca correspondidos,
de Deuses, de anjos benditos...
Diz-me Florbela, bela Flor,
qual será o meu destino...
Se é também morrer na dor
Se é viver esse constante ardor,
de uma vida em desatino..?
Nisso te enfrento, fraca Flor!
Que o meu caule é de ferro e fogo
E o meu espírito anseia por viver
nesta vida, a tentar ser,
marinheiro que enfrenta um Bojador...
Mas até nisso me persegues, me confundes,
o que era Vida, acabas por vencer
E se algo resta em mim, como uma flor,
até nisso acabas por morrer...
E és só tu, e sou só eu, já somos nós,
numa fusão de sonhos desfeitos,
poemas bem feitos,
almas que choram num dia de sol,
por se ser tanto, e depois nada,
viver para logo morrer,
sofrer a duração de uma risada...
Quiseste tudo,
acabaste por ser nada
E eu quis ser Eu,
acabei por seres Tu,
e nem Tu nem Eu,
nem Eu nem Tu,
que fomos tudo,
somos nada...
Outono em Mim
A sermos coerência, ela é necessariamente cíclica, em movimento permanente, como tudo aquilo que nos rodeia e a que pertencemos na mesma medida em que tudo nos pertence. Como a rotação da Terra. Como o fluxo das marés. Como o ciclo das estações.
Sinto em mim a chegada do Outono. O vento a perseguir-me, o frio a tocar-me e a empurrar-me para um solitário recolhimento. Do verão, guardo todo o alimento que em mim ficou, para suportar a escuridão: descanso, sol, água, luz. Mas agora é tempo de me recolher, trabalhar o interior, sentir a chuva e o frio, fechada no meu casulo. Até que uma nova primavera desperte em mim e as asas se voltem a abrir para rasgar o céu azul...
Outono de Vivaldi
Sinto em mim a chegada do Outono. O vento a perseguir-me, o frio a tocar-me e a empurrar-me para um solitário recolhimento. Do verão, guardo todo o alimento que em mim ficou, para suportar a escuridão: descanso, sol, água, luz. Mas agora é tempo de me recolher, trabalhar o interior, sentir a chuva e o frio, fechada no meu casulo. Até que uma nova primavera desperte em mim e as asas se voltem a abrir para rasgar o céu azul...
Outono de Vivaldi
As Máscaras da escrita
"As máscaras olham-se sabendo-se máscaras. Usam um olhar que não lhes pertence, e esse olhar, que vê, não se vê. Colocamos no rosto uma máscara e somos outro aos olhos de quem nos olhe. Mas de súbito descobrimos, aterrados, que, por trás da máscara que afinal não poderemos ser, não sabemos quem somos."
José Saramago em "As Máscaras que se Olham"
José Saramago em "As Máscaras que se Olham"
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