Sonho com uma terra em convulsão, que ruge debaixo dos nossos pés e se sacode no seu eixo, perdida, magoada, incapaz de fazer por nós quando há tanto não sabemos fazer por ela.
O sol cospe fogo, mais além. E a Terra não tem já forças para lutar contra o destino. Em vez de aliados, teve em nós os seus carrascos. E o seu grito de revolta é aquele que tantos já profetizaram, ao longo da nossa História. É o fim.
Acordo e grito também. Sacudo-me e sei que há algo que tem de ser feito. Algo que me persegue de baixo e de cima e de dentro ou de fora. Calço os ténis e corro. Fujo da noite, no medo do dia em que terei de fugir do dia. E prometo a mim mesma que farei o que tiver de ser feito para não ser o fim.
Toureiros da ilusão
Toureio o ego na certeza de que o melhor de mim está na minha vitória. Não quero matá-lo. Quero provar-lhe que sou mais forte do que ele. Não quero magoá-lo. Quero provar-lhe que sou pequeno, perante ele, mas sei defender-me dos seus ataques.
Toureio o ego, confiante, e a vitória traz-me palmas. Flores e beijos. Êxtase. E, embriagado no barulho da glória, volto a encher-me de mim mesmo, até uma nova luta contra tudo aquilo de que me enchi.
Sou, na verdade, um toureiro cego na mais clara das evidências. Porque o ego só me ataca se eu me vestir de vermelho e gritar por ele. Só tenho necessidade de combater o meu ego se propositadamente nos levar para a arena onde todos esperam que um de nós vença. É longe de tudo isso, das palmas, da arena, do público e da glória ou frustração, que o Homem e o ego podem conviver sem necessidade de se enfrentar. Sem a urgência de um vencedor, longe de uma arena que o Homem construiu, na louca crença de que a vida é competição e somente isso aqui nos segura todos os dias.
Atroz engano, esse que nos venderam. Ilusão vazia. Porque a vida não é competir. E a felicidade não precisa de ser a luta sanguinária numa arena viciada. A felicidade pode passar, simplesmente, por descobrir, fora da arena, o que nos preenche...
Toureio o ego, confiante, e a vitória traz-me palmas. Flores e beijos. Êxtase. E, embriagado no barulho da glória, volto a encher-me de mim mesmo, até uma nova luta contra tudo aquilo de que me enchi.
Sou, na verdade, um toureiro cego na mais clara das evidências. Porque o ego só me ataca se eu me vestir de vermelho e gritar por ele. Só tenho necessidade de combater o meu ego se propositadamente nos levar para a arena onde todos esperam que um de nós vença. É longe de tudo isso, das palmas, da arena, do público e da glória ou frustração, que o Homem e o ego podem conviver sem necessidade de se enfrentar. Sem a urgência de um vencedor, longe de uma arena que o Homem construiu, na louca crença de que a vida é competição e somente isso aqui nos segura todos os dias.
Atroz engano, esse que nos venderam. Ilusão vazia. Porque a vida não é competir. E a felicidade não precisa de ser a luta sanguinária numa arena viciada. A felicidade pode passar, simplesmente, por descobrir, fora da arena, o que nos preenche...
1 de novembro de 1755
1 de novembro de 1755
“O desespero é feito de inércia. Paralisa os gestos. Estagna o pensamento. E absolutamente nada de nada, naquele momento, podia valer à ausência de esperança, à certeza de que chegara o fim do mundo. Ou, pelo menos, o fim do mundo de cada um de nós, porque a sobrevivência, depois de um terramoto tão devastador, não parecia chegar nem para consolo dos vivos.”
("D. Teresa de Távora – A Amante do Rei”)
“O desespero é feito de inércia. Paralisa os gestos. Estagna o pensamento. E absolutamente nada de nada, naquele momento, podia valer à ausência de esperança, à certeza de que chegara o fim do mundo. Ou, pelo menos, o fim do mundo de cada um de nós, porque a sobrevivência, depois de um terramoto tão devastador, não parecia chegar nem para consolo dos vivos.”
("D. Teresa de Távora – A Amante do Rei”)
A força da parábola
O conhecimento tende para a complexificação, movido, tantas vezes, pela absurda vontade de fazer o outro sentir-se ignorante. A verdade é que só a simplificação do conhecimento, ao permitir que ele se ramifique e floresça, noutros campos, pode operar uma transformação global. A tendência para o discurso hermético é, por isso, absurda na sua essência. Quem tem verdadeiramente algo para transmitir, deveria esforçar-se por se fazer entender. O que pode ser mais transformador do que uma simples parábola?
A profecia de uma nova era
"Há mais de cem anos Bahá'u'lláh proclamou que a unidade da humanidade seria conseguida em etapas evolutivas repletas de lutas, caos e desordens. (...) Bahá'u'lláh ensinou que a próxima etapa nesta evolução social é a organização da sociedade humana como uma civilização planetária que será caracterizada pelo aparecimento de uma comunidade, a consciência de uma cidadania mundial..."
Ervin László
Ervin László
Do ser e não ser
A estranheza de se ser é indissociável de uma vontade intrínseca - orgânica, até - de mudar o mundo a que não se sente pertencer.
A não-pertença pode gerar confusão. Solidão. Alienação. Mas quem se encontre no que se é (mesmo que se estranhe ser) entende que a inacção não é a outra face da sua moeda. Do outro lado do seu ser (mesmo estranhando-o) está a necessidade imperiosa de fazer o que tem de ser feito. E essa é a única forma de alguém que se estranhe entender porque se tem de ser...
A não-pertença pode gerar confusão. Solidão. Alienação. Mas quem se encontre no que se é (mesmo que se estranhe ser) entende que a inacção não é a outra face da sua moeda. Do outro lado do seu ser (mesmo estranhando-o) está a necessidade imperiosa de fazer o que tem de ser feito. E essa é a única forma de alguém que se estranhe entender porque se tem de ser...
A vi(r)agem
Páro. Olho à minha volta. Porque corremos todos para lugar nenhum?
Sei que é impossível parar. Num mundo em necessário movimento, parar é necessariamente deixar de viver. Mas enquanto o meu corpo se move nessa necessidade, a cabeça estagna na impossibilidade moral de continuar a ir para onde todos vão sem pensar. O meu corpo não pára, mas a cabeça olha à volta, descobrindo tantos outros que, sem parar, encaminham já o seu corpo para onde pensaram poder ir. Chamam-lhe loucos. Mas não será loucura maior a de nos perguntarmos porque teremos de ir para onde nos mandam? E se não for esse o caminho? E se a Humanidade seguir enganada, na ilusão de uma caminhada sem alternativas, na certeza insana de uma trajetória obrigatória?
Se não fosse a voz dos loucos, que tantas vezes, ao longo da História, pensaram diferente e levaram o seu corpo para onde a sua verdadeira vontade os guiou (tantas vezes pagando-o com a própria vida), o que seria hoje do Homem? Existiria ainda Humanidade?
É urgente perguntar para onde nos dirigimos todos. É premente interrogarmo-nos se a vida melhor e o progresso que nos dizem estar além, no horizonte que buscamos, não é somente um abismo, a queda abrupta para uma não-existência sem retorno.
Não sei ainda ao certo para onde irei. Mas sei que não vou mais por onde o coração me diga que não vá. Porque o caminho verdadeiro há-de ser sempre aquele que nos surge de dentro para fora, nunca aquele que, de fora para dentro, nos impelem a seguirmos sem o questionarmos. A natureza segue o seu rumo, sempre, sem precisar de se questionar, porque nunca se afastou do movimento perfeito, nunca caiu na ilusão da superioridade. O Homem, imperfeito pela sua vontade de ser perfeito, inferior pela sua sede de ser superior, precisa de voltar a encontrar o seu caminho, até poder segui-lo com a naturalidade, a perfeição e a superioridade da natureza à sua volta. E encontrar esse caminho é questionar o que a natureza (e a sua natureza) esperam dele. Só isso o fará sentir, finalmente, como um peixe na sua corrente ou um pássaro na sua rota. Buscando instintivamente aquilo que sempre esteve à sua espera, para lá do medo, da tentação do poder e do preconceito.
E se seguir para uma nova encruzilhada, será sempre a encruzilhada que escolheu, o fruto de um engano consciente, de uma vontade de fazer diferente, melhor, pelo menos em essência. Isso será já tanto, ou já tudo, sobretudo se existir a lucidez suficiente para, conscientemente, na consciência do engano, voltar a procurar alternativas, porque há sempre alternativas para aquilo que não nos serve mais.
Sei que é impossível parar. Num mundo em necessário movimento, parar é necessariamente deixar de viver. Mas enquanto o meu corpo se move nessa necessidade, a cabeça estagna na impossibilidade moral de continuar a ir para onde todos vão sem pensar. O meu corpo não pára, mas a cabeça olha à volta, descobrindo tantos outros que, sem parar, encaminham já o seu corpo para onde pensaram poder ir. Chamam-lhe loucos. Mas não será loucura maior a de nos perguntarmos porque teremos de ir para onde nos mandam? E se não for esse o caminho? E se a Humanidade seguir enganada, na ilusão de uma caminhada sem alternativas, na certeza insana de uma trajetória obrigatória?
Se não fosse a voz dos loucos, que tantas vezes, ao longo da História, pensaram diferente e levaram o seu corpo para onde a sua verdadeira vontade os guiou (tantas vezes pagando-o com a própria vida), o que seria hoje do Homem? Existiria ainda Humanidade?
É urgente perguntar para onde nos dirigimos todos. É premente interrogarmo-nos se a vida melhor e o progresso que nos dizem estar além, no horizonte que buscamos, não é somente um abismo, a queda abrupta para uma não-existência sem retorno.
Não sei ainda ao certo para onde irei. Mas sei que não vou mais por onde o coração me diga que não vá. Porque o caminho verdadeiro há-de ser sempre aquele que nos surge de dentro para fora, nunca aquele que, de fora para dentro, nos impelem a seguirmos sem o questionarmos. A natureza segue o seu rumo, sempre, sem precisar de se questionar, porque nunca se afastou do movimento perfeito, nunca caiu na ilusão da superioridade. O Homem, imperfeito pela sua vontade de ser perfeito, inferior pela sua sede de ser superior, precisa de voltar a encontrar o seu caminho, até poder segui-lo com a naturalidade, a perfeição e a superioridade da natureza à sua volta. E encontrar esse caminho é questionar o que a natureza (e a sua natureza) esperam dele. Só isso o fará sentir, finalmente, como um peixe na sua corrente ou um pássaro na sua rota. Buscando instintivamente aquilo que sempre esteve à sua espera, para lá do medo, da tentação do poder e do preconceito.
E se seguir para uma nova encruzilhada, será sempre a encruzilhada que escolheu, o fruto de um engano consciente, de uma vontade de fazer diferente, melhor, pelo menos em essência. Isso será já tanto, ou já tudo, sobretudo se existir a lucidez suficiente para, conscientemente, na consciência do engano, voltar a procurar alternativas, porque há sempre alternativas para aquilo que não nos serve mais.
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