21/03/14

Olhar diferente

É através do olhar que o mundo avança. Um olhar diferente, sob outra perspetiva que nunca se teve, capaz de pôr em causa todos os outros olhares do mundo, presos a uma ideia de um olhar que não via tudo. Porque nunca se vê tudo. Mas é nossa obrigação ver sempre mais um pouco, sempre um pouco mais além. E é quando se gira, enquadra, rodeia, vira de cabeça para baixo, que os olhos vêem mais fundo e mais longe. Houve nesse momento uma qualquer criatividade que se apoderou do olhar, mas a criatividade de nada vale se não se aliar à coragem da diferença, indiferente à troça de quem não acredita que se possa olhar assim. Que não se dá sequer ao trabalho de tentar, até que todos experimentem olhar também dessa forma, e ela se banalize como todos os outros olhares.
É no olhar que tudo muda. Num simples olhar, que é a porta entre o que temos dentro de nós e o mundo exterior. No olhar não recebemos apenas de fora para dentro, empurramo-nos de dentro para fora sempre que arriscamos olhar diferente. É essa a grande diferença entre quem vive a vida a receber o que lhe é dado ver, e quem entende que receber é só metade do processo, e que será tanto mais aquilo que se recebe quanto mais formos capazes de dar, em cada olhar diferente.
Abramos então os nossos olhos, por favor. Escancaremo-los à vida, antes que a vida tome conta de nós e nos cegue de todos os excessos que procuram roubar-nos o olhar. Porque o mundo precisa, mais do que nunca, de quem ouse olhar diferente...

19/03/14

Do ciclo da vida

Feliz daquele que, olhando a nascente do rio, simplesmente se maravilha com o jorrar
sem ousar virar-lhe as costas e procurar no serpenteado do rio onde desaguam as suas águas,
até perder seus olhos num destino nenhum.

Porque o rio desagua no mar
E o mar desce à Terra
E da Terra volta a brotar como rio novamente.

Porque o rio desagua no mar
E o mar sobe às nuvens
e desce em chuva que regressará à nascente outra vez.

E é na consciência da ciclicidade de todas as coisas que nasce o desânimo
Porque o princípio e o fim como limites da existência magoam
mas saber que tudo é eterno dói ainda mais fundo
no âmago da nossa incompreensão

Seremos sempre rio, mar, terra, nascente
vapor, nuvem, água, nascente outra vez
Como tudo e como todos nesta Terra
aprisionado nesse ciclo natural de tudo o que existe

E só talvez quando a Terra deixar de ser Terra
e o homem deixar de ser homem
e sobrar apenas a consciência de existir
poderemos deixar de fluir.
E então, finalmente e livremente... ser!

Magnólia


Magnólia branca
de aroma suave
que segredos escondes nas tuas raízes?
que seiva alimenta o teu caule?
que sonho transforma em seda as tuas pétalas?
Tu, que resististe à passagem do tempo e das civilizações
Que viste a Terra quebrar-se e o mar a engoli-la vezes sem conta
Que viste fogos, vulcões e sol ardente
Chuvas intensas, ventos e furacões
Homens.
Os homens e as suas guerras.
Os homens e as suas chacinas.
Homens em permanente mutação
de ideias, de visões, de construções de nadas que pareciam tudo
e de tudos que simplesmente reduziram a nada
E tu ficaste.
Resististe.
Foste nascendo e morrendo e nascendo e morrendo serenamente
Aceitando tudo o que vinha do céu e tudo o que vinha da Terra
Embalando os Homens que perfumavas
Sorrindo aos Homens que adornavas.
Sem medo de nascer e morrer e nascer e morrer as vezes que fossem necessárias
Imutável, pura, incorruptível
num desabrochar diário sem angústias
Só porque sim
Só porque, bom ou mau, será sempre como terá de ser
e vale sempre a pena...
06/03/14

De tudo o que é e tudo o que somos - DIA 40

Se um dia descobrisse os segredos do mundo, deixaria de pertencer ao mundo
Se um dia entendesse quem era e tudo o que aqui me trouxe,
deixaria de ser necessária a vida e o que aqui preciso de fazer.

O mistério não foi feito para ser compreendido
Nem o código para ser descodificado
O mundo fez-se para ser mundo
E o homem para ser homem
Porque é só para isso que o mundo serve
E cada um de nós existe.

Cada alegria deve ser contemplada
como o sol que nasce em cada manhã
E cada obstáculo louvado, por ser tão necessário
como uma montanha após um vale.
E a vida avança quando aprendemos finalmente a extasiarmo-nos na alegria e a fortalecermo-nos na dificuldade
abraçando cada obstáculo
como quem põe a mochila às costas e galga a montanha em busca do sol que nasce todas as manhãs do lado de lá...

Nada é fácil
Porque se fosse fácil, não seria vida
Nenhum de nós é feliz todos os dias e horas e minutos
Porque se fosse, não seríamos homens
Por isso é tão inútil a angústia e o desânimo
como o é perguntarmo-nos porque existem as montanhas. A chuva. O calor. E os mares que separam continentes ou a distância que nos afasta das estrelas.

Tudo é o que é porque simplesmente tem de ser.
E a viagem do homem pelo mundo, mais do que um questionamento inerte, é ou deverá ser um movimento constante, no fluxo de tudo o que existe tal como terá de existir.

E não, nunca entenderemos os segredos do mundo.
E não, nunca saberemos ao certo quem somos e o que aqui nos trouxe.
Mas o questionamento só nos será verdadeiramente útil,
no dia em que o coração decidir entregar-se ao que nunca poderá compreender...

01/03/14

Do apelo

Sinto o apelo que brota em mim como um segredo que conheço sem conhecer
A cada sinal sei que estou onde devia estar
leio o que devia ler
escrevo o que devia escrever
compreendendo-o sem o compreender.

Sem forças para continuar a resistir, confio
E percebo como é afinal tão subtil a passagem do cepticismo à fé sem questionamento
Nunca se compreenderão os mistérios do mundo
Nunca se compreenderá o milagre da vida
E no entanto, se pararmos para os questionar,
sentimo-los em nós para além de qualquer dogma ou fundamento
Nada do que se diz é verdade
Sendo tão verdade em nós tudo o que está ainda por dizer...
Somos nada do que sabemos
E tudo daquilo que, no nosso íntimo, na ausência de explicações, temos a certeza de saber...
27/02/14

Do tempo do mundo

Sou mais velha do que sou
Sou do tempo do mundo
(Se o mundo tivesse tempo
Que não tem)

Sou da idade do céu
Que não advoga a si mesmo o tempo
Porque é o que é sem ciclos nem estações
Movendo-se sem retorno
Sem idade
Numa continuidade incontável porque não começa nem acaba nem repete

O mundo tem tempo só porque o homem precisa de tempo
Então talvez não seja o mundo que tem tempo
Mas apenas o homem
Que mede com tempo só porque não entende o movimento eterno de todas as coisas

Cristaliza, para tentar compreender
Prende, para tentar reproduzir
Conta, para tentar organizar
Ainda tão longe da compreensão, da reprodução e da organização de tudo o que existe...

Sou mais velha do que sou
Não tenho idade

Deixo-te ser

Escrevo-te às escuras porque é na escuridão que me sais.
Não gostas de sol
E eu que gosto tanto de sol
Terei de ser escuridão para te receber.

Podia esquecer-te
Dizer-te que procurasses outro
Para eu sorrir como sempre à luz do dia
Sem a tua escuridão a enegrecer-me mesmo debaixo de um raio de sol

Mas não sou egoísta o suficiente para te recusar
Há corpo para ambos
Como não deixar-te viver?

Apenas te peço que não me sufoques
Que não tentes ser mais do que eu,
Porque eu preciso de ser eu para continuar a ser tu
Deixa-me que seja eu a chamar-te, quando a música tocar
Não venhas sem avisar
Sob risco de, quando te fores embora
Nada deixares de mim nada que se aproveite para quando quiseres voltar...