03/07/14

De um Desassossego só...

Cruzei-me com o Livro do Desassossego no primeiro ano de faculdade. Não sei como me terá ele escapado tanto tempo, mas talvez o momento seja sempre o certo.
Abri-o num autocarro vindo da Graça, li uma frase ao acaso e fechei-o. Aquela só frase chegar-me-ia para o dia inteiro. E foi assim durante as semanas que se seguiram. Uma frase por dia, uma página no máximo, e tudo o que se lhe seguiria seria comigo e com o meu próprio desassossego, nos meus cadernos por escrever, na minha vida por viver.

Passei ontem na livraria do Desassossego, no Chiado, e conheci o homem que sonhou criar um espaço para um só livro. Fê-lo primeiro em Oslo, agora na cidade do poeta que o escreveu. É um espaço sossessago de um desassossego só. E sentimo-nos por isso mesmo desassossegar sossegadamente. E isso é bom.

Obrigada, Livraria do Desassossego. Obrigada, Christian Kjelstrup.
Até sempre, Fernando Pessoa.

30/06/14

Parte de um Todo

“Um ser humano é parte de um todo, chamado por nós de “o Universo”, uma parte limitada em tempo e espaço. Ele experimenta a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto – um tipo de ilusão ótica de sua consciência. Essa ilusão é um tipo de prisão para nós, restringindo-nos a nossos desejos pessoais e à afeição a algumas poucas pessoas mais perto de nós. Nossa tarefa deve ser a de nos libertar dessa prisão aumentando nossos círculos de compaixão para abraçar todas as criaturas vivas e a natureza em toda sua beleza”.

Albert Einstein
29/06/14

Da história da Humanidade

Do pouco que se sabe, até ao momento, da história da Humanidade, podemos dizer que o Homem...


... começou por "trabalhar" para o seu sustento e o sustento dos seus, protegendo os mais novos e os mais fracos.







Com a fixação à terra, as comunidades cresceram, evoluíram. Pobres e escravos, mesmo que mais novos ou mais fracos, trabalhavam para proveito das classes mais favorecidas.





E assim foi durante mais tempo, mesmo quando os escravos deixaram de ser escravos, porque os pobres continuaram a ser pobres. De vez em quando nascia o sonho de igualdade: todos tinham de trabalhar para proveito de todos. Mas, independentemente do regime que o tentava, como contrariar a sede de poder? O favorecimento? A estratificação? Os pobres continuaram a trabalhar para os mais ricos. Os países menos desenvolvidos continuaram subjugados pelos mais ricos (ou apenas esquecidos por eles). Às vezes pela guerra. Às vezes pela economia.




Em muitos países continua a lutar-se pela sobrevivência. Continua a haver escravos. Pobres, muitos pobres. Enquanto, no mundo dito desenvolvido, homens e mulheres trabalham dia e noite para produzir aquilo de que precisam mas também aquilo que era perfeitamente dispensável, consumindo desenfreadamente os recursos da Terra e criando no Homem falsas necessidades que alimentam uma economia ilusória. Uma economia que ano após ano deixa o Homem cada vez mais vazio, no seu sentido de existir. Os mais fracos deixam de interessar porque não produzem. As crianças não nascem porque não há tempo para elas.




Ao contrário de certas sociedades animais perfeitamente organizadas, o Homem ainda não encontrou o seu modelo social. Multiplica-se sem um sentido, sem responsabilidade, sem capacidade de visão. O que quer efetivamente a Humanidade para si? Que modelo a faria feliz, de uma forma global, planetária? Adaptada ao seu meio ambiente, sem o destruir?
O que pode ser isso de espécie humana e o que pode cada um de nós fazer para o alcançar? Esta deveria ser a pergunta que abriria todos os telejornais e o tema de todos os debates. Porque é nesta simples pergunta, de tão complexa resposta, que reside a esperança que resta para a Humanidade...



26/06/14

Portugal precisa de crianças

Portugal precisa de crianças.
Há muito que soou o alarme: não temos crianças para uma saudável renovação de gerações. Nascem cada vez menos bebés por ano e a pirâmide está irremediavelmente invertida, o que nos trará graves problemas de sustentabilidade do nosso modelo social a médio e longo prazo.
Portugal precisa urgentemente de crianças. Mas ainda assim muito pouco ou nada tem sido feito para resolver o problema. As famílias continuam sem dinheiro para ter filhos, sem ter tempo para ter filhos. As leis continuam a não favorecer (na maioria dos casos até dificultam) aqueles que abdicam do seu tempo e do seu dinheiro (para mantermos a visão materialista do sistema instalado) para criar uma nova geração que vai ser o futuro do país. Claro que os benefícios emocionais são muitos, mas eles são mesmo o que resta a uns poucos teimosos que ainda querem pôr filhos neste mundo e vê-los crescer...

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal precisa de mudar e muito, se quer ter mais crianças. Precisa de olhar os pais como educares ao serviço do país e do mundo. Precisa de os incentivar a prosseguirem o seu trabalho e a darem o melhor de si. Financeiramente sim, também, mas o que os pais precisam, acima de tudo, é serem acarinhados e apoiados nas imensas responsabilidades que carregam às costas.
Portugal precisa de demonstrar aos pais que ainda não têm filhos que é uma imensa alegria conviver diariamente com uma criança. Que elas são o melhor do mundo e porquê. E garantir às futuras jovens mães e jovens pais que o país os ajudará nessa tarefa, dando-lhes condições para tal. Tornando essa experiência em algo maravilhosamente positivo, não num sacrifício desmesurado em prol de nada que o justifique.

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal precisa também de acarinhar cada uma das crianças que nascem e dizer-lhe que ela vai ser um orgulhoso cidadão do seu país, no qual poderá crescer de forma segura e saudável, desenvolver os seus talentos e um dia coloca-los ao serviço de todos, beneficiando também do melhor que os outros adultos (ex-crianças) terão para lhe dar.
Portugal precisa de dizer às suas crianças que não vai simplesmente empurra-la de escola em escola, um dia inteiro, só porque os pais têm de sair de casa de manhã e chegar noite dentro para sobreviverem. Precisa de dizer às suas crianças que não vão andar de escola em escola anos e anos para depois não terem qualquer lugar na sociedade, porque não haverá emprego, não haverá lugar para as suas potencialidades (que entretanto nem tiveram oportunidade de desenvolver), não haverá futuro. Precisa de dizer às suas crianças que vale a pena nascer e crescer porque a vida é uma experiência maravilhosa, por mais que os seus pais e avós já não acreditem na vida, muito menos no país que os viu nascer.

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal faz parte de um mundo e de um planeta esgotado, com excesso de população que consome, diariamente, os recursos da Terra sem qualquer sentido de responsabilidade. Por isso Portugal, se precisa de mais crianças, precisa também de reduzir o seu consumo energético per capita. Precisa de apostar nas energias renováveis e apelar a formas de vida menos consumistas, que contribuam para a sobrevivência do Planeta, lar de países como Portugal, lar de todos aqueles que nele habitam e todos aqueles que nele vierem a nascer.

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal precisa sobretudo de crianças saudáveis. Por isso não pode continuar a permitir que todos os dias crianças consumam alimentos absolutamente nefastos para a sua saúde, que enchem as prateleiras de todos os supermercados, restaurantes e máquinas de consumo rápido, para proveito de umas quantas indústrias.
Portugal precisa de crianças. Mas nunca como hoje teve crianças a comer tão mal, que num futuro próximo serão adultos com problemas de saúde, diminuídos assim na sua capacidade produtiva, na sua vitalidade, na sua energia capaz de mudar o rumo do país e do mundo. Portugal, se quer ter mais crianças e crianças saudáveis, tem de apostar fortemente numa política de alimentação saudável que volte a valorizar os produtos que crescem nas nossas terras, nas nossas árvores, no nosso mar, em condições ambientais, elas próprias, saudáveis.

Portugal precisa de crianças. Mas precisa de olhar cada uma delas como um tesouro precioso, que já traz inscrito em si potencialidades imensas e únicas, que poderão vir a fazer toda a diferença no nosso mundo. Portugal precisa de pais que alimentem essas potencialidades com tempo, amor e paciência. E Portugal precisa de um sistema de ensino que puxe pelo melhor dessas crianças, não as coloque diariamente numa sala fechada com outras 30 crianças num ensino igual para todos, onde os professores são obrigados a dar programas extensíssimos e tantas vezes sem qualquer razão de ser, sem tempo para cuidar, com amor e paciência, de cada dos seus tesouros.
Portugal precisa de crianças. Mas de crianças que vivam a vida. Que trepem às árvores e experimentem aquilo que aprendem. Que aprendam a relacionar-se com os outros e a colaborarem com todos, complementando-se nas suas diferenças. Crianças que cresçam numa escola onde têm tempo para brincar. Onde as crianças não são esgotadas de forma a estarem absolutamente fartas da escola (esse que podia ser um lugar maravilhoso de conhecimento) aos 13 anos. Onde os professores sejam os seus grandes mestres, de conhecimentos específicos mas também da arte de viver, em vez de serem pessoas sacrificadas por um sistema que todos os dias os pressiona e descredibiliza.

Portugal precisa de crianças. Mas não basta ter crianças. Portugal precisa de mudar e mudar muito para receber essas crianças. Até porque, se Portugal não mudar o que tem de mudar as crianças não nascerão. As crianças não crescerão, pelo menos de forma saudável. As crianças não gostarão do país. As crianças fugirão do seu país. Em última instância, as crianças nem gostarão de viver, neste país ou noutro.

Portugal precisa de crianças. Mas as crianças precisam e muito que Portugal seja outro.
22/06/14

Da arte e da transcendência

Farejam como cães os corpos desnudos, deitados,
Aqui e ali buscando restos de gente incauta
Faltando a transcendência e o êxtase sempre adiados
Cobram aos instintos o ardor da carne, que a matéria pauta.

Ah, transcendência oca, êxtase húmido,
que no fugaz prazer lhes ilude os sentidos
rasga-lhes o peito, falsamente púdico
Preenche o vazio dos milagres não vividos.

(Quando Deus cuspiu o Homem
da sua morada eterna
Disse-lhe "Crê e a mim voltarás
Pinta e me verás
Compõe e me ouvirás
Escreve e me lerás
Os demais prazeres serão reduto da transcendência
Presente dos céus para a vida terrena
O verdadeiro êxtase, o da tua essência
Estará na fé, estará na arte, às vezes inquieta, às vezes serena)


Sou e sou outro

Sou eu e sou sempre outro
que me olha, quieto, como morto
Sussurra-me que sim
Sussurra-me que não
Esquerda, direita
Tudo é decisão.

Às vezes não se entendem,
eu e o outro
Ou talvez o outro seja já outros que o complementem
Ouço-os chamarem-me pelo nome
(coisas do Eu, ter por quem chamar)
Não fosse eu sentir-me fora de todos eles
Eu num outro, ainda por inventar.

Cedo, por fim, à chamada
Oiço, pacientemente
E para decidir procuro
O único que, em mim, não mente.
Fala-me direito ao coração
Sabe mais do que devia
(ou tudo o que eu, sem saber, sabia)
Acompanha-me com devoção
Até à hora em que a vida me finda.

Do escrever

Pergunto-me muitas vezes porque escrevo, se a vida nos oferece tantas outras formas de a vivermos. Mais úteis, mais saudáveis, mais felizes, não fosse viver sem escrever saber-me a culpa. A dever não cumprido. Faço-o por um não saber porquê que se multiplica em desculpas sem fundamento, não havendo, na verdade, fundamento algum para um é como é. Aceito. Penalizo-me se o recuso. E não me falem do já possa ter feito até então, porque de nada me importa. Às costas, carregarei sempre, quer queira quer não, o peso dos livros que ainda não escrevi...


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A escrita impõe-se-me num namoro demorado. Às vezes amo-a, às vezes cansa-me. Às vezes parto, às vezes vejo-a partir. Mas reencontramo-nos sempre num abraço eterno, num êxtase transcendente. Porque sim, porque não, não há explicação. Eu sou ela, ela sou eu, profecia ou acidente