Inspirar.
Expirar.
Nunca poderemos ser de fora sem sermos primeiro o que temos de ser no nosso interior.
É só quando o ar entra em nós que podemos depois devolvê-lo, espalhá-lo, cantá-lo, voá-lo.
É só depois de nos enchermos de tudo aquilo que precisamos, que tudo aquilo que dizemos e fazemos deixa de nos custar, e pode partir livre e organicamente em direção aos outros e ao mundo.
É este o movimento certo. Dentro. Fora. Necessariamente.
Inspirar.
Expirar.
Da Árvore da Vida
Somos sementes na escuridão. Muitas, perdidas na terra densa, tentando fugir dos vermes que se alimentam de nós. Procurando água. Procurando luz. Procurando uma vida que dê sentido ao momento em que nos libertámos da grande árvore e caímos na terra, ainda que a memória dessa queda não exista em nós, ou seja apenas uma ideia vaga que tentamos negar.
Podemos viver uma vida inteira na escuridão, pensando que nada mais existe do que ela. Ansiando por algo que não sabemos o que é, às vezes fazendo o que for possível para esquecer que essa busca está em nós, outras vezes levando os outros a fugir também, criando fantasmas que só existem no medo de existir que ensombrece cada um de nós.
A verdade é que podemos, ao invés, esquecer por um momento que seja o medo de existir e olhar para dentro de nós, na tentativa de entender o que buscamos. Porque buscamos. Quem somos e o que podemos vir a ser, se fizermos por isso. E é então que algumas sementes percebem que podem crescer, ramificar-se, alastrar-se, e empreender essa busca fora de si até brotarem da terra. Sim, é possível. Sim, elas conseguem. E vislumbram dessa forma a beleza inegualável do céu, sentem a chuva morna e o calor do sol. Maravilham-se com a existência e contemplam a vida em todo o seu esplendor. É certo que os perigos também existem, desse lado da vida. A chuva pode ser violenta e o sol pode queimar. Outros predadores vorazes podem estar à espreita. Mas espreitar um pouco mais da vida é sempre um risco enriquecedor, porque é desse lado que a vida começa verdadeiramente a ser vida. Seremos ainda caule, depois tronco tímido, árvore frágil durante muito tempo. Se viveremos o suficiente ou da forma necessária para dar flores e frutos, não o sabemos. Se um dia chegaremos mesmo a lançar as nossas próprias sementes à Terra, não podemos adivinhar. Mas a descoberta desse outro lado é já, por si só, uma etapa poderosa da nossa evolução. Um passo importante e decisivo para que um dia consigamos, por fim e em conjunto, construir um lindo jardim junto da frondosa árvore que nos criou...
Podemos viver uma vida inteira na escuridão, pensando que nada mais existe do que ela. Ansiando por algo que não sabemos o que é, às vezes fazendo o que for possível para esquecer que essa busca está em nós, outras vezes levando os outros a fugir também, criando fantasmas que só existem no medo de existir que ensombrece cada um de nós.
A verdade é que podemos, ao invés, esquecer por um momento que seja o medo de existir e olhar para dentro de nós, na tentativa de entender o que buscamos. Porque buscamos. Quem somos e o que podemos vir a ser, se fizermos por isso. E é então que algumas sementes percebem que podem crescer, ramificar-se, alastrar-se, e empreender essa busca fora de si até brotarem da terra. Sim, é possível. Sim, elas conseguem. E vislumbram dessa forma a beleza inegualável do céu, sentem a chuva morna e o calor do sol. Maravilham-se com a existência e contemplam a vida em todo o seu esplendor. É certo que os perigos também existem, desse lado da vida. A chuva pode ser violenta e o sol pode queimar. Outros predadores vorazes podem estar à espreita. Mas espreitar um pouco mais da vida é sempre um risco enriquecedor, porque é desse lado que a vida começa verdadeiramente a ser vida. Seremos ainda caule, depois tronco tímido, árvore frágil durante muito tempo. Se viveremos o suficiente ou da forma necessária para dar flores e frutos, não o sabemos. Se um dia chegaremos mesmo a lançar as nossas próprias sementes à Terra, não podemos adivinhar. Mas a descoberta desse outro lado é já, por si só, uma etapa poderosa da nossa evolução. Um passo importante e decisivo para que um dia consigamos, por fim e em conjunto, construir um lindo jardim junto da frondosa árvore que nos criou...
A música do universo
"Pitágoras considerava a música como sons em movimento, entrecortados ou ininterruptos. Esses sons se ajustam segundo o tom e o modo. Os intervalos estão em relação com o desenvolvimento espiritual dos seres humanos e com a harmonia do cosmo.
Para Pitágoras, a distância da Terra à Lua representa um tom.
Da Lua a Mercúrio e de Mercúrio a Vênus há um semitom; de Vênus ao Sol, um tom e meio; do Sol a Marte, um tom; de Marte a Júpiter e de Júpiter a Saturno, um semitom; e de Saturno ao Zodíaco, um tom e meio. Esses tons formam juntos uma oitava, base da harmonia universal."
É talvez chegado o tempo de nos harmonizarmos com a música do universo. E de, humildemente, reconhecermos que sabemos tão pouco como sempre soubemos, porque é só na mais profunda humildade que o nosso coração pode abrir-se finalmente ao mistério...
Para Pitágoras, a distância da Terra à Lua representa um tom.
Da Lua a Mercúrio e de Mercúrio a Vênus há um semitom; de Vênus ao Sol, um tom e meio; do Sol a Marte, um tom; de Marte a Júpiter e de Júpiter a Saturno, um semitom; e de Saturno ao Zodíaco, um tom e meio. Esses tons formam juntos uma oitava, base da harmonia universal."
É talvez chegado o tempo de nos harmonizarmos com a música do universo. E de, humildemente, reconhecermos que sabemos tão pouco como sempre soubemos, porque é só na mais profunda humildade que o nosso coração pode abrir-se finalmente ao mistério...
Da Densidade da Terra
Despertei na estranha ideia de que a densidade me cansa. Me esgota. É um peso extra que nem sempre sei suportar. Talvez a ideia me tenha ocorrido no regresso de um sonho leve, de uma viagem sem densidade. Nos sonhos, raramente tenho corpo. Sou algo que vê, ou algo que percorre corpos para experimentar vidas. Nunca preso a um corpo único, a um único contexto num qualquer tempo ou parte do mundo.
Acordado, sou um corpo de que gosto, num contexto que, mesmo por entre dificuldades, me é tão favorável, rodeado de tanto e de tantos que enchem a minha vida de alegrias. Acordado, desejo viver o maior número de anos possível para dar e ser tudo aquilo que eu puder. Mas no regresso da noite, depois da deambulação noturnas, algo em mim se pergunta porque é preciso o peso de um corpo. Qual a razão de ser da densidade.
Acordado, sou um corpo de que gosto, num contexto que, mesmo por entre dificuldades, me é tão favorável, rodeado de tanto e de tantos que enchem a minha vida de alegrias. Acordado, desejo viver o maior número de anos possível para dar e ser tudo aquilo que eu puder. Mas no regresso da noite, depois da deambulação noturnas, algo em mim se pergunta porque é preciso o peso de um corpo. Qual a razão de ser da densidade.
Tesouro perdido - DIA 1
Paradoxalmente, num tempo em que tanto se falta de carência, o que os meus olhos lêem do mundo é um grave problema de excessos. Excesso de informação sobre tudo e sobre todos, excesso de estímulos, excesso de alternativas, excesso de pressões, excessos de solicitações, excesso de prateleiras, de lojas, de marcas, de casas, de cheiros, de formas de poluir, formas de julgar e formas de atacar. Vivemos dias de verdadeira overdose, que nos empurra para aqui e para ali, que nos sacode e nos entope de urgências, incertezas e revoltas.
É certo que o excesso é a outra face da carência. No justo equilíbrio de todas as coisas, tudo o que sobra de um lado, faltará no outro. E assim sendo, com tudo aquilo que temos a mais dentro de nós, falta-nos tantas vezes tudo aquilo de que realmente precisamos. Silêncio. Tempo. Ar puro. Sorrisos reais. Abraços verdadeiros. Paz.
Onde nos deixámos, entre tantos excessos? Em que ponto nos perdemos, nesta corrida desenfreada para lugar nenhum? O que realmente sentimos e pensamos? O que realmente somos? Talvez um tesouro perdido numa caixa cheia de tralha. Um tesouro que nunca encontraremos se não tivermos a coragem de nos despejarmos. A ideia da caixa vazia pode até assustar-nos. Tememos que, ao despejar-nos, não encontremos tesouro algum. Mas a verdade é que em cada corpo bate um coração. Estamos vivos e a vida é essa oportunidade única de sentir um coração a pulsar dentro de nós, para que sejamos e façamos tudo aquilo que dê sentido a esse bater...
É certo que o excesso é a outra face da carência. No justo equilíbrio de todas as coisas, tudo o que sobra de um lado, faltará no outro. E assim sendo, com tudo aquilo que temos a mais dentro de nós, falta-nos tantas vezes tudo aquilo de que realmente precisamos. Silêncio. Tempo. Ar puro. Sorrisos reais. Abraços verdadeiros. Paz.
Onde nos deixámos, entre tantos excessos? Em que ponto nos perdemos, nesta corrida desenfreada para lugar nenhum? O que realmente sentimos e pensamos? O que realmente somos? Talvez um tesouro perdido numa caixa cheia de tralha. Um tesouro que nunca encontraremos se não tivermos a coragem de nos despejarmos. A ideia da caixa vazia pode até assustar-nos. Tememos que, ao despejar-nos, não encontremos tesouro algum. Mas a verdade é que em cada corpo bate um coração. Estamos vivos e a vida é essa oportunidade única de sentir um coração a pulsar dentro de nós, para que sejamos e façamos tudo aquilo que dê sentido a esse bater...
Da arte e do artista
A arte não vale pela arte. A arte vale pela capacidade de ver mais além. Talvez não a verdade, mas algo que nos aproxima a todos dessa verdade. E a arte, não valendo pela arte, precisa de chegar a todos, aos mais possível, para que a arte tenha valido a pena.
A cultura é a difusão dessa arte necessária. Vale por isso mesmo, mas nunca deverá perder a sua capacidade de mudança. Cristalizá-la, impedindo-a de se transformar e se adaptar a quem está a ver o que mais ninguém viu, é um atentado à própria arte. Uma subversão do que tem de acontecer para a arte continuar a fazer o mundo avançar e o homem evoluir.
Nem sempre o artista suporta a sua arte. Dotado de sensibilidade (antena poderosa de captação do que está para além do visível), dedica a sua vida a expressar o que mais ninguém vê. O que mais ninguém sente. O que mais ninguém ouve. Empresta o seu corpo à criação, difundindo-a não para que o seu nome se conheça e a sua figura se imortalize (embora tantos caiam nessa ilusão) mas para que aquilo que ele vê, sente ou ouve chegue a toda a gente. Ao mundo que precisa de mudar. Aos homens que precisam de evoluir. Se o artista for atrás do que os outros fazem, só porque é mais vendável, só para ser mais conhecido, não estará a fazer verdadeira arte. Não estará a ser o artista que o mundo e os Homens precisam. Ainda que, fazer o que mais ninguém fez, tantas vezes tenha custado ao artista a sua própria vida. Ou porque os outros só o compreendem tarde demais. Ou porque ele próprio se sente enlouquecer, por ver, sentir e ouvir o que o mundo e os homens dizem não ser possível.
O artista deveria poder sair da sua condição de artista e equilibrá-la com uma vida real. Fechar os olhos ao que vê, quando escreve, desenha, pinta, compõe, e viver como todos vivem, e como é tão bom viver. Mas nem sempre o consegue. Porque fechar os olhos é negar uma parte de si. Em situações extremas, é sentir que se está a perder tempo: o tempo em que é chamado a fazer o que tem de ser feito. Mas o equilíbrio é necessário, se o artista não se quiser perder na sua própria arte. E, por ser demasiado artista, nunca chegar a realmente viver...
A cultura é a difusão dessa arte necessária. Vale por isso mesmo, mas nunca deverá perder a sua capacidade de mudança. Cristalizá-la, impedindo-a de se transformar e se adaptar a quem está a ver o que mais ninguém viu, é um atentado à própria arte. Uma subversão do que tem de acontecer para a arte continuar a fazer o mundo avançar e o homem evoluir.
Nem sempre o artista suporta a sua arte. Dotado de sensibilidade (antena poderosa de captação do que está para além do visível), dedica a sua vida a expressar o que mais ninguém vê. O que mais ninguém sente. O que mais ninguém ouve. Empresta o seu corpo à criação, difundindo-a não para que o seu nome se conheça e a sua figura se imortalize (embora tantos caiam nessa ilusão) mas para que aquilo que ele vê, sente ou ouve chegue a toda a gente. Ao mundo que precisa de mudar. Aos homens que precisam de evoluir. Se o artista for atrás do que os outros fazem, só porque é mais vendável, só para ser mais conhecido, não estará a fazer verdadeira arte. Não estará a ser o artista que o mundo e os Homens precisam. Ainda que, fazer o que mais ninguém fez, tantas vezes tenha custado ao artista a sua própria vida. Ou porque os outros só o compreendem tarde demais. Ou porque ele próprio se sente enlouquecer, por ver, sentir e ouvir o que o mundo e os homens dizem não ser possível.
O artista deveria poder sair da sua condição de artista e equilibrá-la com uma vida real. Fechar os olhos ao que vê, quando escreve, desenha, pinta, compõe, e viver como todos vivem, e como é tão bom viver. Mas nem sempre o consegue. Porque fechar os olhos é negar uma parte de si. Em situações extremas, é sentir que se está a perder tempo: o tempo em que é chamado a fazer o que tem de ser feito. Mas o equilíbrio é necessário, se o artista não se quiser perder na sua própria arte. E, por ser demasiado artista, nunca chegar a realmente viver...
O coração humano
"Nem orgulho nem preguiça formam à volta do coração humano muralha tão espessa que a esperança não rompa. (...) O problema seguinte a resolver é naturalmente o de a vontade se seguir à imaginação que sempre a esperança arquitecta, o de ter quem espera o carácter suficiente para persistir no caminho entrevisto."
(Agostinho da Silva)
(Agostinho da Silva)
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