12/06/14

Da Vida dos Gatos



Nas minhas pernas moram gatos
que se lavam das travessuras
e adormecem sem agruras
São como gente sem ser gente
Talvez por isso melhores que muita gente
E quando aparecem sem avisar
parecem saber sempre do nosso precisar

Enroscam-se em busca de calor
Mas um gato só habita onde houver amor
Senão vai à vida, buscar outra casa
Outras pernas, outro cobertor,
Nessa liberdade que é a vida
Há sempre outro alguém a quem pedir comida

Pudesse a vida adormecer-me como um gato tranquilo
Esquecendo o tempo, esquecendo o destino
E as palavras enlevarem-me nos seus bigodes
Fechando-me os olhinhos inocentes
Dorme, bichaninho, até que o sol regresse
A vida é esse instante que hoje e sempre nos acontece.
10/06/14

A criação do mundo

Inversão do relato da criação por Jorg Zink

“ No princípio, Deus criou o céu e a terra.
Depois de muitos milhões de anos, o homem criou
Coragem e resolveu assumir o comando do mundo e do futuro. Então, começaram os sete últimos dias da história...
Na manhã do primeiro dia,
O homem resolveu não ser mais a imagem de um Deus, Mas ser simplesmente homem.
E, como devia acreditar em alguma coisa,
Acreditou em liberdade e felicidade,
Em bolsa de valores e progresso,
Em planeamento e desenvolvimento
E especialmente em segurança.
Sim, a segurança era a base.
Disparou satélites perscrutadores
E preparou foguetes carregados de bombas atómicas. E foi a tarde e a manhã do primeiro dia.
No segundo dia dos últimos tempos, Morreram os peixes dos rios Poluídos pelos dejectos industriais; E morreram os peixes do mar
Pelo vazamento dos grandes petroleiros
E pelo depósito do fundo dos oceanos;
Os depósitos eram radioactivos,
Morreram os pássaros do céu
Impregnados de gases venenosos-inversão térmica. Morreram os animais que atravessavam incautos As grandes auto-estradas,
Envenenados pelas descargas plúmbeas
Do trânsito infernal.
Mas morreram também os cachorrinhos de estimação Pelo excesso de tinta que avermelhava as línguas. Foi a tarde e a manhã do segundo dia.
No terceiro dia,
Secou a erva dos campos,
A folhagem das árvores
O musgo nos rochedos
E as flores nos jardins.
Porque o homem resolveu controlar as estações Segundo um plano bem exacto;
Só que houve um pequeno erro
No computador da chuva,
E até que descobrissem o defeito,
Secaram-se os mananciais
E os barcos que singravam os rios festivos Encalharam nos leitos ressequidos.
E foi a tarde e a manhã do terceiro dia.
No quarto dia,
Morreram quatro dos cinco biliões de homens;
Uns contaminados por vírus cultivados em provetas eruditas, Outros por esquecimento imperdoável
De fechar os depósitos bacteriológicos,
Preparados para a guerra seguinte;
Outros ainda morreram de fome
Porque alguém não se lembrava mais
Onde escondera a chave dos depósitos de cereal;
E amaldiçoaram a Deus:
se Ele era bom porque permitia tantos males?
E foi a tarde e a manhã do quarto dia.
No quinto dia,
Os últimos homens resolveram accionar o botão vermelho,
Porque se sentiam ameaçados.
O fogo envolveu o planeta,
As montanhas fumegaram, os mares evaporaram.
Nas cidades, os esqueletos de cimento armado
Ficaram negros, lançando fumo das órbitas abertas.
E os anjos do céu assistiram espantados
Como o planeta azul se tornou da cor do fogo,
Depois cobriu-se de um castanho sujo e finalmente ficou cor de cinza Eles interromperam os seus cantos durante alguns dez minutos,
E foi a tarde e a manhã do quinto dia.
No sexto dia,
Apagou-se a luz,
Poeira e cinza encobriam o sol a lua e as estrelas. E a última barata que tinha escapado
Num abrigo anti-atómico
Morreu por excesso de calor.
E foi a tarde e a manhã do sexto dia.
No sétimo dia,
Havia sossego, até que enfim!
A terra estava informa e vazia,
As trevas cobriam o abismo
E o espírito do homem pairava sobre o caos.
Mas no fundo do inferno
Comentava-se a história fascinante
Do homem que assumira os comandos do mundo, E gargalhadas estrondosas
Ecoaram até aos coros dos anjos.
Meus senhores, nada impede que o homem vá até
Ao fim das suas possibilidades; mas resta ainda uma esperança, Que o mundo e com ele, o homem e o seu futuro,
Estejam nas mãos de um Outro.....”

In Do eu solitário ao nós solidário, Verso da Kapa, 2011.
09/06/14

Os versos de Ouro de Pitágoras

Os versos de ouro de Pitágoras

(por Lysis, discípulo de Pitágoras)

PREPARAÇÃO

Aos Deuses Imortais, sagrado culto rende.
Resguarda o coração. Tua convicção defende.
Aos Sábios e aos Heróis, presta fervoroso preito.

PURIFICAÇÃO

Sê bom filho e bom pai, justo irmão, terno esposo.
Elege amigo teu o que, em virtude, prima;
Vive como ele vive e dele te aproxima.
Os conselhos lhe escutai; e, se te aconselhando
O teu amigo for um dia menos brando,
Perdão! Que sobre fiel vontade – Ó lei severa! -
A fortuna fatal às vezes prepondera.

Dominar as paixões é dom que te pertence:
Tuas loucas paixões subjuga e doma e vence.
Sê casto, sóbrio e ativo. A cólera, o semblante
Nunca te ensombre, nunca o mal te seja aceito.
Em público ou sozinho, e como a um semelhante,
A ti mesmo, tributa o devido respeito.

Na palavra e na ação, sê justo e sê prudente.
Vive, — mas, não te saia a morte da lembrança;
Nem te esqueça, jamais, de que o homem, facilmente,
Perde as honras e os bens que, facilmente, alcança.
Se os males que o destino acarreta, à porfia,
Nem podes mitigar, — Não blasfeme o teu lábio;
Suporta-os, com prudência, e nos Deuses confia,
Que aos Deuses praz valer do que a usa, como Sábio.

Adeptos, o erro os tem, como a verdade bela:
O sábio adverte, austero, ou aconselha, amigo;
Mas, se o erro vil domina, — ele recua e vela.
Grava, no imo do peito, as palavras que eu digo:

Não tenhas prevenção alguma: todavia,
Os atos, de outrem, pesa e a ti mesmo te guia;
Pois que, nem todos são exemplos e ensinamento.
Só do insensato é agir sem fim, razão nem tento.
Contempla, no presente, o futuro e o passado.
Faze, apenas, aquilo em que fores versado.
Instrui-te com vagar, aprende com paciência:
Do tempo e da constância é que vem a sapiência.

Poupa a saúde, que ela é um tesouro precioso:
Ao teu corpo, alimento; à tua alma, repouso.
Usa moderação, porque, inda mais nocivo
Do que a falta — resulta, às vezes, o excessivo.
Não pratiques o luxo e a avareza, também,
Pois só no meio termo é que consiste o Bem.

PERFEIÇÃO

Assim que o sol te acorde e calmo te levantes,
Julga tuas ações, como severo juiz;
E ao sono não te dês, sem perguntares, antes:
— Hoje, em que pensei eu? E que foi que hoje fiz?

Fizeste o bem? — Persiste! O mal fizeste? — Abstem-te.
Ama o conselho meu; medita o que ele ensina.
Si o amares — Eu te juro — e o seguires, fielmente,
Poderás atingir a Virtude Divina.

Eu te juro por quem o augusto emblema grava
A Tetractys, tétrade sagrada – em nosso coração.
Mas, primeiro é mister do seu dever escravo,
Dos deuses a alma invoque, ardendo em devoção.

Sob o influxo divino, as obras que empreenderes
Terminarás em paz, fugindo ao engano rude.
E perscrutando a essência aos diferentes seres,
Tu, o princípio e o fim conhecerás, de tudo.
Verás que a Natureza — o Céu há de mostrar-te —
É, em tudo, semelhante e a mesma em toda a parte.

Conhecendo-te a ti, senhor do teu direito,
Vibrará, sem paixões, teu coração, no peito.
Homem! Verás que são frutos próprios do homem
A mágoa que o atormenta e os males que o consomem;
Porque a origem do gozo, a fonte da ventura
Que, em si mesmo possui — além de si, procura.
Bem poucos, sabem ser felizes: Compelidos pelos
Desejos maus, joguetes dos sentidos,
Como barcos, em mar sem fim, por entre pélagos [abismos],
Assim os homens vão, desnorteados e cegos.
Deuses! Quisésseis vós valer-lhes de onde estais.

“Discerne por ti mesmo, o bem e o mal. Conforto
E auxílio te dará a natureza exemplar.
Homem sábio e feliz, o entresonhado porto,
Se cumpres minhas leis, um dia hás de alcançar.
Evita o que perturba a mente e o que a alma esmaga,
Aprimora a razão, esmera os valores teus;
E transpondo, enfim, a prefulgente plaga,
Tu, entre os imortais, serás também um Deus”
04/06/14

Do verdadeiro sucesso

Fruto do contexto histórico em que nascemos, muitos de nós cresceram na crença de que a única meta era o sucesso. A realização profissional e a riqueza material. Responsável por muita da competição sem limites e da sede de poder a que assistimos neste mundo, esta crença tem gerado também frustrações, ansiedade, descrença generalizada.
Será mesmo a vida um teste à nossa capacidade de sucesso?
Precisará mesmo o mundo de tantas pessoas bem-sucedidas?
E se o verdadeiro sucesso não fosse nada daquilo que nos disseram que seria?

Do questionamento

A minha secretária encheu-se de livros estranhos. De palavras inquietantes de Homens que quiseram questionar o mundo e as verdades instaladas. De cientistas a filósofos, poetas ou simples e extraordinários pensadores do caminho, todos colocaram, à sua forma, o dedo na ferida. E disseram, à sua forma também, que não há "cura" sem questionamento. É ele que abre a fenda de onde poderá jorrar a nossa grande e profunda verdade interior.

03/06/14

A História da Humanidade

Era uma vez um grupo de Homens que vivia rodeado por um muro alto. Geração após geração, era circunscritos àquele espaço que os Homens cresciam, davam vida e morriam, sem nunca se questionarem porque existiria ali um muro, muito menos o que haveria do outro lado.
Até que os Homens se multiplicaram, o espaço começou a escassear, o alimento a faltar, e os Homens começaram a lutar entre si pela própria sobrevivência.

- Vamos deitar o muro abaixo.

Todos olharam com descrença para o Homem que falava. Nunca ninguém tinha pensado derrubar um muro que sempre ali tinha existido, mas a NECESSIDADE obrigava a que se pensasse numa SOLUÇÃO.

Chamaram então o homem mais forte da comunidade para que ele deitasse o muro abaixo. Mas, por mais que ele se esforçasse, o muro não cedia.

- Só conseguimos deitar o muro abaixo se nos unirmos.

UNIDOS, os homens empurraram o muro e conseguiram que ele cedesse. Era todo um mundo novo que se desvendava do lado de fora do seu muro. Mas era todo um mundo novo limitado agora por escarpa alta e aparentemente impossível de transpor.
A princípio, essa escarpa não interferia no dia-a-dia de quem desfrutava do espaço que conquistara. Mas os Homens voltaram a multiplicar-se e a porção de Terra voltou a não chegar para as suas necessidades.

- Vamos deitar a montanha abaixo!

Unidos, os Homens começaram a empurrar a escarpa, como haviam feito as gerações anteriores com o muro que os cercara, mas a escarpa não cedia. Todos os Homens foram mobilizados para a tarefa, mas a montanha permanecia imóvel. Até que um dos Homens, CANSADO de um esforço sem resultados, resolveu afastar-se e começar a pensar.

- E se, em vez de deitarmos a montanha abaixo, a treparmos?

Chamaram-no de louco. Disseram-lhe que deveria pensar menos e trabalhar mais, mas o Homem não desistiu e começou a tentar trepar a escarpa sozinho. Sem sucesso. Aplicou todos os seus esforços na tarefa, mas sem resultados. Pensou desistir, mas alguns Homens que o observaram, também cansados de empurrarem a escarpa sem resultados, resolveram oferecer-lhe ajuda.

- E se construíssemos uma escada?

Eram poucos, mas a escada foi ganhando forma. E outros Homens se foram juntando aos primeiros, começando a perceber que a ideia louca podia, afinal, ser até uma boa solução. E foi assim que, quando a escada ficou pronta e os primeiros homens começaram a galgar a escarpa e a perceber que no topo existia um planato frondoso, todos aqueles que os haviam chamado de loucos deixaram também de empurrar a montanha e subiram as escadas da escarpa. A montanha que antes fora intransponível, era agora um mero obstáculo no caminho.

Mas o topo da montanha, mais cedo ou mais tarde, haverá de ser pouco para uma Humanidade com tantas necessidades. Para lá do frondoso planalto, não existe agora um muro nem uma escarpa. Mas existe um abismo. Um fosso grande que não poderá ser deitado abaixo nem poderá ser trepado, mas que os Homens vão querer transpor quando surgir a NECESSIDADE (PRECISAMOS) e/ou o CANSAÇO (NÃO CONSEGUIMOS MAIS). E quando, deles, surgir o QUESTIONAMENTO (TALVEZ NÃO TENHA DE SER ASSIM) e consequentemente a IDEIA (VAMOS FAZER DIFERENTE). Haverá DESCRENÇA e JULGAMENTO. Mas enquanto houver UNIÃO, os obstáculos serão transpostos e conduzirão sempre a um lugar melhor.

- Vamos saltar o abismo?
- Talvez possamos aprender a voar...


É esta a História da Humanidade, de obstáculo em obstáculo.

1º DA NECESSIDADE E/OU CANSAÇO nasce a IDEIA
2º A IDEIA gera DESCRENÇA
3º Quando surge UNIÃO encontra-se a SOLUÇÃO

São muitos os obstáculos que hoje nos são colocados, e tendemos a ficar-nos pelo cansaço. Pelo sofrimento perante a necessidade. Mas é quando pararmos para nos questionarmos e perguntarmos a nós mesmos o que poderemos fazer de diferente para modificar aquilo que já não nos serve, que a ideia surgirá. Não importa se formos julgados. Importa que, das ideias que tivermos, nasça uma solução, e que ela, mais cedo ou mais tarde, seja aplicada com espírito de união.

02/06/14

Na força das marés

Na espuma da praia leio o dia-a-dia turbulento que nos agita no vaivém das marés.
Por forças da Terra ou forças do universo, a água recua e avança sobre nós, levando de nós o que já não nos serve. Ergue-se uma e outra e outra vez, não porque se enfurece, apenas porque temos muito que levar. Temos rochas pesadas agarradas à areia que, à falta de força para serem removidas, precisam de ser limadas por força da erosão, fragmento a fragmento, até serem transportáveis.

A água vem para nos limpar. Para nos sarar as feridas. Podemos partir e voltar por entre marés mais violentas. Não importa. Importa a purificação que se faz daquilo que em nós sempre sobrevive.