24/01/14

Tesouro perdido - DIA 1

Paradoxalmente, num tempo em que tanto se falta de carência, o que os meus olhos lêem do mundo é um grave problema de excessos. Excesso de informação sobre tudo e sobre todos, excesso de estímulos, excesso de alternativas, excesso de pressões, excessos de solicitações, excesso de prateleiras, de lojas, de marcas, de casas, de cheiros, de formas de poluir, formas de julgar e formas de atacar. Vivemos dias de verdadeira overdose, que nos empurra para aqui e para ali, que nos sacode e nos entope de urgências, incertezas e revoltas.
É certo que o excesso é a outra face da carência. No justo equilíbrio de todas as coisas, tudo o que sobra de um lado, faltará no outro. E assim sendo, com tudo aquilo que temos a mais dentro de nós, falta-nos tantas vezes tudo aquilo de que realmente precisamos. Silêncio. Tempo. Ar puro. Sorrisos reais. Abraços verdadeiros. Paz.
Onde nos deixámos, entre tantos excessos? Em que ponto nos perdemos, nesta corrida desenfreada para lugar nenhum? O que realmente sentimos e pensamos? O que realmente somos? Talvez um tesouro perdido numa caixa cheia de tralha. Um tesouro que nunca encontraremos se não tivermos a coragem de nos despejarmos. A ideia da caixa vazia pode até assustar-nos. Tememos que, ao despejar-nos, não encontremos tesouro algum. Mas a verdade é que em cada corpo bate um coração. Estamos vivos e a vida é essa oportunidade única de sentir um coração a pulsar dentro de nós, para que sejamos e façamos tudo aquilo que dê sentido a esse bater...

19/01/14

Da arte e do artista

A arte não vale pela arte. A arte vale pela capacidade de ver mais além. Talvez não a verdade, mas algo que nos aproxima a todos dessa verdade. E a arte, não valendo pela arte, precisa de chegar a todos, aos mais possível, para que a arte tenha valido a pena.
A cultura é a difusão dessa arte necessária. Vale por isso mesmo, mas nunca deverá perder a sua capacidade de mudança. Cristalizá-la, impedindo-a de se transformar e se adaptar a quem está a ver o que mais ninguém viu, é um atentado à própria arte. Uma subversão do que tem de acontecer para a arte continuar a fazer o mundo avançar e o homem evoluir.

Nem sempre o artista suporta a sua arte. Dotado de sensibilidade (antena poderosa de captação do que está para além do visível), dedica a sua vida a expressar o que mais ninguém vê. O que mais ninguém sente. O que mais ninguém ouve. Empresta o seu corpo à criação, difundindo-a não para que o seu nome se conheça e a sua figura se imortalize (embora tantos caiam nessa ilusão) mas para que aquilo que ele vê, sente ou ouve chegue a toda a gente. Ao mundo que precisa de mudar. Aos homens que precisam de evoluir. Se o artista for atrás do que os outros fazem, só porque é mais vendável, só para ser mais conhecido, não estará a fazer verdadeira arte. Não estará a ser o artista que o mundo e os Homens precisam. Ainda que, fazer o que mais ninguém fez, tantas vezes tenha custado ao artista a sua própria vida. Ou porque os outros só o compreendem tarde demais. Ou porque ele próprio se sente enlouquecer, por ver, sentir e ouvir o que o mundo e os homens dizem não ser possível.
O artista deveria poder sair da sua condição de artista e equilibrá-la com uma vida real. Fechar os olhos ao que vê, quando escreve, desenha, pinta, compõe, e viver como todos vivem, e como é tão bom viver. Mas nem sempre o consegue. Porque fechar os olhos é negar uma parte de si. Em situações extremas, é sentir que se está a perder tempo: o tempo em que é chamado a fazer o que tem de ser feito. Mas o equilíbrio é necessário, se o artista não se quiser perder na sua própria arte. E, por ser demasiado artista, nunca chegar a realmente viver...
11/01/14

O coração humano

"Nem orgulho nem preguiça formam à volta do coração humano muralha tão espessa que a esperança não rompa. (...) O problema seguinte a resolver é naturalmente o de a vontade se seguir à imaginação que sempre a esperança arquitecta, o de ter quem espera o carácter suficiente para persistir no caminho entrevisto."
(Agostinho da Silva)
08/01/14

Vida e sonho

Nem sempre me reconheço no que sou. Como se por mim passassem vários corpos, habitando-me em palavras que dificilmente digo minhas.
Porque escrevo? Porque sinto? Sentir não é escrever, é viver. Escrever é sentir de fora. Sendo outro. Outro olhando-me. Ou eu olhando outro em mim. Escrever é esse diálogo entre o que é e não é, o que vive e não vive (ou sobrevive nas palavras de quem vive).
E se nesta realidade que habito empresto o corpo a quem nele quiser experimentar viver (ou sobreviver nas palavras que lhes empresto), quando sonho sou eu que vagueio por outros corpos que não são meus. Entro neste e depois naquele, experimento ser isto e depois aquilo. Talvez porque o sonho seja o negativo da realidade. Ou talvez aquilo a que chamo de realidade seja apenas outros sonhando. Uns experimentando os outros, como uma simples brincadeira de Carnaval...
Será que depois de eu acordar, alguém do outro lado escreve e não sabe porquê? Não percebe que sou eu a tentar sobreviver nele da única forma que me resta?

Barcelona

En la multitud hi ha un silenci perdido que em envaia
Cada altre és solament un cada vegada mès mi
En cada vegada indiscret, en cada mirada valent
En cada vegada que puedo éster el que vuelo e sóc lo que sóc

Les arbres de les carrers es balancegen en uma tempestad de diferèncias

Abruptement suau
De distàncias que es creuen
Diferentes veritates que es saludem curióses
Sés desinhibidos com nos
Nom assumidos com sís
Quizás suspenses en una non necessitat decosa ninguna
Ditos, cridados en moltes llenguas e sabores

Olores
Ha ja perdid el olor de mi mateixa
O ha assumido el olor de totes i del tot
Em ha buidado per vagas entre la novetat de tot
i cada cantó és sempre on encara no ha ido
i vaig. Com sóc e com sempre
Perqué, qué paro i no moro, aprendo
i quedar no és no partir, péro viatjar per dins

Fora. Del món tancat que se ha tancado en si mateix
Un món de homes en el cos de una dona
que es obra i es nostra sens pudor
És Barcebola

https://www.youtube.com/watch?v=YUWyUE6kqoU

(Na multidão há um silêncio perdido que me invade
Cada outro é só um cada vez mais mim
Em cada sorriso indiscreto, em cada olhar corajoso
Em cada vez que sou o que quero ser e acabo por ser quem sou

As árvores das ruas baloiçam numa tempestade de diferenças
Abruptamente suave
De distância que se cruzam
distintas verdades que se acenam curiosas
Sins desinibidos como nãos
Nãos assumidos como sins
Talvez suspensos numa não necessidade de coisa nenhuma
Ditos, gritados em muitas línguas e sabores

Odores.
Perdi o cheiro de mim mesma
Ou assumi simplesmente o cheiro de todos e de tudo
Esvaziei-me para vaguear entre a novidade de tudo
E cada esquina é sempre onde ainda não fui
E vou. Como sou e como sempre
Porque parar não é morrer, é aprender
E ficar não é não partir, mas viajar por dentro

Fora.
Do mundo fechado que se fechou em si mesmo
Um mundo de homens no corpo de uma só mulher
Que se abre e se mostra sem pudor
E a mulher é Barcelona)
07/01/14

Se a Vida fosse um Jogo

Talvez a Vida seja apenas um nível de um jogo maior, que desconhecemos. Jogados na Terra, jogamos a experiência do Amor, sem muitas vezes o sabermos. Jogados aqui sem saber porquê, sem sabermos quem somos ou o que podemos fazer, corremos o risco de pensar que este jogo é sobre Poder. Ou sobre Riqueza. Que o jogo é competição entre cada um de nós que aqui estamos, sem entender que fazemos todos parte de uma mesma equipa. Cada um com as suas qualidades, deveria não competir, mas procurar o seu posicionamento certo para que o jogo progrida. Cada jogador tem o seu espaço. Pode não marcar pontos, ou as suas jogadas não serem as mais extraordinárias, mas é sempre possível dar o seu contributo para o jogo. Ou prejudicá-lo, na verdade, porque até o mais insignificante dos atos terá sempre efeito sobre o todo.
Se a Terra for um jogo, cada um de nós é chamado a encontrar-se e a desenvolver o melhor de si para depois jogar no campo da vida e ajudar o coletivo a chegar mais longe. A vencer. Quiçá a saltar para um outro nível, transitar para um novo desafio que poderá ser sobre outra coisa qualquer...
Mas na Terra... na Terra o desafio é o Amor, e quantos homens não morreram já a tentar fazer-nos ver o que era tão óbvio. Esforçam-se até às entranhas, por vezes até arrastando multidões. Mas sobre eles os homens acabam sempre por construir novas verdades, erguer palácios, cristalizar opções, formalizar dogmas. Ah, humanidade cega... Que por cima do que era tão simples, renasce sempre (morre sempre?) na vontade de poder e na sede de riqueza. Na competição, na guerra e na destruição.
Andamos há tanto tempo a jogar o jogo errado e a pagá-lo com a própria vida...
06/01/14

Fui monstro

Esta noite fui monstro. Criatura esverdeada, misturada com outras tantas, de outras cores e formas, que pareciam ser o meu gang. O lugar onde nos escondíamos era interior, não muito diferente de uma casa comum, mas quando um outro gang chegou, de criaturas ainda mais assustadores do que eu próprio, fugimos por túneis subterrâneos de águas sujas, locais que nunca conheci, sítios por onde nunca passei. A dada altura, porque era um dos mais pequenos, escondi-me numa reentrância de pedra e deixei que a perseguição e a guerra continuasse sem mim. Não-humana, mas ainda assim cobarde. Ou somente incapaz de lutar pelo que não me fazia sentido.
Veremos o que a noite de hoje me reserva...