17/10/14

Do antropocentrismo

O antropocentrismo desmistifica-se à medida que conhecemos as nossas barreiras temporais e geográficas.
Se o universo existisse para servir o Homem, porque teria ele nascido há 13,7 mil milhões de anos, se o Homem apareceu apenas há 1,8 milhões?
E para quê um universo tão grande, para uma espécie que apenas sabia, na sua génese, caminhar sobre a Terra?

A Terra e todas as suas criaturas, o Universo e todas as suas criaturas, não existem apenas para satisfazer as necessidades do Homem. Pelo contrário, quanto mais o Homem se sentir parte do Todo, na humildade da sua existência, mais próximo se sentirá do verdadeiro propósito de Viver.

16/10/14

Como irmãos

"Rabi Pinchas perguntou aos seus discípulos como é que se reconhece o momento em que acaba a noite e começa o dia: "É o momento em que há luz suficiente para distinguir um cão de um carneiro?", perguntou um dos discípulos. "Não, respondeu o rabi". "É o momento em que conseguimos distinguir uma tamareira de uma figueira?", perguntou o segundo. "Não, também não é esse momento", replicou o rabi. "Então é, quando chega a manhã?", perguntaram os discípulos. "É no momento em que olhamos para o rosto de qualquer pessoa e a reconhecemos como nosso irmão ou irmã", replicou o rabi Pinchas. E concluiu: "Enquanto não o conseguirmos, continua a ser noite".

In A noite do confessor, Tomas Halik
08/10/14

Carta de uma Célula

Querido ser,

Quem te fala é talvez a parte mais ínfima de ti, aquela que, de tão minúscula, tantas vezes esqueces, preocupado que estás com tudo aquilo que existe fora de ti. Mas eu sou tu e tu és eu. Desde o princípio de tudo, quando o nada deu lugar à matéria, e esse tudo se foi desfiando, como um gigantesco novelo de lã.
Memória desse tempo não tenho. Sou como tu: de tanto ter nascido e morrido, esqueço-me daquilo que aqui me trouxe. E nasço sempre como se fosse a primeira vez. Fundo-me, multiplico-me, estico, cresço, vivo e morro. Tu não pensas em mim como eu não penso em ti. Simplesmente deixo-me acontecer.
Mas hoje, querido ser, porque te lembraste de mim, eu lembrei-me de ti e lembrei-me de tudo. Porque há sempre um momento, no nosso percurso, em que precisamos de recordar o que somos e porque fazemos o que fazemos, vida após vida. É nesse singelo momento que tomamos consciência de tudo, do que já fomos, do que somos e do que temos para ser. Percebemos que somos insignificantes para o Todo, mas que essa insignificância é absolutamente significativa, para cada um de nós.
Hoje, quando olhaste para mim, eu estava a brincar com as minhas irmãs, com a alegria e a inocência que tu também tens dentro de ti (não te esqueças que tu és eu e eu sou tu). Rodopiámos umas com as outras, abraçámo-nos, mergulhámos e viemos ao de cima. Ouvias as nossas gargalhadas? As nossas gargalhadas são as tuas. Nós gargalhamos dentro de ti quando tu estás bem, repousado, feliz, em sintonia com o melhor de ti mesmo e o melhor de tudo aquilo que existe à tua volta.
Mas tu nem sempre és assim, lembras-te? Não te culpes, não fiques triste. Toma apenas consciência daquilo que és e daquilo que fazes. Sabes que sempre que te agrides, com palavras e ações, nós sofremos contigo. Imagina que estás serenamente a dar um mergulho na praia e de repente a terra à tua volta começa a agitar-se. Não sabes por que razão decidiu a Terra tremer, não sabes o que fazer, não sabes como pará-lo. E as águas onde te moves começam também a agitar-se violentamente. És arrastado por ondas gigantes e, à tua volta, assistes à morte e à destruição de tudo o que podia ser belo e harmonioso. Revoltas-te e perguntas porquê. Mas não há forma de voltar atrás. Apenas podes reconstruir-te nessas perdas, viveres tudo de novo, procurares outra vez a beleza e a harmonia que perdeste.
Assim vivo eu e as minhas irmãs dentro de ti. Na paz de tudo o que existe, até que decides agitar-te, provocar um terramoto ou deixar-te afetar por ele. É certo que às vezes não terás como evitá-lo. Às vezes estás apenas a ser vítima dos terramotos dos outros. Mas preciso que entendas que, sempre que te agitas, nós sofremos as consequências disso. A beleza e a harmonia de tudo aquilo que vivemos dentro de ti é quebrada. À minha volta, assisto à nossa destruição, que é também a tua destruição. Vejo as minhas irmãs a adoecerem e a morrerem, perguntando-se porquê. E eu pergunto-me porquê também. Por que tantas vezes te tentas destruir por dentro, com aquilo que comes, aquilo que consomes, a forma como vives, a forma como lidas com os outros, como geres os teus sentimentos e lidas com as tuas ações e as dos outros também.
Nós somos a tua vida, nós queremos dar-te vida, querido ser, mas quando nos destróis, é possível que não te consigamos salvar. E nós tentamos – como tentamos! Como uma guerra, dizemos umas às outras que temos de lutar por ti. Unimo-nos, esforçamo-nos. Mas sabes que às vezes as guerras cansam e o entusiasmo esmorece. Às vezes as minhas irmãs perdem as forças e desistem de lutar. Desertam. Ou simplesmente deixam-se morrer, e a morte alastra-se como uma praga. Deixamos de ter forma de lutar e morremos todas contigo.
Outras vezes, cansadas de lutar, algumas das minhas irmãs revoltam-se. Fazem de tudo para te chamar a atenção. Atacam-te aqui e ali, manifestam-se, provocam-te dor e sofrimento. Gritam-te que pares, mas tu nem sempre consegues entender. Não paras para nos ouvir. Queixas-te ao mundo do que se passa dentro de ti, quando nós suplicamos, cá dentro, que nos ajudes a salvar-te. Que mudes o que tens de mudar, para continuarmos a ser o que sempre fomos, o que tanto podemos vir a ser.
Claro que um dia morrerás e nós morreremos contigo. Existimos para isso mesmo, para nos renovarmos a cada dia, em cada vida. Mas nós trabalhamos com alegria para que tu possas experimentar todas as alegrias da existência. Para que tu possas rir, brincar a abraçar o mundo como nós te abraçamos, dentro de ti. Não podemos evitar a morte, a tua e a nossa contigo. Mas podemos dar sentido a cada dia da nossa existência. Usufruindo em pleno dessa grande alegria que é viver cada momento.
Por isso te peço, querido ser, cuida de nós o melhor que puderes, para que nós te possamos ajudar a seres quem tu podes ser. Escuta-nos, dialoga connosco e protege-nos das agressões que puderes, para que nós possamos também proteger-te daquelas que não puderes evitar.

A sempre tua,
Célula

03/10/14

Da educação

"Toda a educação só tem um fim, que é o de preparar-nos para a vida. A existência de todos nós se caracteriza por relações com nossos semelhantes e quanto mais culto é o homem, mais apto deveria estar para conciliar sua vida à daqueles que o cercam. O povo de Natal, infelizmente, acreditava que o importante eram as coisas de ordem prática, a habilidade de fazer uma operação aritmética ou escrever uma sentença, sendo o mundo das humanidades relegado à condição de um sentimentalismo piegas."

W.H.Nicholas, professor de latim de Fernando Pessoa em Durban, no seu discurso de despedida da escola onde leccionou durante 30 anos.
01/10/14

Da música e da transcendência

Entendendo o ato criativo como uma antena que capta diferentes olhares sobre a vida e sobre o mundo, poderemos dizer que existe uma “orientação” perfeita, a que se sintonizaria com a Verdade Sagrada, nas suas mais diversas formas de expressão. Talvez nunca o artista o consiga completamente porque, como qualquer homem, vive uma experiência de aproximação, de tentativa e erro, de evolução. Mas a arte é essencialmente essa busca, e a música, em particular, essa tentativa de perfeição e harmonia com o mais sagrado que há em nós. E, nessa dimensão, deveria ser encarada sempre por uma possível e válida contribuição para a construção de um mundo melhor. Como costumo dizer, se um dia alguém colocasse no espaço um altifalante gigante que permitisse a toda a Humanidade escutar a mesma música, em simultâneo, talvez nesse singular momento entendêssemos finalmente que somos todos Um, uma mesma espécie tocada pela mesma capacidade de Êxtase e Transcendência. Uma mesma espécie que poderia e deveria buscar em conjunto o melhor que tem para dar.

E um Feliz Dia da Música!

16/09/14

Regresso a mim

"Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me não desvie isto o meu perigoso feitio demasiado unilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si."
Fernando Pessoa
15/09/14

Uma nova cultura

"Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. Desenvolvê-la, em todas as esferas da vida pública e privada, a começar pela educação, é o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que seja digno desse nome. Enquanto se colocarem a economia e as finanças acima da sabedoria, do amor, da compaixão e de leis que as expressem, produzir riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o afecta, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco acelerado de extinção."

(in "Quem é o meu Próximo?" de Paulo Borges, edições Mahatma)