Da alquimia de viver
Costumo dizer que a vida é como um copo medidor. Um copo que permite misturar várias tarefas, várias aventuras, vários relacionamentos, mas que tem uma capacidade limitada. O dia só tem 24 horas. O nosso corpo precisa de descansar. Não é assim possível encher o nosso copo de felicidade se não o esvaziarmos daquilo que temos a mais, dentro dele. O que é que nos faz perder tempo? O que é que nos rouba energia? Que relacionamentos já não fazem sentido? Por vezes é exatamente o excesso que não nos deixa ver o que nos falta...
Se já nos libertámos de tudo o que não fazia sentido, mas ainda assim não conseguimos conter tudo aquilo que nos dá prazer, a solução passa por criar novas combinações, que permitam misturar os diferentes "líquidos" em doses mais pequenas. Talvez um hobby se possa transformar em trabalho. Talvez no trabalho possamos envolver aqueles com quem queremos estar. Ou talvez aqueles com quem gostamos de estar também gostem do nosso hobby e possamos praticá-lo juntos.
A vida é um exercício de forças e combinações. Física e Química. Às vezes quântica, porque acima e abaixo de tudo o que vemos existe a incerteza de tudo aquilo que ainda não compreendemos. Mas uma certeza temos: a alquimia acontece quando mexemos na matéria. Quando fundimos, separamos, transformamos. Fazer o que sempre fizemos da forma que fizemos nunca transformará vida alguma em ouro...
Na estrada da Vida
Hoje deparei-me com este sinal de trânsito e dei comigo a pensar que a vida, ela própria, deveria ter as suas regras de circulação:
1. Circular (crescer, aprender, evoluir), sempre, porque a vida é movimento.
2. Respeitar os limites máximos e os mínimos de velocidade (que o corpo nos impõe).
3. Estar atento aos sinais, de todas as formas e feitios (e aos sinais dos outros também).
4. Dar prioridade a quem a merece (ainda que alguns não respeitem as regras).
5. Avançar quando chegar a nossa vez (porque a nossa vez, mais cedo ou mais tarde, chega sempre).
6. Sair na saída que queremos (caso contrário andaremos às voltas) e fazer sinal para não apanhar nenhum daqueles que circula connosco de surpresa.
7. Circular, sempre, mas sem nunca esquecer que no centro de tudo está o Amor <3
De Pessoa para Pessoa
Pessoa assoma-me quando menos espero.
Gozando-me, sempre que em mim há certezas.
São poucas as vezes em que me permito tê-las, mas se uma me vislumbra, aquela que soa como a mais incompreensivelmente verdadeira, Pessoa espreita-me. Ri-se de mim. Diz-me que nada é nada, e que isso é muito mais verdade do que tudo é tudo.
- Preciso entender.
- Entender não é para os vivos - responde-me.
- E o que é para os vivos? A mentira?
- Tudo menos a verdade verdadeira. Aquela que roubaria o sentido ao teu mundo, porque o teu mundo é necessariamente de mentira, ou não seria mundo.
Digo-lhe que fui longe demais. Que não posso esquecer o vi. Esquecer o que senti. E ele cita-me Caeiro. Ah, Caeiro! Se eu soubesse resignar-me ao mundo que é mundo, o de aqui e o de agora, o do tempo e da distância, sem me fugir a alma para onde não deve... sem me escapar o espírito para onde não pode ir.
- Talvez precises do absurdo para escrever - sussurra-me irónico.
- Eu não quero escrever! Quero viver...
- E o que é a tua vida sem a escrita? O que és tu sem as palavras? Resigna-te. Serás sempre uma sombra de infelicidade num rosto feliz.
- E se eu não quiser?
Coloca-se em posição de Íbis e faz-me rir. Tonto! Tonto Pessoa! Não o quero comigo e todos os dias me enleio nele, entendendo o que não quero entender. Ou quero mas não devo. Ou devo mas não consigo. Mordisco a maçã da árvore da verdade, aquela que Deus proibiu para que os homens nunca deixassem de ser homens, e sofro agora o castigo divino, o de ir além do permitido.
Mas o que é uma dentada de maçã, sem a maçã inteira?
Sou expulsa do paraíso mas ausente também da realidade que agora não me chega.
- Não tens outro remédio. Escreve...
Gozando-me, sempre que em mim há certezas.
São poucas as vezes em que me permito tê-las, mas se uma me vislumbra, aquela que soa como a mais incompreensivelmente verdadeira, Pessoa espreita-me. Ri-se de mim. Diz-me que nada é nada, e que isso é muito mais verdade do que tudo é tudo.
- Preciso entender.
- Entender não é para os vivos - responde-me.
- E o que é para os vivos? A mentira?
- Tudo menos a verdade verdadeira. Aquela que roubaria o sentido ao teu mundo, porque o teu mundo é necessariamente de mentira, ou não seria mundo.
Digo-lhe que fui longe demais. Que não posso esquecer o vi. Esquecer o que senti. E ele cita-me Caeiro. Ah, Caeiro! Se eu soubesse resignar-me ao mundo que é mundo, o de aqui e o de agora, o do tempo e da distância, sem me fugir a alma para onde não deve... sem me escapar o espírito para onde não pode ir.
- Talvez precises do absurdo para escrever - sussurra-me irónico.
- Eu não quero escrever! Quero viver...
- E o que é a tua vida sem a escrita? O que és tu sem as palavras? Resigna-te. Serás sempre uma sombra de infelicidade num rosto feliz.
- E se eu não quiser?
Coloca-se em posição de Íbis e faz-me rir. Tonto! Tonto Pessoa! Não o quero comigo e todos os dias me enleio nele, entendendo o que não quero entender. Ou quero mas não devo. Ou devo mas não consigo. Mordisco a maçã da árvore da verdade, aquela que Deus proibiu para que os homens nunca deixassem de ser homens, e sofro agora o castigo divino, o de ir além do permitido.
Mas o que é uma dentada de maçã, sem a maçã inteira?
Sou expulsa do paraíso mas ausente também da realidade que agora não me chega.
- Não tens outro remédio. Escreve...
Vida pouca
Quando me olho,
no fundo do fundo dos meu olhar,
encontro-me outro, outros, todos
nenhum.
Personagens visitam-me, preenchem-me, trespassam-me
esvaziam-me.
Corpos vibram-me, gritam, brilham
apagam-me.
Ser tanto é ser pouco.
Ser tudo é ser nada.
Mas no pouco ou nada que resta
agradeço a vida que me foi dada.
no fundo do fundo dos meu olhar,
encontro-me outro, outros, todos
nenhum.
Personagens visitam-me, preenchem-me, trespassam-me
esvaziam-me.
Corpos vibram-me, gritam, brilham
apagam-me.
Ser tanto é ser pouco.
Ser tudo é ser nada.
Mas no pouco ou nada que resta
agradeço a vida que me foi dada.
Mudar o mundo, salvar o planeta
Têm-me perguntado com frequência porque penso e escrevo tanto, nos últimos tempos, sobre ecologia. Hoje encontrei a resposta, mesmo não tendo sido escrita por mim. Em profunda sintonia, cito hoje Richard Mathieu:
"Tenho pensado muito sobre os grandes desafios globais que enfrentamos e não tenho dúvidas de que a prioridade terá de ser a proteção do nosso planeta. (...) Há inúmeros problemas económicos, grandes desigualdades sociais, mas sem invertermos o rumo no que diz respeito à poluição e à gestão dos nossos recursos naturais, todas estas questões se agravarão ainda mais. Hoje já existem milhões de refugiados devido às alterações climáticas e demasiadas guerras a serem travadas por causa do petróleo, do gás ou da água. Se não fizermos nada agora, que planeta restará para as gerações futuras?"
(Richard Mathieu, monge budista, em entrevista à Visão)
"Tenho pensado muito sobre os grandes desafios globais que enfrentamos e não tenho dúvidas de que a prioridade terá de ser a proteção do nosso planeta. (...) Há inúmeros problemas económicos, grandes desigualdades sociais, mas sem invertermos o rumo no que diz respeito à poluição e à gestão dos nossos recursos naturais, todas estas questões se agravarão ainda mais. Hoje já existem milhões de refugiados devido às alterações climáticas e demasiadas guerras a serem travadas por causa do petróleo, do gás ou da água. Se não fizermos nada agora, que planeta restará para as gerações futuras?"
(Richard Mathieu, monge budista, em entrevista à Visão)
Da existência maior
Hoje maravilho-me com o mundo. Sorrio à existência.
À minha volta, impera a destruição, a guerra, a fome e a injustiça. Mas em mim guardo a semente de mudança, aquela que nasce em todos nós, em qualquer tempo ou lugar. A semente que deu universos ao universo, que transforma o nada em tudo e a morte em vida. A semente que se rompe a si mesma para se expandir, para chegar onde tem de chegar, para transformar o que tem de ser transformado.
Da mais ínfima partícula ao maior aglomerado de matéria, tudo em si contém essa semente, às vezes adormecida, às vezes enfraquecida. Mas sempre à espera que algo a desperte e fortaleça, para que ela cumpra o que tem de ser feito. Para que ela expluda e acorde e fortaleça todas as sementes que puder, num Big Bang que transforme toda a História da nossa existência.
Quantas vezes já reescrevemos a nossa História? Em milénios de dia-a-dias de pequenos e grandes gestos, quantas vezes já nos entrelaçámos para algo comum, em direção a algo que nos chama, a uma profecia por cumprir?
Talvez tudo o que vivamos já esteja inscrito no tempo e no espaço. Talvez a matriz já exista e tudo seja como terá de ser. Mas como não maravilhar-me com a possibilidade de fazer parte do que terá de existir? Como não explodir de alegria quando em mim explode a semente que me permite entender que faço parte de algo maior do que a minha própria existência?
Abro os braços à vida e deixo-me ir. Procurando cumprir o papel que me cabe. Ajudando quem puder a descobrir o seu. Confiando na vida e na imensa sabedoria do universo, que nos convoca a sermos quem somos, em cada sopro de vida.
À minha volta, impera a destruição, a guerra, a fome e a injustiça. Mas em mim guardo a semente de mudança, aquela que nasce em todos nós, em qualquer tempo ou lugar. A semente que deu universos ao universo, que transforma o nada em tudo e a morte em vida. A semente que se rompe a si mesma para se expandir, para chegar onde tem de chegar, para transformar o que tem de ser transformado.
Da mais ínfima partícula ao maior aglomerado de matéria, tudo em si contém essa semente, às vezes adormecida, às vezes enfraquecida. Mas sempre à espera que algo a desperte e fortaleça, para que ela cumpra o que tem de ser feito. Para que ela expluda e acorde e fortaleça todas as sementes que puder, num Big Bang que transforme toda a História da nossa existência.
Quantas vezes já reescrevemos a nossa História? Em milénios de dia-a-dias de pequenos e grandes gestos, quantas vezes já nos entrelaçámos para algo comum, em direção a algo que nos chama, a uma profecia por cumprir?
Talvez tudo o que vivamos já esteja inscrito no tempo e no espaço. Talvez a matriz já exista e tudo seja como terá de ser. Mas como não maravilhar-me com a possibilidade de fazer parte do que terá de existir? Como não explodir de alegria quando em mim explode a semente que me permite entender que faço parte de algo maior do que a minha própria existência?
Abro os braços à vida e deixo-me ir. Procurando cumprir o papel que me cabe. Ajudando quem puder a descobrir o seu. Confiando na vida e na imensa sabedoria do universo, que nos convoca a sermos quem somos, em cada sopro de vida.
Tamera, um exemplo de criatividade ativa
Tamera, ecoaldeia auto-sustentável, onde se pesquisa e debate de que forma será possível viver em paz e em comunhão com a natureza, nasceu há 20 anos no Alentejo.
É este o tema de capa da nova edição da revista Mais Alentejo, e também o foco da minha crónica "Alentejo mais criativo". Porque "a crença na mudança, por si só, vive no domínio do sonho. Para que ela se transforme em benefício, é preciso arriscar, é preciso agir."
É este o tema de capa da nova edição da revista Mais Alentejo, e também o foco da minha crónica "Alentejo mais criativo". Porque "a crença na mudança, por si só, vive no domínio do sonho. Para que ela se transforme em benefício, é preciso arriscar, é preciso agir."
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