- Mamã, mamã, está ali o teu livro!
- Sabes que ele já não é bem meu, filhota... Os livros são como os filhos. São os pais que lhes dão vida, ajudavam-vos a crescer, mas vocês não nos pertencem. São da vida, dos vossos próprios desafios, têm de fazer o vosso caminho e cruzarem-se com quem tenham de cruzar, para crescerem e ajudarem a crescer.
- Então não vamos lá vê-lo?
- Vamos, mas não o abrimos. Tiramo-lhe só uma fotografia e pomos no FB, para mostrar o quanto estamos orgulhosos nele...
No tempo de Noé
Mais um excelente artigo de Leonardo Boff sobre a urgência de trilhar um caminho diferente, que nos conduza àquilo para que somos e quem sabe até àquilo para que viemos. Um caminho que, em última instância, no permita continuar a ser...
Vivemos tempos de Noé
25/04/2014
Vivemos tempos de Noé. Pressintindo que viria um dilúvio, o velho Noé convocava as pessoas para mudarem de vida. Mas ninguém o ouvia. A contrário, “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento até que veio o dilúvio e os fez perecer a todos”(Lc 17,27; Gn 6-9).
Os 2000 cientistas do IPCC que estudam o clima da Terra são nossos Noés atuais. O terceiro e último relatório de 13/4/2014 contem grave alerta: temos apenas 15 anos para impedir a ultrapassagem de 2 graus C do clima da Terra. Se ultrapassar, conheceremos algo do dilúvio. Ninguém dos 196 chefes de Estado disse qualquer palavra. A grande maioria continua a explorar os bens naturais, negociando, especulando e consumindo sem parar como nos dias de Noé.
Entrevejo três graves irresponsabilidades: a geral e a específica e supina ignorância do Congresso norte-americano que vetou todas as medidas contra o aquecimento global; a manifesta má vontade da maioria dos chefes de Estado; e a falta de criatividade para montar as traves de uma possivel Arca salvadora. Como um louco numa sociedade de “sábios” ouso propor algumas premissas. Se algum mérito possuirem, é o de apontarem para um novo paradigma civilizacional que nos poderá dar outro rumo à história. Ei-las:
1. Completar a razão instrumental-analítica-científica dominante com a inteligência emocional ou cordial. Sem esta não nos comovemos face à devastação da natureza e não nos engajamos para resgatá-la e salvá-la.
2. Passar da simples compreensão de Terra como armazém de recursos para a visão da Terra viva, superorganismo vivo que se autoregula, chamado Gaia.
3. Entender que, como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa e ama, cuja missão é cuidar da natureza.
4. Passar do paradigma da conquista/dominação ainda vigente, para o paradigna do cuidado/responsabiidade.
5.Entender que a sustentabilidade só será garantida se respeitarmos os direitos da natureza e da Mãe Terra.
6. Articular o contrato natural feito com a natureza que supõe a reciprocidade inexistente com o contrato social que supõe a colaboração e inclusão de todos, insuficiente.
7. Não existe meio-ambiente mas o ambiente inteiro. O que existe é a comunidade de vida com o mesmo código genético de base,estabelecendo um parentesco entre todos.
8.Abandonar a obsessão pelo crescimento/ desenvolvimento pela redistribuição da riqueza já acumulada.
9.Devemos produzir para atender demandas humanas mas sempre dentro dos limites da Terra e de cada ecossistema.
10.Pôr sob controle a voracidade produtivista e a concorrência sem limites em favor da cooperação e da solidariedade pois todos dependemos uns dos outros.
11.Superar o individualismo pela colaboração entre todos, pois esta é a lógica suprema do processo de evolução.
12. O bem comum humano e natural tem primazia sobre o bem comum particular e corporativo.
13.Passar da ética utilitarista e eficientista para a ética do cuidado e da responsabilidade.
14.Passar do consumismo individualista para a sobriedade compartida. O que nos sobra, falta aos demais.
15. Passar da maximização do crescimento para a otimização da prosperidade a partir dos mais necessitados.
16. Ao invés de permanentemente modernizar, ecologizar todos os saberes e processos produtivos visando tutelar os bens e serviços naturais e dar descanço à natureza e à Terra.
17. Opor à era do antropoceno que faz do ser humano uma força geofísica destrutiva, pela era ecozóica que ecologiza e inclui todos os seres no grande sistema terrenal e cósmico.
18. Valorizar o capital humano/espiritual inexaurível sobre o capital material exaurível porque o primeiro fornece os critérios para as intervenções responsáveis na natureza e alimenta permanentemente os valores humano-espirituais da solidariedade, do cuidado, do amor e da compaixão, bases para uma sociedade com justiça, equidade e respeito à natureza.
19.Contra a decepção e a depressão provocadas pelas promessas não cumpridas de bem-estar geral feitas pela cultura do capital, alimentar o princípio-esperança, fonte de fantasia criadora, de novas idéias e de utopias viáveis.
20. Crer e testemunhar que, no fim de tudo, o bem triunfará sobre a mal, a verdade sobre a mentira e o amor sobre a indiferença. Um pouco de luz poderá espancar uma imensidão de trevas.
Leonardo Boff escreveu Opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Record, Rio 2010.
http://leonardoboff.wordpress.com/2014/04/25/vivemos-tempos-de-noe/
Vivemos tempos de Noé
25/04/2014
Vivemos tempos de Noé. Pressintindo que viria um dilúvio, o velho Noé convocava as pessoas para mudarem de vida. Mas ninguém o ouvia. A contrário, “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento até que veio o dilúvio e os fez perecer a todos”(Lc 17,27; Gn 6-9).
Os 2000 cientistas do IPCC que estudam o clima da Terra são nossos Noés atuais. O terceiro e último relatório de 13/4/2014 contem grave alerta: temos apenas 15 anos para impedir a ultrapassagem de 2 graus C do clima da Terra. Se ultrapassar, conheceremos algo do dilúvio. Ninguém dos 196 chefes de Estado disse qualquer palavra. A grande maioria continua a explorar os bens naturais, negociando, especulando e consumindo sem parar como nos dias de Noé.
Entrevejo três graves irresponsabilidades: a geral e a específica e supina ignorância do Congresso norte-americano que vetou todas as medidas contra o aquecimento global; a manifesta má vontade da maioria dos chefes de Estado; e a falta de criatividade para montar as traves de uma possivel Arca salvadora. Como um louco numa sociedade de “sábios” ouso propor algumas premissas. Se algum mérito possuirem, é o de apontarem para um novo paradigma civilizacional que nos poderá dar outro rumo à história. Ei-las:
1. Completar a razão instrumental-analítica-científica dominante com a inteligência emocional ou cordial. Sem esta não nos comovemos face à devastação da natureza e não nos engajamos para resgatá-la e salvá-la.
2. Passar da simples compreensão de Terra como armazém de recursos para a visão da Terra viva, superorganismo vivo que se autoregula, chamado Gaia.
3. Entender que, como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa e ama, cuja missão é cuidar da natureza.
4. Passar do paradigma da conquista/dominação ainda vigente, para o paradigna do cuidado/responsabiidade.
5.Entender que a sustentabilidade só será garantida se respeitarmos os direitos da natureza e da Mãe Terra.
6. Articular o contrato natural feito com a natureza que supõe a reciprocidade inexistente com o contrato social que supõe a colaboração e inclusão de todos, insuficiente.
7. Não existe meio-ambiente mas o ambiente inteiro. O que existe é a comunidade de vida com o mesmo código genético de base,estabelecendo um parentesco entre todos.
8.Abandonar a obsessão pelo crescimento/ desenvolvimento pela redistribuição da riqueza já acumulada.
9.Devemos produzir para atender demandas humanas mas sempre dentro dos limites da Terra e de cada ecossistema.
10.Pôr sob controle a voracidade produtivista e a concorrência sem limites em favor da cooperação e da solidariedade pois todos dependemos uns dos outros.
11.Superar o individualismo pela colaboração entre todos, pois esta é a lógica suprema do processo de evolução.
12. O bem comum humano e natural tem primazia sobre o bem comum particular e corporativo.
13.Passar da ética utilitarista e eficientista para a ética do cuidado e da responsabilidade.
14.Passar do consumismo individualista para a sobriedade compartida. O que nos sobra, falta aos demais.
15. Passar da maximização do crescimento para a otimização da prosperidade a partir dos mais necessitados.
16. Ao invés de permanentemente modernizar, ecologizar todos os saberes e processos produtivos visando tutelar os bens e serviços naturais e dar descanço à natureza e à Terra.
17. Opor à era do antropoceno que faz do ser humano uma força geofísica destrutiva, pela era ecozóica que ecologiza e inclui todos os seres no grande sistema terrenal e cósmico.
18. Valorizar o capital humano/espiritual inexaurível sobre o capital material exaurível porque o primeiro fornece os critérios para as intervenções responsáveis na natureza e alimenta permanentemente os valores humano-espirituais da solidariedade, do cuidado, do amor e da compaixão, bases para uma sociedade com justiça, equidade e respeito à natureza.
19.Contra a decepção e a depressão provocadas pelas promessas não cumpridas de bem-estar geral feitas pela cultura do capital, alimentar o princípio-esperança, fonte de fantasia criadora, de novas idéias e de utopias viáveis.
20. Crer e testemunhar que, no fim de tudo, o bem triunfará sobre a mal, a verdade sobre a mentira e o amor sobre a indiferença. Um pouco de luz poderá espancar uma imensidão de trevas.
Leonardo Boff escreveu Opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Record, Rio 2010.
http://leonardoboff.wordpress.com/2014/04/25/vivemos-tempos-de-noe/
40 anos depois...
Há 40 anos, um grupo de homens decidiu que era hora de reescrever a história de Portugal e a de todos os portugueses. Muniu-se de gestos simbólicos. Valeu-se da sua criatividade.
Hoje, mais uma vez, Portugal precisa de se recriar. Talvez não com caravelas lançadas ao mar ou com uma nova revolução, porque desafios diferentes exigem diferentes soluções. Mas é tempo de pensarmos na História do nosso país e o que nos conduziu até aqui; quem somos hoje, enquanto povo, com os nossos defeitos e qualidades, no contexto em que vivemos; e sobretudo que país queremos ter amanhã e o que podemos fazer já hoje e agora, para o alcançar?
Hoje é dia de recordar, hoje é dia de refletir. Mas hoje é também dia de criar soluções e partir para a ação. O que pode cada um de nós fazer para transformar Portugal num lugar melhor? O que podemos fazer, enquanto povo, para reescrever, mais uma vez, a história do nosso país?
Hoje, mais uma vez, Portugal precisa de se recriar. Talvez não com caravelas lançadas ao mar ou com uma nova revolução, porque desafios diferentes exigem diferentes soluções. Mas é tempo de pensarmos na História do nosso país e o que nos conduziu até aqui; quem somos hoje, enquanto povo, com os nossos defeitos e qualidades, no contexto em que vivemos; e sobretudo que país queremos ter amanhã e o que podemos fazer já hoje e agora, para o alcançar?
Hoje é dia de recordar, hoje é dia de refletir. Mas hoje é também dia de criar soluções e partir para a ação. O que pode cada um de nós fazer para transformar Portugal num lugar melhor? O que podemos fazer, enquanto povo, para reescrever, mais uma vez, a história do nosso país?
O Livro da Tua Vida
No dia em que o meu filho mais velho, na altura com 4 anos, me perguntou se a Humanidade iria extinguir-se como os dinossauro, percebi que nunca mais olharia o mundo com os mesmos olhos. Como fora possível que, na azáfama e nas distrações da vida, me esquecera dos meus sonhos de criança para mudar o mundo? E não eram os meus sonhos, agora, mais do que nunca, necessários? Não estava efetivamente o mundo virado de pernas para o ar, a tantos níveis? Não caminhava efetivamente a Humanidade para a extinção? Como podia eu demitir-me da responsabilidade de o mudar?
Nos últimos 6 anos tenho andado em busca de mim mesma, nas mudanças que tenho feito e nas palavras que tenho escrito. Percebi que não podia mudar o mundo se não me mudasse primeiro. Que há muitas formas de mudar o mundo, nos mais pequenos gestos que fazemos. Percebi que nunca agradaremos a todos e que tantas vezes, mesmo com as melhores das intenções, erramos. Mas percebi tanto que é urgente tentarmos e não desistirmos, por mais impotentes que nos sintamos.
Numa noite de insónias, há uns meses, surgiu-me a ideia de escrever um livro diferente de todos os outros. Um livro onde partilhasse as ferramentas de que me tenho valido, nesta minha mudança, e que são as ferramentas que uso no meu trabalho (escrita criativa), aplicadas à nossa própria vida. Assim nasceu O Livro da Tua Vida, que vai ser lançado amanhã, e que contará com as histórias inspiradoras do Fernando Alvim, da Marta Sofia Guerreiro, da Cristina Baptista, da Marta Rebelo, da Andresa Salgueiro, do Joao Mendes Reis, da Sara Silva e do Manuel Guerra.
Se as minhas ferramentas vão servir o meu propósito e ajudar quem as quiser usar na sua mudança pessoal (primeira etapa de uma mudança maior), não faço a menor ideia. Mas quero muito, amanhã, dar um beijo de boa noite aos meus filhos e deitar-me com a ideia de que, por eles e por mim (por todos nós!), tentei e continuarei a tentar.
A quem quiser e puder aparecer... até amanhã!
Nos últimos 6 anos tenho andado em busca de mim mesma, nas mudanças que tenho feito e nas palavras que tenho escrito. Percebi que não podia mudar o mundo se não me mudasse primeiro. Que há muitas formas de mudar o mundo, nos mais pequenos gestos que fazemos. Percebi que nunca agradaremos a todos e que tantas vezes, mesmo com as melhores das intenções, erramos. Mas percebi tanto que é urgente tentarmos e não desistirmos, por mais impotentes que nos sintamos.
Numa noite de insónias, há uns meses, surgiu-me a ideia de escrever um livro diferente de todos os outros. Um livro onde partilhasse as ferramentas de que me tenho valido, nesta minha mudança, e que são as ferramentas que uso no meu trabalho (escrita criativa), aplicadas à nossa própria vida. Assim nasceu O Livro da Tua Vida, que vai ser lançado amanhã, e que contará com as histórias inspiradoras do Fernando Alvim, da Marta Sofia Guerreiro, da Cristina Baptista, da Marta Rebelo, da Andresa Salgueiro, do Joao Mendes Reis, da Sara Silva e do Manuel Guerra.
Se as minhas ferramentas vão servir o meu propósito e ajudar quem as quiser usar na sua mudança pessoal (primeira etapa de uma mudança maior), não faço a menor ideia. Mas quero muito, amanhã, dar um beijo de boa noite aos meus filhos e deitar-me com a ideia de que, por eles e por mim (por todos nós!), tentei e continuarei a tentar.
A quem quiser e puder aparecer... até amanhã!
Olhar diferente
É através do olhar que o mundo avança. Um olhar diferente, sob outra perspetiva que nunca se teve, capaz de pôr em causa todos os outros olhares do mundo, presos a uma ideia de um olhar que não via tudo. Porque nunca se vê tudo. Mas é nossa obrigação ver sempre mais um pouco, sempre um pouco mais além. E é quando se gira, enquadra, rodeia, vira de cabeça para baixo, que os olhos vêem mais fundo e mais longe. Houve nesse momento uma qualquer criatividade que se apoderou do olhar, mas a criatividade de nada vale se não se aliar à coragem da diferença, indiferente à troça de quem não acredita que se possa olhar assim. Que não se dá sequer ao trabalho de tentar, até que todos experimentem olhar também dessa forma, e ela se banalize como todos os outros olhares.
É no olhar que tudo muda. Num simples olhar, que é a porta entre o que temos dentro de nós e o mundo exterior. No olhar não recebemos apenas de fora para dentro, empurramo-nos de dentro para fora sempre que arriscamos olhar diferente. É essa a grande diferença entre quem vive a vida a receber o que lhe é dado ver, e quem entende que receber é só metade do processo, e que será tanto mais aquilo que se recebe quanto mais formos capazes de dar, em cada olhar diferente.
Abramos então os nossos olhos, por favor. Escancaremo-los à vida, antes que a vida tome conta de nós e nos cegue de todos os excessos que procuram roubar-nos o olhar. Porque o mundo precisa, mais do que nunca, de quem ouse olhar diferente...
É no olhar que tudo muda. Num simples olhar, que é a porta entre o que temos dentro de nós e o mundo exterior. No olhar não recebemos apenas de fora para dentro, empurramo-nos de dentro para fora sempre que arriscamos olhar diferente. É essa a grande diferença entre quem vive a vida a receber o que lhe é dado ver, e quem entende que receber é só metade do processo, e que será tanto mais aquilo que se recebe quanto mais formos capazes de dar, em cada olhar diferente.
Abramos então os nossos olhos, por favor. Escancaremo-los à vida, antes que a vida tome conta de nós e nos cegue de todos os excessos que procuram roubar-nos o olhar. Porque o mundo precisa, mais do que nunca, de quem ouse olhar diferente...
Do ciclo da vida
Feliz daquele que, olhando a nascente do rio, simplesmente se maravilha com o jorrar
sem ousar virar-lhe as costas e procurar no serpenteado do rio onde desaguam as suas águas,
até perder seus olhos num destino nenhum.
Porque o rio desagua no mar
E o mar desce à Terra
E da Terra volta a brotar como rio novamente.
Porque o rio desagua no mar
E o mar sobe às nuvens
e desce em chuva que regressará à nascente outra vez.
E é na consciência da ciclicidade de todas as coisas que nasce o desânimo
Porque o princípio e o fim como limites da existência magoam
mas saber que tudo é eterno dói ainda mais fundo
no âmago da nossa incompreensão
Seremos sempre rio, mar, terra, nascente
vapor, nuvem, água, nascente outra vez
Como tudo e como todos nesta Terra
aprisionado nesse ciclo natural de tudo o que existe
E só talvez quando a Terra deixar de ser Terra
e o homem deixar de ser homem
e sobrar apenas a consciência de existir
poderemos deixar de fluir.
E então, finalmente e livremente... ser!
sem ousar virar-lhe as costas e procurar no serpenteado do rio onde desaguam as suas águas,
até perder seus olhos num destino nenhum.
Porque o rio desagua no mar
E o mar desce à Terra
E da Terra volta a brotar como rio novamente.
Porque o rio desagua no mar
E o mar sobe às nuvens
e desce em chuva que regressará à nascente outra vez.
E é na consciência da ciclicidade de todas as coisas que nasce o desânimo
Porque o princípio e o fim como limites da existência magoam
mas saber que tudo é eterno dói ainda mais fundo
no âmago da nossa incompreensão
Seremos sempre rio, mar, terra, nascente
vapor, nuvem, água, nascente outra vez
Como tudo e como todos nesta Terra
aprisionado nesse ciclo natural de tudo o que existe
E só talvez quando a Terra deixar de ser Terra
e o homem deixar de ser homem
e sobrar apenas a consciência de existir
poderemos deixar de fluir.
E então, finalmente e livremente... ser!
Magnólia
Magnólia branca
de aroma suave
que segredos escondes nas tuas raízes?
que seiva alimenta o teu caule?
que sonho transforma em seda as tuas pétalas?
Tu, que resististe à passagem do tempo e das civilizações
Que viste a Terra quebrar-se e o mar a engoli-la vezes sem conta
Que viste fogos, vulcões e sol ardente
Chuvas intensas, ventos e furacões
Homens.
Os homens e as suas guerras.
Os homens e as suas chacinas.
Homens em permanente mutação
de ideias, de visões, de construções de nadas que pareciam tudo
e de tudos que simplesmente reduziram a nada
E tu ficaste.
Resististe.
Foste nascendo e morrendo e nascendo e morrendo serenamente
Aceitando tudo o que vinha do céu e tudo o que vinha da Terra
Embalando os Homens que perfumavas
Sorrindo aos Homens que adornavas.
Sem medo de nascer e morrer e nascer e morrer as vezes que fossem necessárias
Imutável, pura, incorruptível
num desabrochar diário sem angústias
Só porque sim
Só porque, bom ou mau, será sempre como terá de ser
e vale sempre a pena...
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