15/09/14

Uma nova cultura

"Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. Desenvolvê-la, em todas as esferas da vida pública e privada, a começar pela educação, é o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que seja digno desse nome. Enquanto se colocarem a economia e as finanças acima da sabedoria, do amor, da compaixão e de leis que as expressem, produzir riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o afecta, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco acelerado de extinção."

(in "Quem é o meu Próximo?" de Paulo Borges, edições Mahatma)

13/09/14

Do homem

O homem luta não só, como os animais, pelo necessário, mas também pelo supérfluo.
(Aqui se mostra o mórbido.) A luta pelo supérfluo.


Fernand Pessoa

Sentido é Êxtase

Mesmo na fase mais niilista da minha vida, quando procurava aceitar que os dias não fossem mais do que pequenos troços de um caminho sem sentido, não me revia na visão de Kafka sobre a sua experiência de ser. Não, não me sentia verdadeiramente eu quando estava insuportavelmente infeliz. Muito pelo contrário, era eu e verdadeiramente eu nos momentos de êxtase, de entrega completa, de arrebatamento por tudo quanto existe, de rendição absoluta ao milagre da vida. Era a fugacidade do êxtase o que me deixava vazia. Era a banalidade imposta o que me roubava o sentido. Por isso vivia na ânsia da experiência. Na busca permanente do novo. Procurava escapar à queda no niilismo correndo permanentemente para a ação. Não era vida. Era fuga. Parecia sentido. Mas era apenas uma forma de não pensar sobre ele.
Até que um dia, por razões que desconheço (talvez só porque a idade o tenha imposto) o meu corpo pediu-me que parasse. Estava cansado de me ver correr. Na fuga do niilismo, tornara-me não mais do que uma niilista ativa. Era tempo de perceber o que havia para além da ação. Para além da ausência absoluta de sentido.
O meu corpo arrastou-se então à varanda. Mostrou-me as estrelas que nunca tinha tempo para ver e que tinham afinal algo para me dizer. As árvores com os ramos balouçantes que nunca tinha tempo para escutar, e que queriam afinal revelar-me todas as verdades do mundo. Os pássaros a rasgar os céus. As flores coloridas que me beijavam os pés. A paz do silêncio. O êxtase da inação. Aquilo que me arrebatava o peito e me gerava sentido em todos os poros do meu corpo, estivera sempre ali, à minha frente. À minha volta, fora e dentro de mim, numa comunhão perfeita que era toda a razão do meu ser. De todos os seres.
Aquele era o verdadeiro êxtase da vida. Sentido todos os dias, a todo o momento, sempre que os meus olhos o quisessem observar e o meu coração o quisesse sentir. Sempre que me deixasse abraçar pela vida e levasse este abraço a todos aqueles e a tudo aquilo que comigo a partilham.
E hoje sinto-me insuportavelmente... feliz.

Do olhar

"Neste cenário de todos os dias, e de um modo inteiramente inesperado (pois jamais havia sonhado com tal coisa), os meus olhos foram abertos e, pela primeira vez em toda a minha vida, tive um vislumbre da beleza extática da realidade...
(...) Não vi nenhuma coisa nova, mas vi todas as coisas habituais numa miraculosa luz nova - no que acredito ser a sua verdadeira luz. Vi pela primeira vez quão selvaticamente bela e jubilosa, para além de quaisquer palavras minhas para o descrever, é a totalidade da vida. Cada ser humano atravessando aquela varanda, cada pardal que voava, cada ramos oscilando ao vento, estava integrado e era parte do inteiro e louco êxtase de encanto, alegria, significância e embriaguez da vida.
Não que por uns poucos e excitados momentos eu imaginasse toda a existência como bela, mas, antes, a minha visão interna foi desbstruída para a verdade, de modo que vi o real encanto que está sempre aí, mas que tão raramente percepcionamos, e soube que todo o homem, mulher, ave ou árvore, toda a coisa viva diante de mim, era extravagantemente bela e extravagantemente importante. E, ao contemplar, o meu coração fundiu-se e abandonou-me num arrebatamente de amor e deleite. (...)
Uma vez, no meio de todos os cinzentos dias da minha vida, vi o coração da realidade; fui testemunha da verdade."

(in "Twenty Minutes of Reality" de Margaret Prescott Montague, 1915)

10/09/14

Sonhei em poema

Sonhei em poema, um poema que nunca saberia escrever, que nunca saberia dizer.
Quem mo soprou, nessa noite alada, não sei descrever.
Criatura mágica, poeta, anjo
Disse-me em segredo o que eu precisava de saber.
Em poema, para que eu nunca mais o possa esquecer...

A criança que há em nós

https://www.youtube.com/watch?v=sM1JJmuza6o

Para ver com carinho, de olhos postos na criança que existe em nós.
Talvez não precisemos de ser um Peter Pan. Mas talvez possamos pensar como poderá a nossa vida dar-nos um gozo maior. Como desfrutar das pequenas coisas, como aproveitar este grande privilégio que é ver o sol nascer todos os dias e a chuva encher a terra de renovada vida. Rir do riso das crianças. Abraçar alguém de quem se gosta. Correr ao lado do tonto do nosso cão que nos deixa a roupa toda suja.
A criança que há em nós não é demasiado inocente, imatura ou inconsequente. A criança que há em nós sabe amar só porque sim, sabe esquecer o que não importa, sabe usufruir de cada momento como se não houvesse outro. E isso, independentemente da fórmula da felicidade que cada um de nós encontra, é meio caminho andado para tudo fazer muito mais sentido...
04/09/14

Flor ou cardo

Podemos ser flor num jardim perfeito, ou cardo num campo inóspito.
Independentemente do nosso contexto, teremos sempre a oportunidade de florir...


Sou árvore

Quando o vento me afaga o rosto, sinto por debaixo da pele a seiva que me alimenta.
Abro os braços, como ramos que se estendem para abraçar a vida em todo o seu esplendor.
Os dedos, qual galhos irrequietos, espraiam-se em busca do céu que todo o meu corpo contempla.
E o meu corpo, que estação a estação endurece e se consolida, é tronco que suporta a quietude de um espaço e de um tempo onde ousou ser semeado.

Sou árvore, e hoje o meu corpo suporta o peso das crianças que se penduram nos meus ramos.
Sou abrigo de animais, calor ou sombra nas diferentes estações para as pequenas criaturas que em mim procuram segurança.
Sou árvore quieta, aprendendo a beleza de observar o movimento do mundo à minha volta, nas suas alegrias e tristezas, nas guerras e nos acordos de paz, nas estagnações e nas mudanças. O mundo avança, estação a estação, enquanto os meus cabelos de folhas verdes se agitam ao vento e a madeira do meu corpo é sulcada por rugas que registam em mim a história do mundo inteiro.

Já fui pássaro e corri os céus. Já fui peixe e desci às profundezas do oceano. Hoje sou árvore. Imóvel e contemplativa, sorrindo e chorando na paz profunda que me completa. E se a vida é isto, é já tudo. Até que o meu tronco seque ou seja arrancado à terra, continuarei a sorrir ao vento e a abraçar, quieta, o mundo que me viu despontar da terra.

01/09/14

Do sentido da vida

Num mundo onde nos mostram tudo, interessa que não vejamos.
Num mundo onde nos ensinam tantas coisas, interessa que não vejamos para além delas.
Num mundo onde nos entopem de opiniões, interessa que não pensemos.
Num mundo tão cheio de contradições, interessa que não nos questionemos.

Num mundo onde importa somente o lucro e a rentabilidade, interessa que sejamos robots produtivos.
Num mundo onde importa somente o poder e o controlo, interessa que sejamos autómatos submissos.

Pode não ser a guerra a controlar-nos, pode não ser a violência física e a prisão, mas somos aprisionados todos os dias nas nossas dívidas, na nossa dependência energética e alimentar, controlados pelos nossos gostos, conduzidos nas nossas opiniões.
Tudo parece ser como ter de ser, e nós termos de fazer o que temos de fazer. Será? Se ser como nos dizem que tem de ser e fazer o que nos dizem que temos de fazer nos tem conduzido a um vazio, à destruição externa e interna de tudo aquilo que nos poderia dar sentido...
O modelo falhou. O mundo vive em guerra (real e económica), o planeta não durará muitos anos e a depressão alastra-se como uma epidemia incontrolável. A vida é o melhor que o Homem tem, e o Homem deseja deixar de viver. Não consegue mais dormir, não consegue mais reproduzir-se, vive ou sobrevive entre uma dependência e outra para suportar a vida. Adoece de tristeza, rebenta de stress, morre de angústia. O homem deixou de saber ser homem, mas porque deixou de conseguir ver, deixou de conseguir pensar, deixou de conseguir questionar-se, acha que ser homem é isso: é não ser nada.
O homem precisa de parar. Precisa de voltar a ver, a pensar, a questionar-se. E depois reiventar um mundo onde lhe apeteça viver. Talvez reiventando primeiro uma forma de viver no mundo, que só poderá reiventar-se na reivenção pessoal de cada um de nós...

O momento é este. A vida é esta. O que pode cada um de nós fazer para que a vida volte a ganhar sentido? O que podemos fazer por nós? O que podemos fazer por aqueles que nos rodeiam? O que podemos fazer pelo planeta inteiro que espera, ansioso, pela coragem individual de todos aqueles que o habitam?


29/08/14

A vida como um filme

Talvez a história da Humanidade seja um filme, projetado repetidas vezes, ou simplesmente existindo, imutável mas moldável, sem tempo nem espaço, apenas acontecendo sempre com o mesmo princípio e o mesmo fim, por entre milhões e biliões de anos de uma história que alguém criou.
Criou porquê? Talvez para que cada um de nós pudesse nela existir, nela ter o seu papel. Evoluir no evoluir dessa história já escrita. Às vezes desempenhando o papel de vilão, às vezes o de super-herói, às vezes simplesmente o de alguém que não sabe para que serve a vida e deseja morrer...
Experiências. Aprendizagens. Sem tempo, nem espaço. Descemos até um dos frames e simplesmente existimos.
Não que a nossa existência não tenha importância... tudo o que fazemos molda essa história. Ela não existe sem a nossa presença. Mas, mais do que entender a história, importa usufruir desta oportunidade única de fazer parte deste filme. De existir numa grande criação que nos dá a oportunidade de sermos algo material, inscrito num tempo e num espaço. De evoluir.
Que outras histórias existirão noutros universos? Quantos filmes estarão a ser projetados ao mesmo tempo? Quantos já terei percorrido eu? Tu? Cada um de nós? Quem fomos e quem seremos, aqui e lá?
Talvez nunca tenhamos a resposta, porque a vida na Terra não é suposto ser uma pergunta. É apenas uma existência...

E se a nossa vida for um sonho?

"(...) Tudo o que nós sabemos, é nada. Toda a nossa arrogância, toda a nossa pretensão de conhecimento só expressa com eloquência o tamanho do nosso 'nanismo'.
(...) Então que não criemos barreiras, empecilhos. Que não acreditemos em nossas afirmações presunçosas e que estejamos abertos, conscientes de que tudo o que nós temos hoje são símbolos, metáforas, palavras para traduzir o intraduzível... E que isso não seja só uma divagação intelectual, mas que nos encaminhe para a percepção da relatividade de cada humano que se relaciona com fragmentos do absoluto e se projeta no tempo e nos espaço. (...)
Preste atenção. Viva atento. Esteja presente. Para que você, de alguma maneira coloque o pezinho ali, na dimensão da gratidão de existir num mundo que nós pouco conhecemos, do qual quase não temos explicação... porque de alguma forma, aqui dentro, sentimos que é um grande privilégio estar aqui..."

https://www.youtube.com/watch?v=3uGAe-LCjnE
24/08/14

Da arte

"É curiosa esta função do cérebro-escritor. De tudo quanto em si descobre e pensa faz novelas ou poesias. Mais feliz do que os outros para quem as horas de meditação sobre si próprio são horas perdidas. Para nós, elas são ganhas. Menos nobres só."

(carta de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, 1913)
15/07/14

Num mundo a precisar de um sentido

As vítimas da faixa de Gaza têm nome e não param de aumentar.
Podemos pensar que esta guerra não é nossa, mas a verdade é que podíamos ser nós, os nossos filhos, os nossos pais, os nossos amigos, a engrossar esta lista. Com "sorte", a ter de fugir hoje dos bombardeamentos, a deixar tudo para trás numa guerra sem sentido.
Em pleno século XXI, era da tecnologia, do virtual, continuam a existir guerras reais, que não param com o desligar de um botão. Em pleno século XXI, era da globalização, da informação ao segundo, continuamos sem conseguir travar as chacinas que acontecem ao nosso lado e passam quase em direto nas televisões das nossas salas.
Somos uma Humanidade com 7 biliões de pessoas e um passado de milhares de anos de existência (que se saiba), que continua a matar-se, a subjugar, a violentar, a destruir, a destruir-se. Fará sentido o progresso, se não conseguirmos ser uma humanidade que viva em paz, seja entre países, seja entre pessoas que habitam sob o mesmo tecto? Fará sentido o progresso, se não cuidarmos da Terra como o nosso lar, e de cada homem com um irmão? Fará sentido o progresso se não sentirmos a vida como uma dádiva preciosa, que não pode ser desperdiçada em nada que lhe roube o sentido?
Progresso terá de ser evolução, mas não pode ser apenas uma evolução tecnológica, porque se o Homem não evoluir interiormente, usará sempre essa tecnologia ao serviço dos seus instintos mais básicos, ligados à sede de poder e ao benefício pessoal. Progresso é evolução, mas essa evolução tem de começar em cada um de nós, na descoberta do nosso posicionamento perante a vida, perante o mundo e perante todos aqueles que nos rodeiam. Só assim o progresso fará sentido. Só assim a Humanidade terá razão de ser.


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GAZA
VICTIMS' NAMES AND AGES

Updated July 12, 1:35 pm:

The Gaza health ministry has confirmed the deaths of 121 Palestinians so far in the besieged strip since Israel began its relentless assault early Tuesday. Among those killed, at least 23 were aged 16 or younger.

The two youngest victims were both 18 months old. Mohammed Malakiyeh was killed along with his 27-year-old mother, and Ranim Jawde Abdel Ghafour was killed along with a member of her family in Khan Younis. The two oldest victims were 80-year-old Naifeh Farjallah, killed in an air strike on the town of Moghraqa, southwest of Gaza City, and 80-year-old Saber Sukkar, killed in an airstrike on Gaza City.

The two deadliest strikes killed eight people each: One strike Tuesday on the Hamad family home in southern Gaza, and another on Thursday on the Hajj family home in Khan Younis. Five youths were among the dead in the latter bombing.

Victims’ names and ages were compiled based on information released by the Gaza health ministry, while the circumstances of the deaths were taken from the ministry and local news sources.

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03/07/14

De um Desassossego só...

Cruzei-me com o Livro do Desassossego no primeiro ano de faculdade. Não sei como me terá ele escapado tanto tempo, mas talvez o momento seja sempre o certo.
Abri-o num autocarro vindo da Graça, li uma frase ao acaso e fechei-o. Aquela só frase chegar-me-ia para o dia inteiro. E foi assim durante as semanas que se seguiram. Uma frase por dia, uma página no máximo, e tudo o que se lhe seguiria seria comigo e com o meu próprio desassossego, nos meus cadernos por escrever, na minha vida por viver.

Passei ontem na livraria do Desassossego, no Chiado, e conheci o homem que sonhou criar um espaço para um só livro. Fê-lo primeiro em Oslo, agora na cidade do poeta que o escreveu. É um espaço sossessago de um desassossego só. E sentimo-nos por isso mesmo desassossegar sossegadamente. E isso é bom.

Obrigada, Livraria do Desassossego. Obrigada, Christian Kjelstrup.
Até sempre, Fernando Pessoa.

30/06/14

Parte de um Todo

“Um ser humano é parte de um todo, chamado por nós de “o Universo”, uma parte limitada em tempo e espaço. Ele experimenta a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto – um tipo de ilusão ótica de sua consciência. Essa ilusão é um tipo de prisão para nós, restringindo-nos a nossos desejos pessoais e à afeição a algumas poucas pessoas mais perto de nós. Nossa tarefa deve ser a de nos libertar dessa prisão aumentando nossos círculos de compaixão para abraçar todas as criaturas vivas e a natureza em toda sua beleza”.

Albert Einstein
29/06/14

Da história da Humanidade

Do pouco que se sabe, até ao momento, da história da Humanidade, podemos dizer que o Homem...


... começou por "trabalhar" para o seu sustento e o sustento dos seus, protegendo os mais novos e os mais fracos.







Com a fixação à terra, as comunidades cresceram, evoluíram. Pobres e escravos, mesmo que mais novos ou mais fracos, trabalhavam para proveito das classes mais favorecidas.





E assim foi durante mais tempo, mesmo quando os escravos deixaram de ser escravos, porque os pobres continuaram a ser pobres. De vez em quando nascia o sonho de igualdade: todos tinham de trabalhar para proveito de todos. Mas, independentemente do regime que o tentava, como contrariar a sede de poder? O favorecimento? A estratificação? Os pobres continuaram a trabalhar para os mais ricos. Os países menos desenvolvidos continuaram subjugados pelos mais ricos (ou apenas esquecidos por eles). Às vezes pela guerra. Às vezes pela economia.




Em muitos países continua a lutar-se pela sobrevivência. Continua a haver escravos. Pobres, muitos pobres. Enquanto, no mundo dito desenvolvido, homens e mulheres trabalham dia e noite para produzir aquilo de que precisam mas também aquilo que era perfeitamente dispensável, consumindo desenfreadamente os recursos da Terra e criando no Homem falsas necessidades que alimentam uma economia ilusória. Uma economia que ano após ano deixa o Homem cada vez mais vazio, no seu sentido de existir. Os mais fracos deixam de interessar porque não produzem. As crianças não nascem porque não há tempo para elas.




Ao contrário de certas sociedades animais perfeitamente organizadas, o Homem ainda não encontrou o seu modelo social. Multiplica-se sem um sentido, sem responsabilidade, sem capacidade de visão. O que quer efetivamente a Humanidade para si? Que modelo a faria feliz, de uma forma global, planetária? Adaptada ao seu meio ambiente, sem o destruir?
O que pode ser isso de espécie humana e o que pode cada um de nós fazer para o alcançar? Esta deveria ser a pergunta que abriria todos os telejornais e o tema de todos os debates. Porque é nesta simples pergunta, de tão complexa resposta, que reside a esperança que resta para a Humanidade...



26/06/14

Portugal precisa de crianças

Portugal precisa de crianças.
Há muito que soou o alarme: não temos crianças para uma saudável renovação de gerações. Nascem cada vez menos bebés por ano e a pirâmide está irremediavelmente invertida, o que nos trará graves problemas de sustentabilidade do nosso modelo social a médio e longo prazo.
Portugal precisa urgentemente de crianças. Mas ainda assim muito pouco ou nada tem sido feito para resolver o problema. As famílias continuam sem dinheiro para ter filhos, sem ter tempo para ter filhos. As leis continuam a não favorecer (na maioria dos casos até dificultam) aqueles que abdicam do seu tempo e do seu dinheiro (para mantermos a visão materialista do sistema instalado) para criar uma nova geração que vai ser o futuro do país. Claro que os benefícios emocionais são muitos, mas eles são mesmo o que resta a uns poucos teimosos que ainda querem pôr filhos neste mundo e vê-los crescer...

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal precisa de mudar e muito, se quer ter mais crianças. Precisa de olhar os pais como educares ao serviço do país e do mundo. Precisa de os incentivar a prosseguirem o seu trabalho e a darem o melhor de si. Financeiramente sim, também, mas o que os pais precisam, acima de tudo, é serem acarinhados e apoiados nas imensas responsabilidades que carregam às costas.
Portugal precisa de demonstrar aos pais que ainda não têm filhos que é uma imensa alegria conviver diariamente com uma criança. Que elas são o melhor do mundo e porquê. E garantir às futuras jovens mães e jovens pais que o país os ajudará nessa tarefa, dando-lhes condições para tal. Tornando essa experiência em algo maravilhosamente positivo, não num sacrifício desmesurado em prol de nada que o justifique.

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal precisa também de acarinhar cada uma das crianças que nascem e dizer-lhe que ela vai ser um orgulhoso cidadão do seu país, no qual poderá crescer de forma segura e saudável, desenvolver os seus talentos e um dia coloca-los ao serviço de todos, beneficiando também do melhor que os outros adultos (ex-crianças) terão para lhe dar.
Portugal precisa de dizer às suas crianças que não vai simplesmente empurra-la de escola em escola, um dia inteiro, só porque os pais têm de sair de casa de manhã e chegar noite dentro para sobreviverem. Precisa de dizer às suas crianças que não vão andar de escola em escola anos e anos para depois não terem qualquer lugar na sociedade, porque não haverá emprego, não haverá lugar para as suas potencialidades (que entretanto nem tiveram oportunidade de desenvolver), não haverá futuro. Precisa de dizer às suas crianças que vale a pena nascer e crescer porque a vida é uma experiência maravilhosa, por mais que os seus pais e avós já não acreditem na vida, muito menos no país que os viu nascer.

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal faz parte de um mundo e de um planeta esgotado, com excesso de população que consome, diariamente, os recursos da Terra sem qualquer sentido de responsabilidade. Por isso Portugal, se precisa de mais crianças, precisa também de reduzir o seu consumo energético per capita. Precisa de apostar nas energias renováveis e apelar a formas de vida menos consumistas, que contribuam para a sobrevivência do Planeta, lar de países como Portugal, lar de todos aqueles que nele habitam e todos aqueles que nele vierem a nascer.

Portugal precisa de crianças. Mas Portugal precisa sobretudo de crianças saudáveis. Por isso não pode continuar a permitir que todos os dias crianças consumam alimentos absolutamente nefastos para a sua saúde, que enchem as prateleiras de todos os supermercados, restaurantes e máquinas de consumo rápido, para proveito de umas quantas indústrias.
Portugal precisa de crianças. Mas nunca como hoje teve crianças a comer tão mal, que num futuro próximo serão adultos com problemas de saúde, diminuídos assim na sua capacidade produtiva, na sua vitalidade, na sua energia capaz de mudar o rumo do país e do mundo. Portugal, se quer ter mais crianças e crianças saudáveis, tem de apostar fortemente numa política de alimentação saudável que volte a valorizar os produtos que crescem nas nossas terras, nas nossas árvores, no nosso mar, em condições ambientais, elas próprias, saudáveis.

Portugal precisa de crianças. Mas precisa de olhar cada uma delas como um tesouro precioso, que já traz inscrito em si potencialidades imensas e únicas, que poderão vir a fazer toda a diferença no nosso mundo. Portugal precisa de pais que alimentem essas potencialidades com tempo, amor e paciência. E Portugal precisa de um sistema de ensino que puxe pelo melhor dessas crianças, não as coloque diariamente numa sala fechada com outras 30 crianças num ensino igual para todos, onde os professores são obrigados a dar programas extensíssimos e tantas vezes sem qualquer razão de ser, sem tempo para cuidar, com amor e paciência, de cada dos seus tesouros.
Portugal precisa de crianças. Mas de crianças que vivam a vida. Que trepem às árvores e experimentem aquilo que aprendem. Que aprendam a relacionar-se com os outros e a colaborarem com todos, complementando-se nas suas diferenças. Crianças que cresçam numa escola onde têm tempo para brincar. Onde as crianças não são esgotadas de forma a estarem absolutamente fartas da escola (esse que podia ser um lugar maravilhoso de conhecimento) aos 13 anos. Onde os professores sejam os seus grandes mestres, de conhecimentos específicos mas também da arte de viver, em vez de serem pessoas sacrificadas por um sistema que todos os dias os pressiona e descredibiliza.

Portugal precisa de crianças. Mas não basta ter crianças. Portugal precisa de mudar e mudar muito para receber essas crianças. Até porque, se Portugal não mudar o que tem de mudar as crianças não nascerão. As crianças não crescerão, pelo menos de forma saudável. As crianças não gostarão do país. As crianças fugirão do seu país. Em última instância, as crianças nem gostarão de viver, neste país ou noutro.

Portugal precisa de crianças. Mas as crianças precisam e muito que Portugal seja outro.
22/06/14

Da arte e da transcendência

Farejam como cães os corpos desnudos, deitados,
Aqui e ali buscando restos de gente incauta
Faltando a transcendência e o êxtase sempre adiados
Cobram aos instintos o ardor da carne, que a matéria pauta.

Ah, transcendência oca, êxtase húmido,
que no fugaz prazer lhes ilude os sentidos
rasga-lhes o peito, falsamente púdico
Preenche o vazio dos milagres não vividos.

(Quando Deus cuspiu o Homem
da sua morada eterna
Disse-lhe "Crê e a mim voltarás
Pinta e me verás
Compõe e me ouvirás
Escreve e me lerás
Os demais prazeres serão reduto da transcendência
Presente dos céus para a vida terrena
O verdadeiro êxtase, o da tua essência
Estará na fé, estará na arte, às vezes inquieta, às vezes serena)


Sou e sou outro

Sou eu e sou sempre outro
que me olha, quieto, como morto
Sussurra-me que sim
Sussurra-me que não
Esquerda, direita
Tudo é decisão.

Às vezes não se entendem,
eu e o outro
Ou talvez o outro seja já outros que o complementem
Ouço-os chamarem-me pelo nome
(coisas do Eu, ter por quem chamar)
Não fosse eu sentir-me fora de todos eles
Eu num outro, ainda por inventar.

Cedo, por fim, à chamada
Oiço, pacientemente
E para decidir procuro
O único que, em mim, não mente.
Fala-me direito ao coração
Sabe mais do que devia
(ou tudo o que eu, sem saber, sabia)
Acompanha-me com devoção
Até à hora em que a vida me finda.

Do escrever

Pergunto-me muitas vezes porque escrevo, se a vida nos oferece tantas outras formas de a vivermos. Mais úteis, mais saudáveis, mais felizes, não fosse viver sem escrever saber-me a culpa. A dever não cumprido. Faço-o por um não saber porquê que se multiplica em desculpas sem fundamento, não havendo, na verdade, fundamento algum para um é como é. Aceito. Penalizo-me se o recuso. E não me falem do já possa ter feito até então, porque de nada me importa. Às costas, carregarei sempre, quer queira quer não, o peso dos livros que ainda não escrevi...


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A escrita impõe-se-me num namoro demorado. Às vezes amo-a, às vezes cansa-me. Às vezes parto, às vezes vejo-a partir. Mas reencontramo-nos sempre num abraço eterno, num êxtase transcendente. Porque sim, porque não, não há explicação. Eu sou ela, ela sou eu, profecia ou acidente