Nem sempre me reconheço no que sou. Como se por mim passassem vários corpos, habitando-me em palavras que dificilmente digo minhas.
Porque escrevo? Porque sinto? Sentir não é escrever, é viver. Escrever é sentir de fora. Sendo outro. Outro olhando-me. Ou eu olhando outro em mim. Escrever é esse diálogo entre o que é e não é, o que vive e não vive (ou sobrevive nas palavras de quem vive).
E se nesta realidade que habito empresto o corpo a quem nele quiser experimentar viver (ou sobreviver nas palavras que lhes empresto), quando sonho sou eu que vagueio por outros corpos que não são meus. Entro neste e depois naquele, experimento ser isto e depois aquilo. Talvez porque o sonho seja o negativo da realidade. Ou talvez aquilo a que chamo de realidade seja apenas outros sonhando. Uns experimentando os outros, como uma simples brincadeira de Carnaval...
Será que depois de eu acordar, alguém do outro lado escreve e não sabe porquê? Não percebe que sou eu a tentar sobreviver nele da única forma que me resta?
Barcelona
En la multitud hi ha un silenci perdido que em envaia
Cada altre és solament un cada vegada mès mi
En cada vegada indiscret, en cada mirada valent
En cada vegada que puedo éster el que vuelo e sóc lo que sóc
Les arbres de les carrers es balancegen en uma tempestad de diferèncias
Abruptement suau
De distàncias que es creuen
Diferentes veritates que es saludem curióses
Sés desinhibidos com nos
Nom assumidos com sís
Quizás suspenses en una non necessitat decosa ninguna
Ditos, cridados en moltes llenguas e sabores
Olores
Ha ja perdid el olor de mi mateixa
O ha assumido el olor de totes i del tot
Em ha buidado per vagas entre la novetat de tot
i cada cantó és sempre on encara no ha ido
i vaig. Com sóc e com sempre
Perqué, qué paro i no moro, aprendo
i quedar no és no partir, péro viatjar per dins
Fora. Del món tancat que se ha tancado en si mateix
Un món de homes en el cos de una dona
que es obra i es nostra sens pudor
És Barcebola
https://www.youtube.com/watch?v=YUWyUE6kqoU
(Na multidão há um silêncio perdido que me invade
Cada outro é só um cada vez mais mim
Em cada sorriso indiscreto, em cada olhar corajoso
Em cada vez que sou o que quero ser e acabo por ser quem sou
As árvores das ruas baloiçam numa tempestade de diferenças
Abruptamente suave
De distância que se cruzam
distintas verdades que se acenam curiosas
Sins desinibidos como nãos
Nãos assumidos como sins
Talvez suspensos numa não necessidade de coisa nenhuma
Ditos, gritados em muitas línguas e sabores
Odores.
Perdi o cheiro de mim mesma
Ou assumi simplesmente o cheiro de todos e de tudo
Esvaziei-me para vaguear entre a novidade de tudo
E cada esquina é sempre onde ainda não fui
E vou. Como sou e como sempre
Porque parar não é morrer, é aprender
E ficar não é não partir, mas viajar por dentro
Fora.
Do mundo fechado que se fechou em si mesmo
Um mundo de homens no corpo de uma só mulher
Que se abre e se mostra sem pudor
E a mulher é Barcelona)
Cada altre és solament un cada vegada mès mi
En cada vegada indiscret, en cada mirada valent
En cada vegada que puedo éster el que vuelo e sóc lo que sóc
Les arbres de les carrers es balancegen en uma tempestad de diferèncias
Abruptement suau
De distàncias que es creuen
Diferentes veritates que es saludem curióses
Sés desinhibidos com nos
Nom assumidos com sís
Quizás suspenses en una non necessitat decosa ninguna
Ditos, cridados en moltes llenguas e sabores
Olores
Ha ja perdid el olor de mi mateixa
O ha assumido el olor de totes i del tot
Em ha buidado per vagas entre la novetat de tot
i cada cantó és sempre on encara no ha ido
i vaig. Com sóc e com sempre
Perqué, qué paro i no moro, aprendo
i quedar no és no partir, péro viatjar per dins
Fora. Del món tancat que se ha tancado en si mateix
Un món de homes en el cos de una dona
que es obra i es nostra sens pudor
És Barcebola
https://www.youtube.com/watch?v=YUWyUE6kqoU
(Na multidão há um silêncio perdido que me invade
Cada outro é só um cada vez mais mim
Em cada sorriso indiscreto, em cada olhar corajoso
Em cada vez que sou o que quero ser e acabo por ser quem sou
As árvores das ruas baloiçam numa tempestade de diferenças
Abruptamente suave
De distância que se cruzam
distintas verdades que se acenam curiosas
Sins desinibidos como nãos
Nãos assumidos como sins
Talvez suspensos numa não necessidade de coisa nenhuma
Ditos, gritados em muitas línguas e sabores
Odores.
Perdi o cheiro de mim mesma
Ou assumi simplesmente o cheiro de todos e de tudo
Esvaziei-me para vaguear entre a novidade de tudo
E cada esquina é sempre onde ainda não fui
E vou. Como sou e como sempre
Porque parar não é morrer, é aprender
E ficar não é não partir, mas viajar por dentro
Fora.
Do mundo fechado que se fechou em si mesmo
Um mundo de homens no corpo de uma só mulher
Que se abre e se mostra sem pudor
E a mulher é Barcelona)
Se a Vida fosse um Jogo
Talvez a Vida seja apenas um nível de um jogo maior, que desconhecemos. Jogados na Terra, jogamos a experiência do Amor, sem muitas vezes o sabermos. Jogados aqui sem saber porquê, sem sabermos quem somos ou o que podemos fazer, corremos o risco de pensar que este jogo é sobre Poder. Ou sobre Riqueza. Que o jogo é competição entre cada um de nós que aqui estamos, sem entender que fazemos todos parte de uma mesma equipa. Cada um com as suas qualidades, deveria não competir, mas procurar o seu posicionamento certo para que o jogo progrida. Cada jogador tem o seu espaço. Pode não marcar pontos, ou as suas jogadas não serem as mais extraordinárias, mas é sempre possível dar o seu contributo para o jogo. Ou prejudicá-lo, na verdade, porque até o mais insignificante dos atos terá sempre efeito sobre o todo.
Se a Terra for um jogo, cada um de nós é chamado a encontrar-se e a desenvolver o melhor de si para depois jogar no campo da vida e ajudar o coletivo a chegar mais longe. A vencer. Quiçá a saltar para um outro nível, transitar para um novo desafio que poderá ser sobre outra coisa qualquer...
Mas na Terra... na Terra o desafio é o Amor, e quantos homens não morreram já a tentar fazer-nos ver o que era tão óbvio. Esforçam-se até às entranhas, por vezes até arrastando multidões. Mas sobre eles os homens acabam sempre por construir novas verdades, erguer palácios, cristalizar opções, formalizar dogmas. Ah, humanidade cega... Que por cima do que era tão simples, renasce sempre (morre sempre?) na vontade de poder e na sede de riqueza. Na competição, na guerra e na destruição.
Andamos há tanto tempo a jogar o jogo errado e a pagá-lo com a própria vida...
Se a Terra for um jogo, cada um de nós é chamado a encontrar-se e a desenvolver o melhor de si para depois jogar no campo da vida e ajudar o coletivo a chegar mais longe. A vencer. Quiçá a saltar para um outro nível, transitar para um novo desafio que poderá ser sobre outra coisa qualquer...
Mas na Terra... na Terra o desafio é o Amor, e quantos homens não morreram já a tentar fazer-nos ver o que era tão óbvio. Esforçam-se até às entranhas, por vezes até arrastando multidões. Mas sobre eles os homens acabam sempre por construir novas verdades, erguer palácios, cristalizar opções, formalizar dogmas. Ah, humanidade cega... Que por cima do que era tão simples, renasce sempre (morre sempre?) na vontade de poder e na sede de riqueza. Na competição, na guerra e na destruição.
Andamos há tanto tempo a jogar o jogo errado e a pagá-lo com a própria vida...
Fui monstro
Esta noite fui monstro. Criatura esverdeada, misturada com outras tantas, de outras cores e formas, que pareciam ser o meu gang. O lugar onde nos escondíamos era interior, não muito diferente de uma casa comum, mas quando um outro gang chegou, de criaturas ainda mais assustadores do que eu próprio, fugimos por túneis subterrâneos de águas sujas, locais que nunca conheci, sítios por onde nunca passei. A dada altura, porque era um dos mais pequenos, escondi-me numa reentrância de pedra e deixei que a perseguição e a guerra continuasse sem mim. Não-humana, mas ainda assim cobarde. Ou somente incapaz de lutar pelo que não me fazia sentido.
Veremos o que a noite de hoje me reserva...
Veremos o que a noite de hoje me reserva...
Medo de Ser
Há dias em que o medo me consome por dentro como uma chama implacável. Alimenta-se de tudo o que encontra. Cresce. Torna-se monstruosa e ri-se de me ver em cinzas, já sem nada que reste para tirar de dentro de mim.
Mas a esperança renasce na pequena semente que conseguiu esconder-se na terra. Volta a brotar e dar uma pequena cor à escuridão. Um pequeno caule inocente espreita nas cinzas, sem medo. Desconhece o que ali aconteceu. Acha-me triste, mas não conhece nada mais do que a coragem de ser. Por isso cresce. O que custa? O que dói? Medo de quê? A coragem é-lhe tão natural como tudo o resto. Para cima é o caminho. Respirar, a sua missão. E o pequeno caule que cresce abre agora os braços em ramos e abraça o que antes era nada. Sacode as suas folhas. Faz desabrochar as suas flores. E cada semente que cai na terra é uma nova esperança que pode vir a renascer, se o medo voltar.
Mas o medo não volta, se a pequena semente se transformar numa floresta. O medo tem medo da coragem de renascer. Tem medo da coragem de viver. E não volta se nos permitirmos ser tudo aquilo que quisermos ser...
"O perigo existe de verdade, mas o medo é uma escolha nossa." ("After Earth")
Mas a esperança renasce na pequena semente que conseguiu esconder-se na terra. Volta a brotar e dar uma pequena cor à escuridão. Um pequeno caule inocente espreita nas cinzas, sem medo. Desconhece o que ali aconteceu. Acha-me triste, mas não conhece nada mais do que a coragem de ser. Por isso cresce. O que custa? O que dói? Medo de quê? A coragem é-lhe tão natural como tudo o resto. Para cima é o caminho. Respirar, a sua missão. E o pequeno caule que cresce abre agora os braços em ramos e abraça o que antes era nada. Sacode as suas folhas. Faz desabrochar as suas flores. E cada semente que cai na terra é uma nova esperança que pode vir a renascer, se o medo voltar.
Mas o medo não volta, se a pequena semente se transformar numa floresta. O medo tem medo da coragem de renascer. Tem medo da coragem de viver. E não volta se nos permitirmos ser tudo aquilo que quisermos ser...
"O perigo existe de verdade, mas o medo é uma escolha nossa." ("After Earth")
Do mundo e do seu sentido
Como é possível que me deleite todas as noites num sono profundo, quando ao meu lado alguém chora sem uma cama onde dormir?
Como é possível que me entupa de comida, quando no mesmo mundo que eu há milhões de pessoas a passar fome?
Como é possível que eu gaste milhares de euros em roupa e acessórios, quando ao meu lado alguém tem frio?
Como é possível que eu me divirta tanto com videojogos de guerra, quando no mesmo mundo que eu milhares de pessoas morrem todos os dias em guerras de verdade?
Como é possível que eu perca a noção do tempo num banho demorado, quando há milhares de pessoas sem água para beber?
Como é possível que eu dependa de oxigénio para viver, e permita que todos os dias milhares de árvores sejam abatidas?
Como é possível que eu saiba que todos os anos se despejam no mar mais de dez milhões de toneladas de lixo, sem pensar que parte daquele lixo é meu?
Como é possível que o mundo precise tanto de mim, e eu passe os dias entregue a tudo aquilo que me ajuda a esquecer que existo?
Como é possível que tudo isto seja um enorme absurdo, e eu continue a achar que não posso fazer nada para o mudar?
Como é possível que eu releia aquilo que escrevi e não grite "Basta"?
A vida não é assim tão complicada. Ela só tem de fazer sentido...
Como é possível que me entupa de comida, quando no mesmo mundo que eu há milhões de pessoas a passar fome?
Como é possível que eu gaste milhares de euros em roupa e acessórios, quando ao meu lado alguém tem frio?
Como é possível que eu me divirta tanto com videojogos de guerra, quando no mesmo mundo que eu milhares de pessoas morrem todos os dias em guerras de verdade?
Como é possível que eu perca a noção do tempo num banho demorado, quando há milhares de pessoas sem água para beber?
Como é possível que eu dependa de oxigénio para viver, e permita que todos os dias milhares de árvores sejam abatidas?
Como é possível que eu saiba que todos os anos se despejam no mar mais de dez milhões de toneladas de lixo, sem pensar que parte daquele lixo é meu?
Como é possível que o mundo precise tanto de mim, e eu passe os dias entregue a tudo aquilo que me ajuda a esquecer que existo?
Como é possível que tudo isto seja um enorme absurdo, e eu continue a achar que não posso fazer nada para o mudar?
Como é possível que eu releia aquilo que escrevi e não grite "Basta"?
A vida não é assim tão complicada. Ela só tem de fazer sentido...
Aconteceu-me uma frase
Desceu-me sem aviso prévio, numa fila de supermercado, atrás de um carrinho entupido de alimentos sem vida. Legumes para a sopa, iogurtes, queijo e fiambre, pão. Sobrevivências. Sobreviveria eu sem alimentos? Sobreviveria eu sem as frases que me chegavam? Complexa equação, corpo-mente, fora-dentro, aqui-lá. Ping pong da vida onde só o jogo de forças faz sentido. Pender para onde? Para lado nenhum. Jogar.
Fiz-me à frase enquanto chegava o carrinho mais à frente. Era só uma frase, uma singela frase, mas chegara-me inteira, o mote para uma história completa que se desenharia sozinha. Desceria em golfadas, se eu o permitisse, escorrendo-me por entre os dedos, assim eu não me perdesse entre o que me vem e o que me vai nas intermitências da vida.
Porque me chegava ali, numa fila de supermercado, é que eu não sabia. Preparava-me há muito para o momento, entre leituras e reflexões variadas. Respirações profundas e caminhadas salutares. Procurando em mim o espaço necessário para receber uma história. Mas ela não quis que assim fosse, no momento que mais me conviesse. Afinal o que mando eu, se só manda ela? Quis a fila de supermercado para iniciar o jogo e assim era. Pegar ou largar. Era ela que sempre iniciava o jogo. Mas só eu, ganhando ou perdendo, podia terminá-lo. Talvez eu mandasse alguma coisa, afinal...
- Avance, por favor.
É a minha vez e preciso de uma folha onde escrever a frase, algo que me ajude a não esquecer.
- É só um momento.
- Há gente à espera.
Passei os legumes para a sopa, os iogurtes, o queijo e o fiambre e o pão com sementes. Passei-os sem os passar. Paguei-os sem o pagar. Meti-os no saco sem os meter. Voltei a pô-los no carrinho sem os pôr. Estava em jogo e não podia parar de jogar. Os alimentos seriam comidos. Mas as frases teriam de ser escritas. Entre o corpo e a mente, o fora e o dentro, o aqui e o lá. Às vezes esticando-me para lá do suportável. Mas enquanto há jogo, há vida. Recebo. Retribuo. Avanço. Vivo. E, definitivamente, enquanto a vida me deixar, escrevo.
Fiz-me à frase enquanto chegava o carrinho mais à frente. Era só uma frase, uma singela frase, mas chegara-me inteira, o mote para uma história completa que se desenharia sozinha. Desceria em golfadas, se eu o permitisse, escorrendo-me por entre os dedos, assim eu não me perdesse entre o que me vem e o que me vai nas intermitências da vida.
Porque me chegava ali, numa fila de supermercado, é que eu não sabia. Preparava-me há muito para o momento, entre leituras e reflexões variadas. Respirações profundas e caminhadas salutares. Procurando em mim o espaço necessário para receber uma história. Mas ela não quis que assim fosse, no momento que mais me conviesse. Afinal o que mando eu, se só manda ela? Quis a fila de supermercado para iniciar o jogo e assim era. Pegar ou largar. Era ela que sempre iniciava o jogo. Mas só eu, ganhando ou perdendo, podia terminá-lo. Talvez eu mandasse alguma coisa, afinal...
- Avance, por favor.
É a minha vez e preciso de uma folha onde escrever a frase, algo que me ajude a não esquecer.
- É só um momento.
- Há gente à espera.
Passei os legumes para a sopa, os iogurtes, o queijo e o fiambre e o pão com sementes. Passei-os sem os passar. Paguei-os sem o pagar. Meti-os no saco sem os meter. Voltei a pô-los no carrinho sem os pôr. Estava em jogo e não podia parar de jogar. Os alimentos seriam comidos. Mas as frases teriam de ser escritas. Entre o corpo e a mente, o fora e o dentro, o aqui e o lá. Às vezes esticando-me para lá do suportável. Mas enquanto há jogo, há vida. Recebo. Retribuo. Avanço. Vivo. E, definitivamente, enquanto a vida me deixar, escrevo.
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