27/02/14

Do tempo do mundo

Sou mais velha do que sou
Sou do tempo do mundo
(Se o mundo tivesse tempo
Que não tem)

Sou da idade do céu
Que não advoga a si mesmo o tempo
Porque é o que é sem ciclos nem estações
Movendo-se sem retorno
Sem idade
Numa continuidade incontável porque não começa nem acaba nem repete

O mundo tem tempo só porque o homem precisa de tempo
Então talvez não seja o mundo que tem tempo
Mas apenas o homem
Que mede com tempo só porque não entende o movimento eterno de todas as coisas

Cristaliza, para tentar compreender
Prende, para tentar reproduzir
Conta, para tentar organizar
Ainda tão longe da compreensão, da reprodução e da organização de tudo o que existe...

Sou mais velha do que sou
Não tenho idade

Deixo-te ser

Escrevo-te às escuras porque é na escuridão que me sais.
Não gostas de sol
E eu que gosto tanto de sol
Terei de ser escuridão para te receber.

Podia esquecer-te
Dizer-te que procurasses outro
Para eu sorrir como sempre à luz do dia
Sem a tua escuridão a enegrecer-me mesmo debaixo de um raio de sol

Mas não sou egoísta o suficiente para te recusar
Há corpo para ambos
Como não deixar-te viver?

Apenas te peço que não me sufoques
Que não tentes ser mais do que eu,
Porque eu preciso de ser eu para continuar a ser tu
Deixa-me que seja eu a chamar-te, quando a música tocar
Não venhas sem avisar
Sob risco de, quando te fores embora
Nada deixares de mim nada que se aproveite para quando quiseres voltar...
20/02/14

Do sentido e da finitude

É porque existe a ilusão de um fim que precisamos de um sentido. Quando compreendermos a plenitude da infinitude, entenderemos, por fim, como a nossa busca de sentido não tem afinal sentido algum...


18/02/14

Somos um copo medidor

Imagino o corpo de todos nós como um copo medidor. Um copo que nos foi dado sem instruções de uso, apenas vazio na expetativa que o enchamos de algo.
Na infância, dizem-nos, melhor ou pior, como fazê-lo. Às vezes falam-nos de amor. De respeito. De aventura. De partilha. Outras vezes dizem-nos para enchê-lo de competição e inveja. Ou de indiferença e impaciência.
Na escola, ensinam-nos a enchê-lo de conhecimento. Muito conhecimento. E a testá-lo a toda a hora. Os melhores são aqueles que têm o conhecimento a transbordar. Para que serve esse conhecimento todo, não sabemos ao certo, mas dizem-nos para encher o copo e nós enchemos, porque o contrário parece ser a condenação a um copo vazio.
Depois crescemos e trocamos o conhecimento pelo trabalho. Pela produtividade. É preciso encher o copo de sucesso profissional, dinheiro, carreira, visibilidade. É preciso pôr novamente o copo a transbordar de tudo aquilo que parece ser o mais importante na vida e, se isso não acontecer, cai-se no vazio da existência. De que serve um copo se estiver vazio? De que serve a vida, se não se for bem sucedido?
Até que, quem experimentou na vida o amor, o respeito, a aventura e a partilha, recorda-se de como isso era importante e saboroso, na infância (e talvez quem cresceu na competição e na inveja, na indiferença e impaciência, também o questione por fim). Recorda-se também do conhecimento. E pergunta-se se o copo, afinal, não poderá encher-se de várias coisas ao mesmo tempo. Afinal, de que serve o sucesso se não houver amor? O que é o trabalho sem respeito e aventura? O que é a vida sem a partilha? E então, sabiamente, começa-se a medir cada um dos ingredientes que se põe no copo. Não há uma fórmula igual a outra, por isso é preciso testar as combinações corretas, a dosagem adequada de cada coisa.
Com sorte, na velhice, o copo tem as doses certas de tudo o que precisamos. E, sabiamente, perguntamo-nos porque perdemos tanto tempo para chegar ali. Foi realmente necessário encher o copo tantas vezes de tanta coisa que não nos serviam? Terá sido realmente necessário lutarmos tanto para que ele transbordasse de algo que, na verdade, não nos fazia felizes? Porque ninguém nos disse, na infância, que não éramos um copo medidor por acaso? E que o objetivo da vida era encontrarmos a nossa justa combinação. Não um quanto, mas um como. Não uma quantidade, mas uma proporção. Não uma soma ou multiplicação, mas uma equação. Como podia a descoberta da fórmula da felicidade ser remetida para o final da nossa vida, se era ela que verdadeiramente lhe dava sentido e utilidade?
Pais que amam os seus filhos, dão-lhes na verdade tudo o que eles precisariam para ser felizes. É nas pressões da vida moderna, nas necessidades de um mundo consumista onde tudo é aferido pela produtividade, que se castra aquilo que, na verdade, seria (ou será, se ainda o quisermos) o nosso maior tesouro...



09/02/14

Da Terra e do seu ciclo

O ciclo da vida...
ou a trágica história da Terra em 2 minutos.

Estaremos ainda a tempo de o evitar? O que pode cada um de nós fazer por isso?

http://portugalglorioso.blogspot.pt/2014/02/a-historia-do-mundo-em-2-minutos.html
05/02/14

Inspirar, expirar

Inspirar.
Expirar.

Nunca poderemos ser de fora sem sermos primeiro o que temos de ser no nosso interior.
É só quando o ar entra em nós que podemos depois devolvê-lo, espalhá-lo, cantá-lo, voá-lo.
É só depois de nos enchermos de tudo aquilo que precisamos, que tudo aquilo que dizemos e fazemos deixa de nos custar, e pode partir livre e organicamente em direção aos outros e ao mundo.
É este o movimento certo. Dentro. Fora. Necessariamente.

Inspirar.
Expirar.

Da Árvore da Vida

Somos sementes na escuridão. Muitas, perdidas na terra densa, tentando fugir dos vermes que se alimentam de nós. Procurando água. Procurando luz. Procurando uma vida que dê sentido ao momento em que nos libertámos da grande árvore e caímos na terra, ainda que a memória dessa queda não exista em nós, ou seja apenas uma ideia vaga que tentamos negar.
Podemos viver uma vida inteira na escuridão, pensando que nada mais existe do que ela. Ansiando por algo que não sabemos o que é, às vezes fazendo o que for possível para esquecer que essa busca está em nós, outras vezes levando os outros a fugir também, criando fantasmas que só existem no medo de existir que ensombrece cada um de nós.
A verdade é que podemos, ao invés, esquecer por um momento que seja o medo de existir e olhar para dentro de nós, na tentativa de entender o que buscamos. Porque buscamos. Quem somos e o que podemos vir a ser, se fizermos por isso. E é então que algumas sementes percebem que podem crescer, ramificar-se, alastrar-se, e empreender essa busca fora de si até brotarem da terra. Sim, é possível. Sim, elas conseguem. E vislumbram dessa forma a beleza inegualável do céu, sentem a chuva morna e o calor do sol. Maravilham-se com a existência e contemplam a vida em todo o seu esplendor. É certo que os perigos também existem, desse lado da vida. A chuva pode ser violenta e o sol pode queimar. Outros predadores vorazes podem estar à espreita. Mas espreitar um pouco mais da vida é sempre um risco enriquecedor, porque é desse lado que a vida começa verdadeiramente a ser vida. Seremos ainda caule, depois tronco tímido, árvore frágil durante muito tempo. Se viveremos o suficiente ou da forma necessária para dar flores e frutos, não o sabemos. Se um dia chegaremos mesmo a lançar as nossas próprias sementes à Terra, não podemos adivinhar. Mas a descoberta desse outro lado é já, por si só, uma etapa poderosa da nossa evolução. Um passo importante e decisivo para que um dia consigamos, por fim e em conjunto, construir um lindo jardim junto da frondosa árvore que nos criou...