12/06/14

Fernando Pessoa... sempre!

"Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me não desvie isto o meu perigoso feitio demasiado unilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si."

Fernando Pessoa

Da Vida dos Gatos



Nas minhas pernas moram gatos
que se lavam das travessuras
e adormecem sem agruras
São como gente sem ser gente
Talvez por isso melhores que muita gente
E quando aparecem sem avisar
parecem saber sempre do nosso precisar

Enroscam-se em busca de calor
Mas um gato só habita onde houver amor
Senão vai à vida, buscar outra casa
Outras pernas, outro cobertor,
Nessa liberdade que é a vida
Há sempre outro alguém a quem pedir comida

Pudesse a vida adormecer-me como um gato tranquilo
Esquecendo o tempo, esquecendo o destino
E as palavras enlevarem-me nos seus bigodes
Fechando-me os olhinhos inocentes
Dorme, bichaninho, até que o sol regresse
A vida é esse instante que hoje e sempre nos acontece.
10/06/14

A criação do mundo

Inversão do relato da criação por Jorg Zink

“ No princípio, Deus criou o céu e a terra.
Depois de muitos milhões de anos, o homem criou
Coragem e resolveu assumir o comando do mundo e do futuro. Então, começaram os sete últimos dias da história...
Na manhã do primeiro dia,
O homem resolveu não ser mais a imagem de um Deus, Mas ser simplesmente homem.
E, como devia acreditar em alguma coisa,
Acreditou em liberdade e felicidade,
Em bolsa de valores e progresso,
Em planeamento e desenvolvimento
E especialmente em segurança.
Sim, a segurança era a base.
Disparou satélites perscrutadores
E preparou foguetes carregados de bombas atómicas. E foi a tarde e a manhã do primeiro dia.
No segundo dia dos últimos tempos, Morreram os peixes dos rios Poluídos pelos dejectos industriais; E morreram os peixes do mar
Pelo vazamento dos grandes petroleiros
E pelo depósito do fundo dos oceanos;
Os depósitos eram radioactivos,
Morreram os pássaros do céu
Impregnados de gases venenosos-inversão térmica. Morreram os animais que atravessavam incautos As grandes auto-estradas,
Envenenados pelas descargas plúmbeas
Do trânsito infernal.
Mas morreram também os cachorrinhos de estimação Pelo excesso de tinta que avermelhava as línguas. Foi a tarde e a manhã do segundo dia.
No terceiro dia,
Secou a erva dos campos,
A folhagem das árvores
O musgo nos rochedos
E as flores nos jardins.
Porque o homem resolveu controlar as estações Segundo um plano bem exacto;
Só que houve um pequeno erro
No computador da chuva,
E até que descobrissem o defeito,
Secaram-se os mananciais
E os barcos que singravam os rios festivos Encalharam nos leitos ressequidos.
E foi a tarde e a manhã do terceiro dia.
No quarto dia,
Morreram quatro dos cinco biliões de homens;
Uns contaminados por vírus cultivados em provetas eruditas, Outros por esquecimento imperdoável
De fechar os depósitos bacteriológicos,
Preparados para a guerra seguinte;
Outros ainda morreram de fome
Porque alguém não se lembrava mais
Onde escondera a chave dos depósitos de cereal;
E amaldiçoaram a Deus:
se Ele era bom porque permitia tantos males?
E foi a tarde e a manhã do quarto dia.
No quinto dia,
Os últimos homens resolveram accionar o botão vermelho,
Porque se sentiam ameaçados.
O fogo envolveu o planeta,
As montanhas fumegaram, os mares evaporaram.
Nas cidades, os esqueletos de cimento armado
Ficaram negros, lançando fumo das órbitas abertas.
E os anjos do céu assistiram espantados
Como o planeta azul se tornou da cor do fogo,
Depois cobriu-se de um castanho sujo e finalmente ficou cor de cinza Eles interromperam os seus cantos durante alguns dez minutos,
E foi a tarde e a manhã do quinto dia.
No sexto dia,
Apagou-se a luz,
Poeira e cinza encobriam o sol a lua e as estrelas. E a última barata que tinha escapado
Num abrigo anti-atómico
Morreu por excesso de calor.
E foi a tarde e a manhã do sexto dia.
No sétimo dia,
Havia sossego, até que enfim!
A terra estava informa e vazia,
As trevas cobriam o abismo
E o espírito do homem pairava sobre o caos.
Mas no fundo do inferno
Comentava-se a história fascinante
Do homem que assumira os comandos do mundo, E gargalhadas estrondosas
Ecoaram até aos coros dos anjos.
Meus senhores, nada impede que o homem vá até
Ao fim das suas possibilidades; mas resta ainda uma esperança, Que o mundo e com ele, o homem e o seu futuro,
Estejam nas mãos de um Outro.....”

In Do eu solitário ao nós solidário, Verso da Kapa, 2011.
09/06/14

Os versos de Ouro de Pitágoras

Os versos de ouro de Pitágoras

(por Lysis, discípulo de Pitágoras)

PREPARAÇÃO

Aos Deuses Imortais, sagrado culto rende.
Resguarda o coração. Tua convicção defende.
Aos Sábios e aos Heróis, presta fervoroso preito.

PURIFICAÇÃO

Sê bom filho e bom pai, justo irmão, terno esposo.
Elege amigo teu o que, em virtude, prima;
Vive como ele vive e dele te aproxima.
Os conselhos lhe escutai; e, se te aconselhando
O teu amigo for um dia menos brando,
Perdão! Que sobre fiel vontade – Ó lei severa! -
A fortuna fatal às vezes prepondera.

Dominar as paixões é dom que te pertence:
Tuas loucas paixões subjuga e doma e vence.
Sê casto, sóbrio e ativo. A cólera, o semblante
Nunca te ensombre, nunca o mal te seja aceito.
Em público ou sozinho, e como a um semelhante,
A ti mesmo, tributa o devido respeito.

Na palavra e na ação, sê justo e sê prudente.
Vive, — mas, não te saia a morte da lembrança;
Nem te esqueça, jamais, de que o homem, facilmente,
Perde as honras e os bens que, facilmente, alcança.
Se os males que o destino acarreta, à porfia,
Nem podes mitigar, — Não blasfeme o teu lábio;
Suporta-os, com prudência, e nos Deuses confia,
Que aos Deuses praz valer do que a usa, como Sábio.

Adeptos, o erro os tem, como a verdade bela:
O sábio adverte, austero, ou aconselha, amigo;
Mas, se o erro vil domina, — ele recua e vela.
Grava, no imo do peito, as palavras que eu digo:

Não tenhas prevenção alguma: todavia,
Os atos, de outrem, pesa e a ti mesmo te guia;
Pois que, nem todos são exemplos e ensinamento.
Só do insensato é agir sem fim, razão nem tento.
Contempla, no presente, o futuro e o passado.
Faze, apenas, aquilo em que fores versado.
Instrui-te com vagar, aprende com paciência:
Do tempo e da constância é que vem a sapiência.

Poupa a saúde, que ela é um tesouro precioso:
Ao teu corpo, alimento; à tua alma, repouso.
Usa moderação, porque, inda mais nocivo
Do que a falta — resulta, às vezes, o excessivo.
Não pratiques o luxo e a avareza, também,
Pois só no meio termo é que consiste o Bem.

PERFEIÇÃO

Assim que o sol te acorde e calmo te levantes,
Julga tuas ações, como severo juiz;
E ao sono não te dês, sem perguntares, antes:
— Hoje, em que pensei eu? E que foi que hoje fiz?

Fizeste o bem? — Persiste! O mal fizeste? — Abstem-te.
Ama o conselho meu; medita o que ele ensina.
Si o amares — Eu te juro — e o seguires, fielmente,
Poderás atingir a Virtude Divina.

Eu te juro por quem o augusto emblema grava
A Tetractys, tétrade sagrada – em nosso coração.
Mas, primeiro é mister do seu dever escravo,
Dos deuses a alma invoque, ardendo em devoção.

Sob o influxo divino, as obras que empreenderes
Terminarás em paz, fugindo ao engano rude.
E perscrutando a essência aos diferentes seres,
Tu, o princípio e o fim conhecerás, de tudo.
Verás que a Natureza — o Céu há de mostrar-te —
É, em tudo, semelhante e a mesma em toda a parte.

Conhecendo-te a ti, senhor do teu direito,
Vibrará, sem paixões, teu coração, no peito.
Homem! Verás que são frutos próprios do homem
A mágoa que o atormenta e os males que o consomem;
Porque a origem do gozo, a fonte da ventura
Que, em si mesmo possui — além de si, procura.
Bem poucos, sabem ser felizes: Compelidos pelos
Desejos maus, joguetes dos sentidos,
Como barcos, em mar sem fim, por entre pélagos [abismos],
Assim os homens vão, desnorteados e cegos.
Deuses! Quisésseis vós valer-lhes de onde estais.

“Discerne por ti mesmo, o bem e o mal. Conforto
E auxílio te dará a natureza exemplar.
Homem sábio e feliz, o entresonhado porto,
Se cumpres minhas leis, um dia hás de alcançar.
Evita o que perturba a mente e o que a alma esmaga,
Aprimora a razão, esmera os valores teus;
E transpondo, enfim, a prefulgente plaga,
Tu, entre os imortais, serás também um Deus”
04/06/14

Do verdadeiro sucesso

Fruto do contexto histórico em que nascemos, muitos de nós cresceram na crença de que a única meta era o sucesso. A realização profissional e a riqueza material. Responsável por muita da competição sem limites e da sede de poder a que assistimos neste mundo, esta crença tem gerado também frustrações, ansiedade, descrença generalizada.
Será mesmo a vida um teste à nossa capacidade de sucesso?
Precisará mesmo o mundo de tantas pessoas bem-sucedidas?
E se o verdadeiro sucesso não fosse nada daquilo que nos disseram que seria?

Do questionamento

A minha secretária encheu-se de livros estranhos. De palavras inquietantes de Homens que quiseram questionar o mundo e as verdades instaladas. De cientistas a filósofos, poetas ou simples e extraordinários pensadores do caminho, todos colocaram, à sua forma, o dedo na ferida. E disseram, à sua forma também, que não há "cura" sem questionamento. É ele que abre a fenda de onde poderá jorrar a nossa grande e profunda verdade interior.

03/06/14

A História da Humanidade

Era uma vez um grupo de Homens que vivia rodeado por um muro alto. Geração após geração, era circunscritos àquele espaço que os Homens cresciam, davam vida e morriam, sem nunca se questionarem porque existiria ali um muro, muito menos o que haveria do outro lado.
Até que os Homens se multiplicaram, o espaço começou a escassear, o alimento a faltar, e os Homens começaram a lutar entre si pela própria sobrevivência.

- Vamos deitar o muro abaixo.

Todos olharam com descrença para o Homem que falava. Nunca ninguém tinha pensado derrubar um muro que sempre ali tinha existido, mas a NECESSIDADE obrigava a que se pensasse numa SOLUÇÃO.

Chamaram então o homem mais forte da comunidade para que ele deitasse o muro abaixo. Mas, por mais que ele se esforçasse, o muro não cedia.

- Só conseguimos deitar o muro abaixo se nos unirmos.

UNIDOS, os homens empurraram o muro e conseguiram que ele cedesse. Era todo um mundo novo que se desvendava do lado de fora do seu muro. Mas era todo um mundo novo limitado agora por escarpa alta e aparentemente impossível de transpor.
A princípio, essa escarpa não interferia no dia-a-dia de quem desfrutava do espaço que conquistara. Mas os Homens voltaram a multiplicar-se e a porção de Terra voltou a não chegar para as suas necessidades.

- Vamos deitar a montanha abaixo!

Unidos, os Homens começaram a empurrar a escarpa, como haviam feito as gerações anteriores com o muro que os cercara, mas a escarpa não cedia. Todos os Homens foram mobilizados para a tarefa, mas a montanha permanecia imóvel. Até que um dos Homens, CANSADO de um esforço sem resultados, resolveu afastar-se e começar a pensar.

- E se, em vez de deitarmos a montanha abaixo, a treparmos?

Chamaram-no de louco. Disseram-lhe que deveria pensar menos e trabalhar mais, mas o Homem não desistiu e começou a tentar trepar a escarpa sozinho. Sem sucesso. Aplicou todos os seus esforços na tarefa, mas sem resultados. Pensou desistir, mas alguns Homens que o observaram, também cansados de empurrarem a escarpa sem resultados, resolveram oferecer-lhe ajuda.

- E se construíssemos uma escada?

Eram poucos, mas a escada foi ganhando forma. E outros Homens se foram juntando aos primeiros, começando a perceber que a ideia louca podia, afinal, ser até uma boa solução. E foi assim que, quando a escada ficou pronta e os primeiros homens começaram a galgar a escarpa e a perceber que no topo existia um planato frondoso, todos aqueles que os haviam chamado de loucos deixaram também de empurrar a montanha e subiram as escadas da escarpa. A montanha que antes fora intransponível, era agora um mero obstáculo no caminho.

Mas o topo da montanha, mais cedo ou mais tarde, haverá de ser pouco para uma Humanidade com tantas necessidades. Para lá do frondoso planalto, não existe agora um muro nem uma escarpa. Mas existe um abismo. Um fosso grande que não poderá ser deitado abaixo nem poderá ser trepado, mas que os Homens vão querer transpor quando surgir a NECESSIDADE (PRECISAMOS) e/ou o CANSAÇO (NÃO CONSEGUIMOS MAIS). E quando, deles, surgir o QUESTIONAMENTO (TALVEZ NÃO TENHA DE SER ASSIM) e consequentemente a IDEIA (VAMOS FAZER DIFERENTE). Haverá DESCRENÇA e JULGAMENTO. Mas enquanto houver UNIÃO, os obstáculos serão transpostos e conduzirão sempre a um lugar melhor.

- Vamos saltar o abismo?
- Talvez possamos aprender a voar...


É esta a História da Humanidade, de obstáculo em obstáculo.

1º DA NECESSIDADE E/OU CANSAÇO nasce a IDEIA
2º A IDEIA gera DESCRENÇA
3º Quando surge UNIÃO encontra-se a SOLUÇÃO

São muitos os obstáculos que hoje nos são colocados, e tendemos a ficar-nos pelo cansaço. Pelo sofrimento perante a necessidade. Mas é quando pararmos para nos questionarmos e perguntarmos a nós mesmos o que poderemos fazer de diferente para modificar aquilo que já não nos serve, que a ideia surgirá. Não importa se formos julgados. Importa que, das ideias que tivermos, nasça uma solução, e que ela, mais cedo ou mais tarde, seja aplicada com espírito de união.

02/06/14

Na força das marés

Na espuma da praia leio o dia-a-dia turbulento que nos agita no vaivém das marés.
Por forças da Terra ou forças do universo, a água recua e avança sobre nós, levando de nós o que já não nos serve. Ergue-se uma e outra e outra vez, não porque se enfurece, apenas porque temos muito que levar. Temos rochas pesadas agarradas à areia que, à falta de força para serem removidas, precisam de ser limadas por força da erosão, fragmento a fragmento, até serem transportáveis.

A água vem para nos limpar. Para nos sarar as feridas. Podemos partir e voltar por entre marés mais violentas. Não importa. Importa a purificação que se faz daquilo que em nós sempre sobrevive.

Música e transformação

A música é desde sempre companheira do homem. Aprendemos a escutá-la na natureza e a reproduzi-la à nossa imagem, adicionando-lhe palavras, sentimento, dinâmica, vida das mais variadas formas, espelho da nossa evolução e cultura.
Para Pitágoras, a música era um símbolo de harmonia do cosmos, e para nós, homens, um meio de alcançar o equilíbrio interno. A ciência parece hoje confirmar que a música interfere connosco de múltiplas formas. Pode condicionar-nos ou pode ser transformadora, se escolhermos aquela que nos toca de forma especial.
Escolher a banda sonora para o nosso dia-a-dia não é assim uma perca de tempo. Pode ser até quanto baste para reescrever de forma mais positiva um importante capítulo da nossa história...

01/06/14

Ser criança

Sempre que vejo uma criança brincar, pergunto-me se o verdadeiro desafio é ajudá-la a adaptar-se a este mundo ou, pelo contrário, transformar este mundo de forma a que consigamos viver nele como crianças...
Hoje sabemos que um dos segredos da felicidade é recuperar aquilo que, na infância, fazia de nós crianças felizes: a forma inocente de olhar o mundo, a capacidade de ver o lado bom das coisas, de se relacionar sem preconceitos, de viver o presente, de fugir da realidade, de criar sem limites... Contrariar na infância aquilo que um dia mais tarde pode ser a nossa bóia de salvação, é um contrassenso, um desperdício de tempo e energia.
Crescer não deveria ser deixar de ser criança. Crescer deveria ser potenciar todas as ferramentas inatas com que nascemos, adicionando-lhes responsabilidade, inteligência relacional, uma visão macro do mundo e, complementarmente (nunca exclusivamente) conhecimento sobre aquilo que nos rodeia, para que possamos perceber em que área queremos intervir e com que propósito, para o bem-comum.
Um Feliz Dia da Criança para todas as Crianças, dos 0 aos 120!

30/05/14

I AM

Há dias que me abraçam e me devolvem ao que sou.

Cada gesto importa

Em 2003 conheci em Taizé um jovem da Bósnia, marcado pelos violentos confrontos que afetavam a sua comunidade. Ouvi os seus relatos impressionantes, tão longe de compreender como podiam eles ser reais, no mesmo mundo que a mim me fazia tão feliz. E ele disse-me:
- Sabes, Sara, tu só consegues sorrir assim porque não sabes o que é a guerra.

Nesse momento o meu sorriso desfez-se e senti que não tinha mais o direito de sorrir como sorria, perante o sofrimento daqueles que me cercavam.

- Não, Sara. Não te digo isto para parares de sorrir. Não pares, por favor... Enquanto sorris, ajudas-me a esquecer...

Tantas vezes nos sentimos impotentes perante aquilo que não conseguimos mudar. Mas cada gesto nosso, cada abraço que damos e cada sorriso que soltamos, pode ser quanto baste para que o mundo se torne num lugar melhor...

28/05/14

A ferida que não sara

Todos nós, uma vez que na vida, ainda que apenas em sonhos, deveríamos ser apanhados pelo fundilho das calças e pendurados num qualquer planeta lá fora. De lá, seríamos obrigados a olhar a minúscula Terra, planeta azul cada dia mais doente, onde pequenas criaturas se matam, se destroem e destroem o seu habitat em nome de poder e de riqueza.
Todos nós, uma vez na vida que fosse, deveríamos sentir-nos o Universo, e doer-nos a Terra como uma ferida que não sara.

O Livro da Vida

Olhar a nossa vida como uma história é compreender que todos aqueles que nos rodeiam têm também uma história por viver. Todos têm os seus próprios desafios por superar, as suas lutas internas e os seus obstáculos externos.
Às vezes tendemos a pensar que só a nossa história existe e todos devem contribuir para ela. Outras vezes tendemos a contribuir para todas as histórias que nos surgem o caminho, sem cuidar da nossa própria história.
Todas as histórias são válidas e têm percursos autónomos. Quando se cruzam é porque há algo para aprender e algo para ensinar. Julgar os outros é simplesmente descurar o poder do grande livro da Vida...

27/05/14

Autoconsciência coletiva

O nosso percurso individual e o nosso percurso enquanto espécie correm em paralelo. Enquanto espécie, é chegado o momento da autoconsciência coletiva (até por razões de sobrevivência). Individualmente, em que patamar nos encontramos?

"É neste sentido que não poucos cientistas (A. Goswami, D. Bohm, B. Swimme, Bateson e outros) falam do universo autoconsciente e de um propósito que é perseguido pelo conjuntos das energias em ação. Não há como negar esse percurso: das energias primordiais passamos à matéria, da matéria à complexidade, da complexidade à vida e da vida à consciência, da consciência à autoconsciência individual e da autoconsciência individual à autoconsciência coletiva, aqulo que Teilhard de Chardin chamava de noosfera pela qual nos sentimos uma mente coletiva."
(Leonardo Boff)

Do Amor

Se somos mais felizes quando amamos e somos amados;
Se nos tornamos mais saudáveis num ambiente de amor;
Se as nossas competências cognitivas se apuram quando estabelecemos laços amorosos;
somos uma espécie talhada para o Amor.
Aparte crenças, religiões, filosofias e modos de viver a vida, somos biologicamente seres que precisamos de Amor para funcionar convenientemente.
O Amor não é uma mais-valia. É uma necessidade orgânica, provavelmente a razão de ser da nossa existência.

19/05/14

Do Princípio e do Fim

A História da Terra é a aventura da materialização do invisível. Do Verbo se fez o que os nossos olhos vêem, o que as nossas mãos tocam, o que os nossos ouvidos ouvem, os nossos narizes cheiram e as nossas bocas provam.
Mas a História da Terra pede-nos agora que abandonemos a matéria para compreendermos o invisível que sempre esteve por detrás. O que os nossos olhos não conseguem ver, o que as nossas mãos não conseguem tocar, o que nossos ouvidos não conseguem ouvir, os nossos narizes podem cheirar ou as nossas bocas provar. A História pede-nos que sejamos o que sempre fomos, desde o princípio dos tempos, desde a formação de todos os lugares. O que sempre fomos, sem tempo nem espaço, para além de toda a ilusão da matéria.
A História pede-nos que regressemos à nossa forma original. Grita-o através do vento e do chilrear dos pássaros. Transmite-o na força das marés e na água que cai do céu. Revela-o nas estrelas, inspira-o em cada um de nós através do luar, noite após noite, cada noite mais perto do fim.
A História está escrita. Não há como fugir dela. Entendê-la, no entanto, é perceber que o invisível não é o Fim. Apenas um suave regresso ao nosso Princípio.


Da alquimia de viver


Costumo dizer que a vida é como um copo medidor. Um copo que permite misturar várias tarefas, várias aventuras, vários relacionamentos, mas que tem uma capacidade limitada. O dia só tem 24 horas. O nosso corpo precisa de descansar. Não é assim possível encher o nosso copo de felicidade se não o esvaziarmos daquilo que temos a mais, dentro dele. O que é que nos faz perder tempo? O que é que nos rouba energia? Que relacionamentos já não fazem sentido? Por vezes é exatamente o excesso que não nos deixa ver o que nos falta...

Se já nos libertámos de tudo o que não fazia sentido, mas ainda assim não conseguimos conter tudo aquilo que nos dá prazer, a solução passa por criar novas combinações, que permitam misturar os diferentes "líquidos" em doses mais pequenas. Talvez um hobby se possa transformar em trabalho. Talvez no trabalho possamos envolver aqueles com quem queremos estar. Ou talvez aqueles com quem gostamos de estar também gostem do nosso hobby e possamos praticá-lo juntos.
A vida é um exercício de forças e combinações. Física e Química. Às vezes quântica, porque acima e abaixo de tudo o que vemos existe a incerteza de tudo aquilo que ainda não compreendemos. Mas uma certeza temos: a alquimia acontece quando mexemos na matéria. Quando fundimos, separamos, transformamos. Fazer o que sempre fizemos da forma que fizemos nunca transformará vida alguma em ouro...

16/05/14

Na estrada da Vida


Hoje deparei-me com este sinal de trânsito e dei comigo a pensar que a vida, ela própria, deveria ter as suas regras de circulação:

1. Circular (crescer, aprender, evoluir), sempre, porque a vida é movimento.

2. Respeitar os limites máximos e os mínimos de velocidade (que o corpo nos impõe).

3. Estar atento aos sinais, de todas as formas e feitios (e aos sinais dos outros também).

4. Dar prioridade a quem a merece (ainda que alguns não respeitem as regras).

5. Avançar quando chegar a nossa vez (porque a nossa vez, mais cedo ou mais tarde, chega sempre).

6. Sair na saída que queremos (caso contrário andaremos às voltas) e fazer sinal para não apanhar nenhum daqueles que circula connosco de surpresa.

7. Circular, sempre, mas sem nunca esquecer que no centro de tudo está o Amor <3
14/05/14

De Pessoa para Pessoa

Pessoa assoma-me quando menos espero.
Gozando-me, sempre que em mim há certezas.
São poucas as vezes em que me permito tê-las, mas se uma me vislumbra, aquela que soa como a mais incompreensivelmente verdadeira, Pessoa espreita-me. Ri-se de mim. Diz-me que nada é nada, e que isso é muito mais verdade do que tudo é tudo.

- Preciso entender.
- Entender não é para os vivos - responde-me.
- E o que é para os vivos? A mentira?
- Tudo menos a verdade verdadeira. Aquela que roubaria o sentido ao teu mundo, porque o teu mundo é necessariamente de mentira, ou não seria mundo.

Digo-lhe que fui longe demais. Que não posso esquecer o vi. Esquecer o que senti. E ele cita-me Caeiro. Ah, Caeiro! Se eu soubesse resignar-me ao mundo que é mundo, o de aqui e o de agora, o do tempo e da distância, sem me fugir a alma para onde não deve... sem me escapar o espírito para onde não pode ir.

- Talvez precises do absurdo para escrever - sussurra-me irónico.
- Eu não quero escrever! Quero viver...
- E o que é a tua vida sem a escrita? O que és tu sem as palavras? Resigna-te. Serás sempre uma sombra de infelicidade num rosto feliz.
- E se eu não quiser?

Coloca-se em posição de Íbis e faz-me rir. Tonto! Tonto Pessoa! Não o quero comigo e todos os dias me enleio nele, entendendo o que não quero entender. Ou quero mas não devo. Ou devo mas não consigo. Mordisco a maçã da árvore da verdade, aquela que Deus proibiu para que os homens nunca deixassem de ser homens, e sofro agora o castigo divino, o de ir além do permitido.
Mas o que é uma dentada de maçã, sem a maçã inteira?
Sou expulsa do paraíso mas ausente também da realidade que agora não me chega.

- Não tens outro remédio. Escreve...