08/10/14

Carta de uma Célula

Querido ser,

Quem te fala é talvez a parte mais ínfima de ti, aquela que, de tão minúscula, tantas vezes esqueces, preocupado que estás com tudo aquilo que existe fora de ti. Mas eu sou tu e tu és eu. Desde o princípio de tudo, quando o nada deu lugar à matéria, e esse tudo se foi desfiando, como um gigantesco novelo de lã.
Memória desse tempo não tenho. Sou como tu: de tanto ter nascido e morrido, esqueço-me daquilo que aqui me trouxe. E nasço sempre como se fosse a primeira vez. Fundo-me, multiplico-me, estico, cresço, vivo e morro. Tu não pensas em mim como eu não penso em ti. Simplesmente deixo-me acontecer.
Mas hoje, querido ser, porque te lembraste de mim, eu lembrei-me de ti e lembrei-me de tudo. Porque há sempre um momento, no nosso percurso, em que precisamos de recordar o que somos e porque fazemos o que fazemos, vida após vida. É nesse singelo momento que tomamos consciência de tudo, do que já fomos, do que somos e do que temos para ser. Percebemos que somos insignificantes para o Todo, mas que essa insignificância é absolutamente significativa, para cada um de nós.
Hoje, quando olhaste para mim, eu estava a brincar com as minhas irmãs, com a alegria e a inocência que tu também tens dentro de ti (não te esqueças que tu és eu e eu sou tu). Rodopiámos umas com as outras, abraçámo-nos, mergulhámos e viemos ao de cima. Ouvias as nossas gargalhadas? As nossas gargalhadas são as tuas. Nós gargalhamos dentro de ti quando tu estás bem, repousado, feliz, em sintonia com o melhor de ti mesmo e o melhor de tudo aquilo que existe à tua volta.
Mas tu nem sempre és assim, lembras-te? Não te culpes, não fiques triste. Toma apenas consciência daquilo que és e daquilo que fazes. Sabes que sempre que te agrides, com palavras e ações, nós sofremos contigo. Imagina que estás serenamente a dar um mergulho na praia e de repente a terra à tua volta começa a agitar-se. Não sabes por que razão decidiu a Terra tremer, não sabes o que fazer, não sabes como pará-lo. E as águas onde te moves começam também a agitar-se violentamente. És arrastado por ondas gigantes e, à tua volta, assistes à morte e à destruição de tudo o que podia ser belo e harmonioso. Revoltas-te e perguntas porquê. Mas não há forma de voltar atrás. Apenas podes reconstruir-te nessas perdas, viveres tudo de novo, procurares outra vez a beleza e a harmonia que perdeste.
Assim vivo eu e as minhas irmãs dentro de ti. Na paz de tudo o que existe, até que decides agitar-te, provocar um terramoto ou deixar-te afetar por ele. É certo que às vezes não terás como evitá-lo. Às vezes estás apenas a ser vítima dos terramotos dos outros. Mas preciso que entendas que, sempre que te agitas, nós sofremos as consequências disso. A beleza e a harmonia de tudo aquilo que vivemos dentro de ti é quebrada. À minha volta, assisto à nossa destruição, que é também a tua destruição. Vejo as minhas irmãs a adoecerem e a morrerem, perguntando-se porquê. E eu pergunto-me porquê também. Por que tantas vezes te tentas destruir por dentro, com aquilo que comes, aquilo que consomes, a forma como vives, a forma como lidas com os outros, como geres os teus sentimentos e lidas com as tuas ações e as dos outros também.
Nós somos a tua vida, nós queremos dar-te vida, querido ser, mas quando nos destróis, é possível que não te consigamos salvar. E nós tentamos – como tentamos! Como uma guerra, dizemos umas às outras que temos de lutar por ti. Unimo-nos, esforçamo-nos. Mas sabes que às vezes as guerras cansam e o entusiasmo esmorece. Às vezes as minhas irmãs perdem as forças e desistem de lutar. Desertam. Ou simplesmente deixam-se morrer, e a morte alastra-se como uma praga. Deixamos de ter forma de lutar e morremos todas contigo.
Outras vezes, cansadas de lutar, algumas das minhas irmãs revoltam-se. Fazem de tudo para te chamar a atenção. Atacam-te aqui e ali, manifestam-se, provocam-te dor e sofrimento. Gritam-te que pares, mas tu nem sempre consegues entender. Não paras para nos ouvir. Queixas-te ao mundo do que se passa dentro de ti, quando nós suplicamos, cá dentro, que nos ajudes a salvar-te. Que mudes o que tens de mudar, para continuarmos a ser o que sempre fomos, o que tanto podemos vir a ser.
Claro que um dia morrerás e nós morreremos contigo. Existimos para isso mesmo, para nos renovarmos a cada dia, em cada vida. Mas nós trabalhamos com alegria para que tu possas experimentar todas as alegrias da existência. Para que tu possas rir, brincar a abraçar o mundo como nós te abraçamos, dentro de ti. Não podemos evitar a morte, a tua e a nossa contigo. Mas podemos dar sentido a cada dia da nossa existência. Usufruindo em pleno dessa grande alegria que é viver cada momento.
Por isso te peço, querido ser, cuida de nós o melhor que puderes, para que nós te possamos ajudar a seres quem tu podes ser. Escuta-nos, dialoga connosco e protege-nos das agressões que puderes, para que nós possamos também proteger-te daquelas que não puderes evitar.

A sempre tua,
Célula

03/10/14

Da educação

"Toda a educação só tem um fim, que é o de preparar-nos para a vida. A existência de todos nós se caracteriza por relações com nossos semelhantes e quanto mais culto é o homem, mais apto deveria estar para conciliar sua vida à daqueles que o cercam. O povo de Natal, infelizmente, acreditava que o importante eram as coisas de ordem prática, a habilidade de fazer uma operação aritmética ou escrever uma sentença, sendo o mundo das humanidades relegado à condição de um sentimentalismo piegas."

W.H.Nicholas, professor de latim de Fernando Pessoa em Durban, no seu discurso de despedida da escola onde leccionou durante 30 anos.
01/10/14

Da música e da transcendência

Entendendo o ato criativo como uma antena que capta diferentes olhares sobre a vida e sobre o mundo, poderemos dizer que existe uma “orientação” perfeita, a que se sintonizaria com a Verdade Sagrada, nas suas mais diversas formas de expressão. Talvez nunca o artista o consiga completamente porque, como qualquer homem, vive uma experiência de aproximação, de tentativa e erro, de evolução. Mas a arte é essencialmente essa busca, e a música, em particular, essa tentativa de perfeição e harmonia com o mais sagrado que há em nós. E, nessa dimensão, deveria ser encarada sempre por uma possível e válida contribuição para a construção de um mundo melhor. Como costumo dizer, se um dia alguém colocasse no espaço um altifalante gigante que permitisse a toda a Humanidade escutar a mesma música, em simultâneo, talvez nesse singular momento entendêssemos finalmente que somos todos Um, uma mesma espécie tocada pela mesma capacidade de Êxtase e Transcendência. Uma mesma espécie que poderia e deveria buscar em conjunto o melhor que tem para dar.

E um Feliz Dia da Música!

16/09/14

Regresso a mim

"Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me não desvie isto o meu perigoso feitio demasiado unilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si."
Fernando Pessoa
15/09/14

Uma nova cultura

"Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. Desenvolvê-la, em todas as esferas da vida pública e privada, a começar pela educação, é o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que seja digno desse nome. Enquanto se colocarem a economia e as finanças acima da sabedoria, do amor, da compaixão e de leis que as expressem, produzir riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o afecta, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco acelerado de extinção."

(in "Quem é o meu Próximo?" de Paulo Borges, edições Mahatma)

13/09/14

Do homem

O homem luta não só, como os animais, pelo necessário, mas também pelo supérfluo.
(Aqui se mostra o mórbido.) A luta pelo supérfluo.


Fernand Pessoa

Sentido é Êxtase

Mesmo na fase mais niilista da minha vida, quando procurava aceitar que os dias não fossem mais do que pequenos troços de um caminho sem sentido, não me revia na visão de Kafka sobre a sua experiência de ser. Não, não me sentia verdadeiramente eu quando estava insuportavelmente infeliz. Muito pelo contrário, era eu e verdadeiramente eu nos momentos de êxtase, de entrega completa, de arrebatamento por tudo quanto existe, de rendição absoluta ao milagre da vida. Era a fugacidade do êxtase o que me deixava vazia. Era a banalidade imposta o que me roubava o sentido. Por isso vivia na ânsia da experiência. Na busca permanente do novo. Procurava escapar à queda no niilismo correndo permanentemente para a ação. Não era vida. Era fuga. Parecia sentido. Mas era apenas uma forma de não pensar sobre ele.
Até que um dia, por razões que desconheço (talvez só porque a idade o tenha imposto) o meu corpo pediu-me que parasse. Estava cansado de me ver correr. Na fuga do niilismo, tornara-me não mais do que uma niilista ativa. Era tempo de perceber o que havia para além da ação. Para além da ausência absoluta de sentido.
O meu corpo arrastou-se então à varanda. Mostrou-me as estrelas que nunca tinha tempo para ver e que tinham afinal algo para me dizer. As árvores com os ramos balouçantes que nunca tinha tempo para escutar, e que queriam afinal revelar-me todas as verdades do mundo. Os pássaros a rasgar os céus. As flores coloridas que me beijavam os pés. A paz do silêncio. O êxtase da inação. Aquilo que me arrebatava o peito e me gerava sentido em todos os poros do meu corpo, estivera sempre ali, à minha frente. À minha volta, fora e dentro de mim, numa comunhão perfeita que era toda a razão do meu ser. De todos os seres.
Aquele era o verdadeiro êxtase da vida. Sentido todos os dias, a todo o momento, sempre que os meus olhos o quisessem observar e o meu coração o quisesse sentir. Sempre que me deixasse abraçar pela vida e levasse este abraço a todos aqueles e a tudo aquilo que comigo a partilham.
E hoje sinto-me insuportavelmente... feliz.