27/04/14

Um livro na prateleira

- Mamã, mamã, está ali o teu livro!
- Sabes que ele já não é bem meu, filhota... Os livros são como os filhos. São os pais que lhes dão vida, ajudavam-vos a crescer, mas vocês não nos pertencem. São da vida, dos vossos próprios desafios, têm de fazer o vosso caminho e cruzarem-se com quem tenham de cruzar, para crescerem e ajudarem a crescer.
- Então não vamos lá vê-lo?
- Vamos, mas não o abrimos. Tiramo-lhe só uma fotografia e pomos no FB, para mostrar o quanto estamos orgulhosos nele...

26/04/14

No tempo de Noé

Mais um excelente artigo de Leonardo Boff sobre a urgência de trilhar um caminho diferente, que nos conduza àquilo para que somos e quem sabe até àquilo para que viemos. Um caminho que, em última instância, no permita continuar a ser...

Vivemos tempos de Noé
25/04/2014

Vivemos tempos de Noé. Pressintindo que viria um dilúvio, o velho Noé convocava as pessoas para mudarem de vida. Mas ninguém o ouvia. A contrário, “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento até que veio o dilúvio e os fez perecer a todos”(Lc 17,27; Gn 6-9).

Os 2000 cientistas do IPCC que estudam o clima da Terra são nossos Noés atuais. O terceiro e último relatório de 13/4/2014 contem grave alerta: temos apenas 15 anos para impedir a ultrapassagem de 2 graus C do clima da Terra. Se ultrapassar, conheceremos algo do dilúvio. Ninguém dos 196 chefes de Estado disse qualquer palavra. A grande maioria continua a explorar os bens naturais, negociando, especulando e consumindo sem parar como nos dias de Noé.

Entrevejo três graves irresponsabilidades: a geral e a específica e supina ignorância do Congresso norte-americano que vetou todas as medidas contra o aquecimento global; a manifesta má vontade da maioria dos chefes de Estado; e a falta de criatividade para montar as traves de uma possivel Arca salvadora. Como um louco numa sociedade de “sábios” ouso propor algumas premissas. Se algum mérito possuirem, é o de apontarem para um novo paradigma civilizacional que nos poderá dar outro rumo à história. Ei-las:

1. Completar a razão instrumental-analítica-científica dominante com a inteligência emocional ou cordial. Sem esta não nos comovemos face à devastação da natureza e não nos engajamos para resgatá-la e salvá-la.

2. Passar da simples compreensão de Terra como armazém de recursos para a visão da Terra viva, superorganismo vivo que se autoregula, chamado Gaia.

3. Entender que, como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa e ama, cuja missão é cuidar da natureza.

4. Passar do paradigma da conquista/dominação ainda vigente, para o paradigna do cuidado/responsabiidade.

5.Entender que a sustentabilidade só será garantida se respeitarmos os direitos da natureza e da Mãe Terra.

6. Articular o contrato natural feito com a natureza que supõe a reciprocidade inexistente com o contrato social que supõe a colaboração e inclusão de todos, insuficiente.

7. Não existe meio-ambiente mas o ambiente inteiro. O que existe é a comunidade de vida com o mesmo código genético de base,estabelecendo um parentesco entre todos.

8.Abandonar a obsessão pelo crescimento/ desenvolvimento pela redistribuição da riqueza já acumulada.

9.Devemos produzir para atender demandas humanas mas sempre dentro dos limites da Terra e de cada ecossistema.

10.Pôr sob controle a voracidade produtivista e a concorrência sem limites em favor da cooperação e da solidariedade pois todos dependemos uns dos outros.

11.Superar o individualismo pela colaboração entre todos, pois esta é a lógica suprema do processo de evolução.

12. O bem comum humano e natural tem primazia sobre o bem comum particular e corporativo.

13.Passar da ética utilitarista e eficientista para a ética do cuidado e da responsabilidade.

14.Passar do consumismo individualista para a sobriedade compartida. O que nos sobra, falta aos demais.

15. Passar da maximização do crescimento para a otimização da prosperidade a partir dos mais necessitados.

16. Ao invés de permanentemente modernizar, ecologizar todos os saberes e processos produtivos visando tutelar os bens e serviços naturais e dar descanço à natureza e à Terra.

17. Opor à era do antropoceno que faz do ser humano uma força geofísica destrutiva, pela era ecozóica que ecologiza e inclui todos os seres no grande sistema terrenal e cósmico.

18. Valorizar o capital humano/espiritual inexaurível sobre o capital material exaurível porque o primeiro fornece os critérios para as intervenções responsáveis na natureza e alimenta permanentemente os valores humano-espirituais da solidariedade, do cuidado, do amor e da compaixão, bases para uma sociedade com justiça, equidade e respeito à natureza.

19.Contra a decepção e a depressão provocadas pelas promessas não cumpridas de bem-estar geral feitas pela cultura do capital, alimentar o princípio-esperança, fonte de fantasia criadora, de novas idéias e de utopias viáveis.

20. Crer e testemunhar que, no fim de tudo, o bem triunfará sobre a mal, a verdade sobre a mentira e o amor sobre a indiferença. Um pouco de luz poderá espancar uma imensidão de trevas.

Leonardo Boff escreveu Opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Record, Rio 2010.

http://leonardoboff.wordpress.com/2014/04/25/vivemos-tempos-de-noe/
25/04/14

40 anos depois...

Há 40 anos, um grupo de homens decidiu que era hora de reescrever a história de Portugal e a de todos os portugueses. Muniu-se de gestos simbólicos. Valeu-se da sua criatividade.
Hoje, mais uma vez, Portugal precisa de se recriar. Talvez não com caravelas lançadas ao mar ou com uma nova revolução, porque desafios diferentes exigem diferentes soluções. Mas é tempo de pensarmos na História do nosso país e o que nos conduziu até aqui; quem somos hoje, enquanto povo, com os nossos defeitos e qualidades, no contexto em que vivemos; e sobretudo que país queremos ter amanhã e o que podemos fazer já hoje e agora, para o alcançar?
Hoje é dia de recordar, hoje é dia de refletir. Mas hoje é também dia de criar soluções e partir para a ação. O que pode cada um de nós fazer para transformar Portugal num lugar melhor? O que podemos fazer, enquanto povo, para reescrever, mais uma vez, a história do nosso país?

14/04/14

O Livro da Tua Vida

No dia em que o meu filho mais velho, na altura com 4 anos, me perguntou se a Humanidade iria extinguir-se como os dinossauro, percebi que nunca mais olharia o mundo com os mesmos olhos. Como fora possível que, na azáfama e nas distrações da vida, me esquecera dos meus sonhos de criança para mudar o mundo? E não eram os meus sonhos, agora, mais do que nunca, necessários? Não estava efetivamente o mundo virado de pernas para o ar, a tantos níveis? Não caminhava efetivamente a Humanidade para a extinção? Como podia eu demitir-me da responsabilidade de o mudar?
Nos últimos 6 anos tenho andado em busca de mim mesma, nas mudanças que tenho feito e nas palavras que tenho escrito. Percebi que não podia mudar o mundo se não me mudasse primeiro. Que há muitas formas de mudar o mundo, nos mais pequenos gestos que fazemos. Percebi que nunca agradaremos a todos e que tantas vezes, mesmo com as melhores das intenções, erramos. Mas percebi tanto que é urgente tentarmos e não desistirmos, por mais impotentes que nos sintamos.
Numa noite de insónias, há uns meses, surgiu-me a ideia de escrever um livro diferente de todos os outros. Um livro onde partilhasse as ferramentas de que me tenho valido, nesta minha mudança, e que são as ferramentas que uso no meu trabalho (escrita criativa), aplicadas à nossa própria vida. Assim nasceu O Livro da Tua Vida, que vai ser lançado amanhã, e que contará com as histórias inspiradoras do Fernando Alvim, da Marta Sofia Guerreiro, da Cristina Baptista, da Marta Rebelo, da Andresa Salgueiro, do Joao Mendes Reis, da Sara Silva e do Manuel Guerra.
Se as minhas ferramentas vão servir o meu propósito e ajudar quem as quiser usar na sua mudança pessoal (primeira etapa de uma mudança maior), não faço a menor ideia. Mas quero muito, amanhã, dar um beijo de boa noite aos meus filhos e deitar-me com a ideia de que, por eles e por mim (por todos nós!), tentei e continuarei a tentar.
A quem quiser e puder aparecer... até amanhã!

21/03/14

Olhar diferente

É através do olhar que o mundo avança. Um olhar diferente, sob outra perspetiva que nunca se teve, capaz de pôr em causa todos os outros olhares do mundo, presos a uma ideia de um olhar que não via tudo. Porque nunca se vê tudo. Mas é nossa obrigação ver sempre mais um pouco, sempre um pouco mais além. E é quando se gira, enquadra, rodeia, vira de cabeça para baixo, que os olhos vêem mais fundo e mais longe. Houve nesse momento uma qualquer criatividade que se apoderou do olhar, mas a criatividade de nada vale se não se aliar à coragem da diferença, indiferente à troça de quem não acredita que se possa olhar assim. Que não se dá sequer ao trabalho de tentar, até que todos experimentem olhar também dessa forma, e ela se banalize como todos os outros olhares.
É no olhar que tudo muda. Num simples olhar, que é a porta entre o que temos dentro de nós e o mundo exterior. No olhar não recebemos apenas de fora para dentro, empurramo-nos de dentro para fora sempre que arriscamos olhar diferente. É essa a grande diferença entre quem vive a vida a receber o que lhe é dado ver, e quem entende que receber é só metade do processo, e que será tanto mais aquilo que se recebe quanto mais formos capazes de dar, em cada olhar diferente.
Abramos então os nossos olhos, por favor. Escancaremo-los à vida, antes que a vida tome conta de nós e nos cegue de todos os excessos que procuram roubar-nos o olhar. Porque o mundo precisa, mais do que nunca, de quem ouse olhar diferente...

19/03/14

Do ciclo da vida

Feliz daquele que, olhando a nascente do rio, simplesmente se maravilha com o jorrar
sem ousar virar-lhe as costas e procurar no serpenteado do rio onde desaguam as suas águas,
até perder seus olhos num destino nenhum.

Porque o rio desagua no mar
E o mar desce à Terra
E da Terra volta a brotar como rio novamente.

Porque o rio desagua no mar
E o mar sobe às nuvens
e desce em chuva que regressará à nascente outra vez.

E é na consciência da ciclicidade de todas as coisas que nasce o desânimo
Porque o princípio e o fim como limites da existência magoam
mas saber que tudo é eterno dói ainda mais fundo
no âmago da nossa incompreensão

Seremos sempre rio, mar, terra, nascente
vapor, nuvem, água, nascente outra vez
Como tudo e como todos nesta Terra
aprisionado nesse ciclo natural de tudo o que existe

E só talvez quando a Terra deixar de ser Terra
e o homem deixar de ser homem
e sobrar apenas a consciência de existir
poderemos deixar de fluir.
E então, finalmente e livremente... ser!

Magnólia


Magnólia branca
de aroma suave
que segredos escondes nas tuas raízes?
que seiva alimenta o teu caule?
que sonho transforma em seda as tuas pétalas?
Tu, que resististe à passagem do tempo e das civilizações
Que viste a Terra quebrar-se e o mar a engoli-la vezes sem conta
Que viste fogos, vulcões e sol ardente
Chuvas intensas, ventos e furacões
Homens.
Os homens e as suas guerras.
Os homens e as suas chacinas.
Homens em permanente mutação
de ideias, de visões, de construções de nadas que pareciam tudo
e de tudos que simplesmente reduziram a nada
E tu ficaste.
Resististe.
Foste nascendo e morrendo e nascendo e morrendo serenamente
Aceitando tudo o que vinha do céu e tudo o que vinha da Terra
Embalando os Homens que perfumavas
Sorrindo aos Homens que adornavas.
Sem medo de nascer e morrer e nascer e morrer as vezes que fossem necessárias
Imutável, pura, incorruptível
num desabrochar diário sem angústias
Só porque sim
Só porque, bom ou mau, será sempre como terá de ser
e vale sempre a pena...