04/09/14

Sou árvore

Quando o vento me afaga o rosto, sinto por debaixo da pele a seiva que me alimenta.
Abro os braços, como ramos que se estendem para abraçar a vida em todo o seu esplendor.
Os dedos, qual galhos irrequietos, espraiam-se em busca do céu que todo o meu corpo contempla.
E o meu corpo, que estação a estação endurece e se consolida, é tronco que suporta a quietude de um espaço e de um tempo onde ousou ser semeado.

Sou árvore, e hoje o meu corpo suporta o peso das crianças que se penduram nos meus ramos.
Sou abrigo de animais, calor ou sombra nas diferentes estações para as pequenas criaturas que em mim procuram segurança.
Sou árvore quieta, aprendendo a beleza de observar o movimento do mundo à minha volta, nas suas alegrias e tristezas, nas guerras e nos acordos de paz, nas estagnações e nas mudanças. O mundo avança, estação a estação, enquanto os meus cabelos de folhas verdes se agitam ao vento e a madeira do meu corpo é sulcada por rugas que registam em mim a história do mundo inteiro.

Já fui pássaro e corri os céus. Já fui peixe e desci às profundezas do oceano. Hoje sou árvore. Imóvel e contemplativa, sorrindo e chorando na paz profunda que me completa. E se a vida é isto, é já tudo. Até que o meu tronco seque ou seja arrancado à terra, continuarei a sorrir ao vento e a abraçar, quieta, o mundo que me viu despontar da terra.

01/09/14

Do sentido da vida

Num mundo onde nos mostram tudo, interessa que não vejamos.
Num mundo onde nos ensinam tantas coisas, interessa que não vejamos para além delas.
Num mundo onde nos entopem de opiniões, interessa que não pensemos.
Num mundo tão cheio de contradições, interessa que não nos questionemos.

Num mundo onde importa somente o lucro e a rentabilidade, interessa que sejamos robots produtivos.
Num mundo onde importa somente o poder e o controlo, interessa que sejamos autómatos submissos.

Pode não ser a guerra a controlar-nos, pode não ser a violência física e a prisão, mas somos aprisionados todos os dias nas nossas dívidas, na nossa dependência energética e alimentar, controlados pelos nossos gostos, conduzidos nas nossas opiniões.
Tudo parece ser como ter de ser, e nós termos de fazer o que temos de fazer. Será? Se ser como nos dizem que tem de ser e fazer o que nos dizem que temos de fazer nos tem conduzido a um vazio, à destruição externa e interna de tudo aquilo que nos poderia dar sentido...
O modelo falhou. O mundo vive em guerra (real e económica), o planeta não durará muitos anos e a depressão alastra-se como uma epidemia incontrolável. A vida é o melhor que o Homem tem, e o Homem deseja deixar de viver. Não consegue mais dormir, não consegue mais reproduzir-se, vive ou sobrevive entre uma dependência e outra para suportar a vida. Adoece de tristeza, rebenta de stress, morre de angústia. O homem deixou de saber ser homem, mas porque deixou de conseguir ver, deixou de conseguir pensar, deixou de conseguir questionar-se, acha que ser homem é isso: é não ser nada.
O homem precisa de parar. Precisa de voltar a ver, a pensar, a questionar-se. E depois reiventar um mundo onde lhe apeteça viver. Talvez reiventando primeiro uma forma de viver no mundo, que só poderá reiventar-se na reivenção pessoal de cada um de nós...

O momento é este. A vida é esta. O que pode cada um de nós fazer para que a vida volte a ganhar sentido? O que podemos fazer por nós? O que podemos fazer por aqueles que nos rodeiam? O que podemos fazer pelo planeta inteiro que espera, ansioso, pela coragem individual de todos aqueles que o habitam?


29/08/14

A vida como um filme

Talvez a história da Humanidade seja um filme, projetado repetidas vezes, ou simplesmente existindo, imutável mas moldável, sem tempo nem espaço, apenas acontecendo sempre com o mesmo princípio e o mesmo fim, por entre milhões e biliões de anos de uma história que alguém criou.
Criou porquê? Talvez para que cada um de nós pudesse nela existir, nela ter o seu papel. Evoluir no evoluir dessa história já escrita. Às vezes desempenhando o papel de vilão, às vezes o de super-herói, às vezes simplesmente o de alguém que não sabe para que serve a vida e deseja morrer...
Experiências. Aprendizagens. Sem tempo, nem espaço. Descemos até um dos frames e simplesmente existimos.
Não que a nossa existência não tenha importância... tudo o que fazemos molda essa história. Ela não existe sem a nossa presença. Mas, mais do que entender a história, importa usufruir desta oportunidade única de fazer parte deste filme. De existir numa grande criação que nos dá a oportunidade de sermos algo material, inscrito num tempo e num espaço. De evoluir.
Que outras histórias existirão noutros universos? Quantos filmes estarão a ser projetados ao mesmo tempo? Quantos já terei percorrido eu? Tu? Cada um de nós? Quem fomos e quem seremos, aqui e lá?
Talvez nunca tenhamos a resposta, porque a vida na Terra não é suposto ser uma pergunta. É apenas uma existência...

E se a nossa vida for um sonho?

"(...) Tudo o que nós sabemos, é nada. Toda a nossa arrogância, toda a nossa pretensão de conhecimento só expressa com eloquência o tamanho do nosso 'nanismo'.
(...) Então que não criemos barreiras, empecilhos. Que não acreditemos em nossas afirmações presunçosas e que estejamos abertos, conscientes de que tudo o que nós temos hoje são símbolos, metáforas, palavras para traduzir o intraduzível... E que isso não seja só uma divagação intelectual, mas que nos encaminhe para a percepção da relatividade de cada humano que se relaciona com fragmentos do absoluto e se projeta no tempo e nos espaço. (...)
Preste atenção. Viva atento. Esteja presente. Para que você, de alguma maneira coloque o pezinho ali, na dimensão da gratidão de existir num mundo que nós pouco conhecemos, do qual quase não temos explicação... porque de alguma forma, aqui dentro, sentimos que é um grande privilégio estar aqui..."

https://www.youtube.com/watch?v=3uGAe-LCjnE
24/08/14

Da arte

"É curiosa esta função do cérebro-escritor. De tudo quanto em si descobre e pensa faz novelas ou poesias. Mais feliz do que os outros para quem as horas de meditação sobre si próprio são horas perdidas. Para nós, elas são ganhas. Menos nobres só."

(carta de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, 1913)
15/07/14

Num mundo a precisar de um sentido

As vítimas da faixa de Gaza têm nome e não param de aumentar.
Podemos pensar que esta guerra não é nossa, mas a verdade é que podíamos ser nós, os nossos filhos, os nossos pais, os nossos amigos, a engrossar esta lista. Com "sorte", a ter de fugir hoje dos bombardeamentos, a deixar tudo para trás numa guerra sem sentido.
Em pleno século XXI, era da tecnologia, do virtual, continuam a existir guerras reais, que não param com o desligar de um botão. Em pleno século XXI, era da globalização, da informação ao segundo, continuamos sem conseguir travar as chacinas que acontecem ao nosso lado e passam quase em direto nas televisões das nossas salas.
Somos uma Humanidade com 7 biliões de pessoas e um passado de milhares de anos de existência (que se saiba), que continua a matar-se, a subjugar, a violentar, a destruir, a destruir-se. Fará sentido o progresso, se não conseguirmos ser uma humanidade que viva em paz, seja entre países, seja entre pessoas que habitam sob o mesmo tecto? Fará sentido o progresso, se não cuidarmos da Terra como o nosso lar, e de cada homem com um irmão? Fará sentido o progresso se não sentirmos a vida como uma dádiva preciosa, que não pode ser desperdiçada em nada que lhe roube o sentido?
Progresso terá de ser evolução, mas não pode ser apenas uma evolução tecnológica, porque se o Homem não evoluir interiormente, usará sempre essa tecnologia ao serviço dos seus instintos mais básicos, ligados à sede de poder e ao benefício pessoal. Progresso é evolução, mas essa evolução tem de começar em cada um de nós, na descoberta do nosso posicionamento perante a vida, perante o mundo e perante todos aqueles que nos rodeiam. Só assim o progresso fará sentido. Só assim a Humanidade terá razão de ser.


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GAZA
VICTIMS' NAMES AND AGES

Updated July 12, 1:35 pm:

The Gaza health ministry has confirmed the deaths of 121 Palestinians so far in the besieged strip since Israel began its relentless assault early Tuesday. Among those killed, at least 23 were aged 16 or younger.

The two youngest victims were both 18 months old. Mohammed Malakiyeh was killed along with his 27-year-old mother, and Ranim Jawde Abdel Ghafour was killed along with a member of her family in Khan Younis. The two oldest victims were 80-year-old Naifeh Farjallah, killed in an air strike on the town of Moghraqa, southwest of Gaza City, and 80-year-old Saber Sukkar, killed in an airstrike on Gaza City.

The two deadliest strikes killed eight people each: One strike Tuesday on the Hamad family home in southern Gaza, and another on Thursday on the Hajj family home in Khan Younis. Five youths were among the dead in the latter bombing.

Victims’ names and ages were compiled based on information released by the Gaza health ministry, while the circumstances of the deaths were taken from the ministry and local news sources.

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03/07/14

De um Desassossego só...

Cruzei-me com o Livro do Desassossego no primeiro ano de faculdade. Não sei como me terá ele escapado tanto tempo, mas talvez o momento seja sempre o certo.
Abri-o num autocarro vindo da Graça, li uma frase ao acaso e fechei-o. Aquela só frase chegar-me-ia para o dia inteiro. E foi assim durante as semanas que se seguiram. Uma frase por dia, uma página no máximo, e tudo o que se lhe seguiria seria comigo e com o meu próprio desassossego, nos meus cadernos por escrever, na minha vida por viver.

Passei ontem na livraria do Desassossego, no Chiado, e conheci o homem que sonhou criar um espaço para um só livro. Fê-lo primeiro em Oslo, agora na cidade do poeta que o escreveu. É um espaço sossessago de um desassossego só. E sentimo-nos por isso mesmo desassossegar sossegadamente. E isso é bom.

Obrigada, Livraria do Desassossego. Obrigada, Christian Kjelstrup.
Até sempre, Fernando Pessoa.