"Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me não desvie isto o meu perigoso feitio demasiado unilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si."
Fernando Pessoa
Uma nova cultura
"Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. Desenvolvê-la, em todas as esferas da vida pública e privada, a começar pela educação, é o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que seja digno desse nome. Enquanto se colocarem a economia e as finanças acima da sabedoria, do amor, da compaixão e de leis que as expressem, produzir riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o afecta, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco acelerado de extinção."
(in "Quem é o meu Próximo?" de Paulo Borges, edições Mahatma)
(in "Quem é o meu Próximo?" de Paulo Borges, edições Mahatma)
Do homem
O homem luta não só, como os animais, pelo necessário, mas também pelo supérfluo.
(Aqui se mostra o mórbido.) A luta pelo supérfluo.
Fernand Pessoa
(Aqui se mostra o mórbido.) A luta pelo supérfluo.
Fernand Pessoa
Sentido é Êxtase
Mesmo na fase mais niilista da minha vida, quando procurava aceitar que os dias não fossem mais do que pequenos troços de um caminho sem sentido, não me revia na visão de Kafka sobre a sua experiência de ser. Não, não me sentia verdadeiramente eu quando estava insuportavelmente infeliz. Muito pelo contrário, era eu e verdadeiramente eu nos momentos de êxtase, de entrega completa, de arrebatamento por tudo quanto existe, de rendição absoluta ao milagre da vida. Era a fugacidade do êxtase o que me deixava vazia. Era a banalidade imposta o que me roubava o sentido. Por isso vivia na ânsia da experiência. Na busca permanente do novo. Procurava escapar à queda no niilismo correndo permanentemente para a ação. Não era vida. Era fuga. Parecia sentido. Mas era apenas uma forma de não pensar sobre ele.
Até que um dia, por razões que desconheço (talvez só porque a idade o tenha imposto) o meu corpo pediu-me que parasse. Estava cansado de me ver correr. Na fuga do niilismo, tornara-me não mais do que uma niilista ativa. Era tempo de perceber o que havia para além da ação. Para além da ausência absoluta de sentido.
O meu corpo arrastou-se então à varanda. Mostrou-me as estrelas que nunca tinha tempo para ver e que tinham afinal algo para me dizer. As árvores com os ramos balouçantes que nunca tinha tempo para escutar, e que queriam afinal revelar-me todas as verdades do mundo. Os pássaros a rasgar os céus. As flores coloridas que me beijavam os pés. A paz do silêncio. O êxtase da inação. Aquilo que me arrebatava o peito e me gerava sentido em todos os poros do meu corpo, estivera sempre ali, à minha frente. À minha volta, fora e dentro de mim, numa comunhão perfeita que era toda a razão do meu ser. De todos os seres.
Aquele era o verdadeiro êxtase da vida. Sentido todos os dias, a todo o momento, sempre que os meus olhos o quisessem observar e o meu coração o quisesse sentir. Sempre que me deixasse abraçar pela vida e levasse este abraço a todos aqueles e a tudo aquilo que comigo a partilham.
E hoje sinto-me insuportavelmente... feliz.
Até que um dia, por razões que desconheço (talvez só porque a idade o tenha imposto) o meu corpo pediu-me que parasse. Estava cansado de me ver correr. Na fuga do niilismo, tornara-me não mais do que uma niilista ativa. Era tempo de perceber o que havia para além da ação. Para além da ausência absoluta de sentido.
O meu corpo arrastou-se então à varanda. Mostrou-me as estrelas que nunca tinha tempo para ver e que tinham afinal algo para me dizer. As árvores com os ramos balouçantes que nunca tinha tempo para escutar, e que queriam afinal revelar-me todas as verdades do mundo. Os pássaros a rasgar os céus. As flores coloridas que me beijavam os pés. A paz do silêncio. O êxtase da inação. Aquilo que me arrebatava o peito e me gerava sentido em todos os poros do meu corpo, estivera sempre ali, à minha frente. À minha volta, fora e dentro de mim, numa comunhão perfeita que era toda a razão do meu ser. De todos os seres.
Aquele era o verdadeiro êxtase da vida. Sentido todos os dias, a todo o momento, sempre que os meus olhos o quisessem observar e o meu coração o quisesse sentir. Sempre que me deixasse abraçar pela vida e levasse este abraço a todos aqueles e a tudo aquilo que comigo a partilham.
E hoje sinto-me insuportavelmente... feliz.
Do olhar
"Neste cenário de todos os dias, e de um modo inteiramente inesperado (pois jamais havia sonhado com tal coisa), os meus olhos foram abertos e, pela primeira vez em toda a minha vida, tive um vislumbre da beleza extática da realidade...
(...) Não vi nenhuma coisa nova, mas vi todas as coisas habituais numa miraculosa luz nova - no que acredito ser a sua verdadeira luz. Vi pela primeira vez quão selvaticamente bela e jubilosa, para além de quaisquer palavras minhas para o descrever, é a totalidade da vida. Cada ser humano atravessando aquela varanda, cada pardal que voava, cada ramos oscilando ao vento, estava integrado e era parte do inteiro e louco êxtase de encanto, alegria, significância e embriaguez da vida.
Não que por uns poucos e excitados momentos eu imaginasse toda a existência como bela, mas, antes, a minha visão interna foi desbstruída para a verdade, de modo que vi o real encanto que está sempre aí, mas que tão raramente percepcionamos, e soube que todo o homem, mulher, ave ou árvore, toda a coisa viva diante de mim, era extravagantemente bela e extravagantemente importante. E, ao contemplar, o meu coração fundiu-se e abandonou-me num arrebatamente de amor e deleite. (...)
Uma vez, no meio de todos os cinzentos dias da minha vida, vi o coração da realidade; fui testemunha da verdade."
(in "Twenty Minutes of Reality" de Margaret Prescott Montague, 1915)
(...) Não vi nenhuma coisa nova, mas vi todas as coisas habituais numa miraculosa luz nova - no que acredito ser a sua verdadeira luz. Vi pela primeira vez quão selvaticamente bela e jubilosa, para além de quaisquer palavras minhas para o descrever, é a totalidade da vida. Cada ser humano atravessando aquela varanda, cada pardal que voava, cada ramos oscilando ao vento, estava integrado e era parte do inteiro e louco êxtase de encanto, alegria, significância e embriaguez da vida.
Não que por uns poucos e excitados momentos eu imaginasse toda a existência como bela, mas, antes, a minha visão interna foi desbstruída para a verdade, de modo que vi o real encanto que está sempre aí, mas que tão raramente percepcionamos, e soube que todo o homem, mulher, ave ou árvore, toda a coisa viva diante de mim, era extravagantemente bela e extravagantemente importante. E, ao contemplar, o meu coração fundiu-se e abandonou-me num arrebatamente de amor e deleite. (...)
Uma vez, no meio de todos os cinzentos dias da minha vida, vi o coração da realidade; fui testemunha da verdade."
(in "Twenty Minutes of Reality" de Margaret Prescott Montague, 1915)
Sonhei em poema
Sonhei em poema, um poema que nunca saberia escrever, que nunca saberia dizer.
Quem mo soprou, nessa noite alada, não sei descrever.
Criatura mágica, poeta, anjo
Disse-me em segredo o que eu precisava de saber.
Em poema, para que eu nunca mais o possa esquecer...
Quem mo soprou, nessa noite alada, não sei descrever.
Criatura mágica, poeta, anjo
Disse-me em segredo o que eu precisava de saber.
Em poema, para que eu nunca mais o possa esquecer...
A criança que há em nós
https://www.youtube.com/watch?v=sM1JJmuza6o
Para ver com carinho, de olhos postos na criança que existe em nós.
Talvez não precisemos de ser um Peter Pan. Mas talvez possamos pensar como poderá a nossa vida dar-nos um gozo maior. Como desfrutar das pequenas coisas, como aproveitar este grande privilégio que é ver o sol nascer todos os dias e a chuva encher a terra de renovada vida. Rir do riso das crianças. Abraçar alguém de quem se gosta. Correr ao lado do tonto do nosso cão que nos deixa a roupa toda suja.
A criança que há em nós não é demasiado inocente, imatura ou inconsequente. A criança que há em nós sabe amar só porque sim, sabe esquecer o que não importa, sabe usufruir de cada momento como se não houvesse outro. E isso, independentemente da fórmula da felicidade que cada um de nós encontra, é meio caminho andado para tudo fazer muito mais sentido...
Para ver com carinho, de olhos postos na criança que existe em nós.
Talvez não precisemos de ser um Peter Pan. Mas talvez possamos pensar como poderá a nossa vida dar-nos um gozo maior. Como desfrutar das pequenas coisas, como aproveitar este grande privilégio que é ver o sol nascer todos os dias e a chuva encher a terra de renovada vida. Rir do riso das crianças. Abraçar alguém de quem se gosta. Correr ao lado do tonto do nosso cão que nos deixa a roupa toda suja.
A criança que há em nós não é demasiado inocente, imatura ou inconsequente. A criança que há em nós sabe amar só porque sim, sabe esquecer o que não importa, sabe usufruir de cada momento como se não houvesse outro. E isso, independentemente da fórmula da felicidade que cada um de nós encontra, é meio caminho andado para tudo fazer muito mais sentido...
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