04/06/14

Do questionamento

A minha secretária encheu-se de livros estranhos. De palavras inquietantes de Homens que quiseram questionar o mundo e as verdades instaladas. De cientistas a filósofos, poetas ou simples e extraordinários pensadores do caminho, todos colocaram, à sua forma, o dedo na ferida. E disseram, à sua forma também, que não há "cura" sem questionamento. É ele que abre a fenda de onde poderá jorrar a nossa grande e profunda verdade interior.

03/06/14

A História da Humanidade

Era uma vez um grupo de Homens que vivia rodeado por um muro alto. Geração após geração, era circunscritos àquele espaço que os Homens cresciam, davam vida e morriam, sem nunca se questionarem porque existiria ali um muro, muito menos o que haveria do outro lado.
Até que os Homens se multiplicaram, o espaço começou a escassear, o alimento a faltar, e os Homens começaram a lutar entre si pela própria sobrevivência.

- Vamos deitar o muro abaixo.

Todos olharam com descrença para o Homem que falava. Nunca ninguém tinha pensado derrubar um muro que sempre ali tinha existido, mas a NECESSIDADE obrigava a que se pensasse numa SOLUÇÃO.

Chamaram então o homem mais forte da comunidade para que ele deitasse o muro abaixo. Mas, por mais que ele se esforçasse, o muro não cedia.

- Só conseguimos deitar o muro abaixo se nos unirmos.

UNIDOS, os homens empurraram o muro e conseguiram que ele cedesse. Era todo um mundo novo que se desvendava do lado de fora do seu muro. Mas era todo um mundo novo limitado agora por escarpa alta e aparentemente impossível de transpor.
A princípio, essa escarpa não interferia no dia-a-dia de quem desfrutava do espaço que conquistara. Mas os Homens voltaram a multiplicar-se e a porção de Terra voltou a não chegar para as suas necessidades.

- Vamos deitar a montanha abaixo!

Unidos, os Homens começaram a empurrar a escarpa, como haviam feito as gerações anteriores com o muro que os cercara, mas a escarpa não cedia. Todos os Homens foram mobilizados para a tarefa, mas a montanha permanecia imóvel. Até que um dos Homens, CANSADO de um esforço sem resultados, resolveu afastar-se e começar a pensar.

- E se, em vez de deitarmos a montanha abaixo, a treparmos?

Chamaram-no de louco. Disseram-lhe que deveria pensar menos e trabalhar mais, mas o Homem não desistiu e começou a tentar trepar a escarpa sozinho. Sem sucesso. Aplicou todos os seus esforços na tarefa, mas sem resultados. Pensou desistir, mas alguns Homens que o observaram, também cansados de empurrarem a escarpa sem resultados, resolveram oferecer-lhe ajuda.

- E se construíssemos uma escada?

Eram poucos, mas a escada foi ganhando forma. E outros Homens se foram juntando aos primeiros, começando a perceber que a ideia louca podia, afinal, ser até uma boa solução. E foi assim que, quando a escada ficou pronta e os primeiros homens começaram a galgar a escarpa e a perceber que no topo existia um planato frondoso, todos aqueles que os haviam chamado de loucos deixaram também de empurrar a montanha e subiram as escadas da escarpa. A montanha que antes fora intransponível, era agora um mero obstáculo no caminho.

Mas o topo da montanha, mais cedo ou mais tarde, haverá de ser pouco para uma Humanidade com tantas necessidades. Para lá do frondoso planalto, não existe agora um muro nem uma escarpa. Mas existe um abismo. Um fosso grande que não poderá ser deitado abaixo nem poderá ser trepado, mas que os Homens vão querer transpor quando surgir a NECESSIDADE (PRECISAMOS) e/ou o CANSAÇO (NÃO CONSEGUIMOS MAIS). E quando, deles, surgir o QUESTIONAMENTO (TALVEZ NÃO TENHA DE SER ASSIM) e consequentemente a IDEIA (VAMOS FAZER DIFERENTE). Haverá DESCRENÇA e JULGAMENTO. Mas enquanto houver UNIÃO, os obstáculos serão transpostos e conduzirão sempre a um lugar melhor.

- Vamos saltar o abismo?
- Talvez possamos aprender a voar...


É esta a História da Humanidade, de obstáculo em obstáculo.

1º DA NECESSIDADE E/OU CANSAÇO nasce a IDEIA
2º A IDEIA gera DESCRENÇA
3º Quando surge UNIÃO encontra-se a SOLUÇÃO

São muitos os obstáculos que hoje nos são colocados, e tendemos a ficar-nos pelo cansaço. Pelo sofrimento perante a necessidade. Mas é quando pararmos para nos questionarmos e perguntarmos a nós mesmos o que poderemos fazer de diferente para modificar aquilo que já não nos serve, que a ideia surgirá. Não importa se formos julgados. Importa que, das ideias que tivermos, nasça uma solução, e que ela, mais cedo ou mais tarde, seja aplicada com espírito de união.

02/06/14

Na força das marés

Na espuma da praia leio o dia-a-dia turbulento que nos agita no vaivém das marés.
Por forças da Terra ou forças do universo, a água recua e avança sobre nós, levando de nós o que já não nos serve. Ergue-se uma e outra e outra vez, não porque se enfurece, apenas porque temos muito que levar. Temos rochas pesadas agarradas à areia que, à falta de força para serem removidas, precisam de ser limadas por força da erosão, fragmento a fragmento, até serem transportáveis.

A água vem para nos limpar. Para nos sarar as feridas. Podemos partir e voltar por entre marés mais violentas. Não importa. Importa a purificação que se faz daquilo que em nós sempre sobrevive.

Música e transformação

A música é desde sempre companheira do homem. Aprendemos a escutá-la na natureza e a reproduzi-la à nossa imagem, adicionando-lhe palavras, sentimento, dinâmica, vida das mais variadas formas, espelho da nossa evolução e cultura.
Para Pitágoras, a música era um símbolo de harmonia do cosmos, e para nós, homens, um meio de alcançar o equilíbrio interno. A ciência parece hoje confirmar que a música interfere connosco de múltiplas formas. Pode condicionar-nos ou pode ser transformadora, se escolhermos aquela que nos toca de forma especial.
Escolher a banda sonora para o nosso dia-a-dia não é assim uma perca de tempo. Pode ser até quanto baste para reescrever de forma mais positiva um importante capítulo da nossa história...

01/06/14

Ser criança

Sempre que vejo uma criança brincar, pergunto-me se o verdadeiro desafio é ajudá-la a adaptar-se a este mundo ou, pelo contrário, transformar este mundo de forma a que consigamos viver nele como crianças...
Hoje sabemos que um dos segredos da felicidade é recuperar aquilo que, na infância, fazia de nós crianças felizes: a forma inocente de olhar o mundo, a capacidade de ver o lado bom das coisas, de se relacionar sem preconceitos, de viver o presente, de fugir da realidade, de criar sem limites... Contrariar na infância aquilo que um dia mais tarde pode ser a nossa bóia de salvação, é um contrassenso, um desperdício de tempo e energia.
Crescer não deveria ser deixar de ser criança. Crescer deveria ser potenciar todas as ferramentas inatas com que nascemos, adicionando-lhes responsabilidade, inteligência relacional, uma visão macro do mundo e, complementarmente (nunca exclusivamente) conhecimento sobre aquilo que nos rodeia, para que possamos perceber em que área queremos intervir e com que propósito, para o bem-comum.
Um Feliz Dia da Criança para todas as Crianças, dos 0 aos 120!

30/05/14

I AM

Há dias que me abraçam e me devolvem ao que sou.

Cada gesto importa

Em 2003 conheci em Taizé um jovem da Bósnia, marcado pelos violentos confrontos que afetavam a sua comunidade. Ouvi os seus relatos impressionantes, tão longe de compreender como podiam eles ser reais, no mesmo mundo que a mim me fazia tão feliz. E ele disse-me:
- Sabes, Sara, tu só consegues sorrir assim porque não sabes o que é a guerra.

Nesse momento o meu sorriso desfez-se e senti que não tinha mais o direito de sorrir como sorria, perante o sofrimento daqueles que me cercavam.

- Não, Sara. Não te digo isto para parares de sorrir. Não pares, por favor... Enquanto sorris, ajudas-me a esquecer...

Tantas vezes nos sentimos impotentes perante aquilo que não conseguimos mudar. Mas cada gesto nosso, cada abraço que damos e cada sorriso que soltamos, pode ser quanto baste para que o mundo se torne num lugar melhor...