05/02/14

A música do universo

"Pitágoras considerava a música como sons em movimento, entrecortados ou ininterruptos. Esses sons se ajustam segundo o tom e o modo. Os intervalos estão em relação com o desenvolvimento espiritual dos seres humanos e com a harmonia do cosmo.

Para Pitágoras, a distância da Terra à Lua representa um tom.

Da Lua a Mercúrio e de Mercúrio a Vênus há um semitom; de Vênus ao Sol, um tom e meio; do Sol a Marte, um tom; de Marte a Júpiter e de Júpiter a Saturno, um semitom; e de Saturno ao Zodíaco, um tom e meio. Esses tons formam juntos uma oitava, base da harmonia universal."

É talvez chegado o tempo de nos harmonizarmos com a música do universo. E de, humildemente, reconhecermos que sabemos tão pouco como sempre soubemos, porque é só na mais profunda humildade que o nosso coração pode abrir-se finalmente ao mistério...




02/02/14

Da Densidade da Terra

Despertei na estranha ideia de que a densidade me cansa. Me esgota. É um peso extra que nem sempre sei suportar. Talvez a ideia me tenha ocorrido no regresso de um sonho leve, de uma viagem sem densidade. Nos sonhos, raramente tenho corpo. Sou algo que vê, ou algo que percorre corpos para experimentar vidas. Nunca preso a um corpo único, a um único contexto num qualquer tempo ou parte do mundo.
Acordado, sou um corpo de que gosto, num contexto que, mesmo por entre dificuldades, me é tão favorável, rodeado de tanto e de tantos que enchem a minha vida de alegrias. Acordado, desejo viver o maior número de anos possível para dar e ser tudo aquilo que eu puder. Mas no regresso da noite, depois da deambulação noturnas, algo em mim se pergunta porque é preciso o peso de um corpo. Qual a razão de ser da densidade.

24/01/14

Tesouro perdido - DIA 1

Paradoxalmente, num tempo em que tanto se falta de carência, o que os meus olhos lêem do mundo é um grave problema de excessos. Excesso de informação sobre tudo e sobre todos, excesso de estímulos, excesso de alternativas, excesso de pressões, excessos de solicitações, excesso de prateleiras, de lojas, de marcas, de casas, de cheiros, de formas de poluir, formas de julgar e formas de atacar. Vivemos dias de verdadeira overdose, que nos empurra para aqui e para ali, que nos sacode e nos entope de urgências, incertezas e revoltas.
É certo que o excesso é a outra face da carência. No justo equilíbrio de todas as coisas, tudo o que sobra de um lado, faltará no outro. E assim sendo, com tudo aquilo que temos a mais dentro de nós, falta-nos tantas vezes tudo aquilo de que realmente precisamos. Silêncio. Tempo. Ar puro. Sorrisos reais. Abraços verdadeiros. Paz.
Onde nos deixámos, entre tantos excessos? Em que ponto nos perdemos, nesta corrida desenfreada para lugar nenhum? O que realmente sentimos e pensamos? O que realmente somos? Talvez um tesouro perdido numa caixa cheia de tralha. Um tesouro que nunca encontraremos se não tivermos a coragem de nos despejarmos. A ideia da caixa vazia pode até assustar-nos. Tememos que, ao despejar-nos, não encontremos tesouro algum. Mas a verdade é que em cada corpo bate um coração. Estamos vivos e a vida é essa oportunidade única de sentir um coração a pulsar dentro de nós, para que sejamos e façamos tudo aquilo que dê sentido a esse bater...

19/01/14

Da arte e do artista

A arte não vale pela arte. A arte vale pela capacidade de ver mais além. Talvez não a verdade, mas algo que nos aproxima a todos dessa verdade. E a arte, não valendo pela arte, precisa de chegar a todos, aos mais possível, para que a arte tenha valido a pena.
A cultura é a difusão dessa arte necessária. Vale por isso mesmo, mas nunca deverá perder a sua capacidade de mudança. Cristalizá-la, impedindo-a de se transformar e se adaptar a quem está a ver o que mais ninguém viu, é um atentado à própria arte. Uma subversão do que tem de acontecer para a arte continuar a fazer o mundo avançar e o homem evoluir.

Nem sempre o artista suporta a sua arte. Dotado de sensibilidade (antena poderosa de captação do que está para além do visível), dedica a sua vida a expressar o que mais ninguém vê. O que mais ninguém sente. O que mais ninguém ouve. Empresta o seu corpo à criação, difundindo-a não para que o seu nome se conheça e a sua figura se imortalize (embora tantos caiam nessa ilusão) mas para que aquilo que ele vê, sente ou ouve chegue a toda a gente. Ao mundo que precisa de mudar. Aos homens que precisam de evoluir. Se o artista for atrás do que os outros fazem, só porque é mais vendável, só para ser mais conhecido, não estará a fazer verdadeira arte. Não estará a ser o artista que o mundo e os Homens precisam. Ainda que, fazer o que mais ninguém fez, tantas vezes tenha custado ao artista a sua própria vida. Ou porque os outros só o compreendem tarde demais. Ou porque ele próprio se sente enlouquecer, por ver, sentir e ouvir o que o mundo e os homens dizem não ser possível.
O artista deveria poder sair da sua condição de artista e equilibrá-la com uma vida real. Fechar os olhos ao que vê, quando escreve, desenha, pinta, compõe, e viver como todos vivem, e como é tão bom viver. Mas nem sempre o consegue. Porque fechar os olhos é negar uma parte de si. Em situações extremas, é sentir que se está a perder tempo: o tempo em que é chamado a fazer o que tem de ser feito. Mas o equilíbrio é necessário, se o artista não se quiser perder na sua própria arte. E, por ser demasiado artista, nunca chegar a realmente viver...
11/01/14

O coração humano

"Nem orgulho nem preguiça formam à volta do coração humano muralha tão espessa que a esperança não rompa. (...) O problema seguinte a resolver é naturalmente o de a vontade se seguir à imaginação que sempre a esperança arquitecta, o de ter quem espera o carácter suficiente para persistir no caminho entrevisto."
(Agostinho da Silva)
08/01/14

Vida e sonho

Nem sempre me reconheço no que sou. Como se por mim passassem vários corpos, habitando-me em palavras que dificilmente digo minhas.
Porque escrevo? Porque sinto? Sentir não é escrever, é viver. Escrever é sentir de fora. Sendo outro. Outro olhando-me. Ou eu olhando outro em mim. Escrever é esse diálogo entre o que é e não é, o que vive e não vive (ou sobrevive nas palavras de quem vive).
E se nesta realidade que habito empresto o corpo a quem nele quiser experimentar viver (ou sobreviver nas palavras que lhes empresto), quando sonho sou eu que vagueio por outros corpos que não são meus. Entro neste e depois naquele, experimento ser isto e depois aquilo. Talvez porque o sonho seja o negativo da realidade. Ou talvez aquilo a que chamo de realidade seja apenas outros sonhando. Uns experimentando os outros, como uma simples brincadeira de Carnaval...
Será que depois de eu acordar, alguém do outro lado escreve e não sabe porquê? Não percebe que sou eu a tentar sobreviver nele da única forma que me resta?

Barcelona

En la multitud hi ha un silenci perdido que em envaia
Cada altre és solament un cada vegada mès mi
En cada vegada indiscret, en cada mirada valent
En cada vegada que puedo éster el que vuelo e sóc lo que sóc

Les arbres de les carrers es balancegen en uma tempestad de diferèncias

Abruptement suau
De distàncias que es creuen
Diferentes veritates que es saludem curióses
Sés desinhibidos com nos
Nom assumidos com sís
Quizás suspenses en una non necessitat decosa ninguna
Ditos, cridados en moltes llenguas e sabores

Olores
Ha ja perdid el olor de mi mateixa
O ha assumido el olor de totes i del tot
Em ha buidado per vagas entre la novetat de tot
i cada cantó és sempre on encara no ha ido
i vaig. Com sóc e com sempre
Perqué, qué paro i no moro, aprendo
i quedar no és no partir, péro viatjar per dins

Fora. Del món tancat que se ha tancado en si mateix
Un món de homes en el cos de una dona
que es obra i es nostra sens pudor
És Barcebola

https://www.youtube.com/watch?v=YUWyUE6kqoU

(Na multidão há um silêncio perdido que me invade
Cada outro é só um cada vez mais mim
Em cada sorriso indiscreto, em cada olhar corajoso
Em cada vez que sou o que quero ser e acabo por ser quem sou

As árvores das ruas baloiçam numa tempestade de diferenças
Abruptamente suave
De distância que se cruzam
distintas verdades que se acenam curiosas
Sins desinibidos como nãos
Nãos assumidos como sins
Talvez suspensos numa não necessidade de coisa nenhuma
Ditos, gritados em muitas línguas e sabores

Odores.
Perdi o cheiro de mim mesma
Ou assumi simplesmente o cheiro de todos e de tudo
Esvaziei-me para vaguear entre a novidade de tudo
E cada esquina é sempre onde ainda não fui
E vou. Como sou e como sempre
Porque parar não é morrer, é aprender
E ficar não é não partir, mas viajar por dentro

Fora.
Do mundo fechado que se fechou em si mesmo
Um mundo de homens no corpo de uma só mulher
Que se abre e se mostra sem pudor
E a mulher é Barcelona)