Calem-se!
Calem-se todos, por favor...
Deixem-me ouvir o sossego da noite
A paz do vento forte nas copas das árvores
O silêncio dos pássaros que piam na escuridão
A tranquilidade das águas que batem com força na areia da praia...
E até os lobos da montanha uivando lá longe... que silêncio me trazem!
Carros, televisão, aviões, e gente, tanta gente que não se cala só por não ter nada por dizer...
Calem-se!
Calem-se todos, por favor...
Quero a vida de volta
A das árvores, dos rios, dos pássaros, das águas e dos lobos
A de tudo o que existe no barulho natural da existência
Só porque sim!
Sem os gritos do ego
O barulho da distração
Sem esse apito ininterrupto da tentação
Calem!
Calem-se todos, por favor...
Ou a terra vos engolirá para que não gritem mais.
Do silêncio vieste, ao silêncio tornarás
Porque a paz é eterna. Só tu vens, só tu vais...
Do 8 e das suas metades
A metade de um 8 - cortado verticalmente - não é um 4, é um 3.
Dar apenas uma parte de nós, enfraquece-nos.
Somos um ser inteiro, com talentos e possibilidades. Se, por vergonha, medo de falhar, medo de brilhar, nos entregarmos à vida pela metade, nem uma metade seremos...
Dar apenas uma parte de nós, enfraquece-nos.
Somos um ser inteiro, com talentos e possibilidades. Se, por vergonha, medo de falhar, medo de brilhar, nos entregarmos à vida pela metade, nem uma metade seremos...
Do escrever
Escrevo o que sinto, não para que tu o sintas.
Escrevo-o, porque tu o sentes também.
E assim a escrita é esse palavrizar que nos une a todos, naquilo que, para além de todas as diferenças, somos comoventemente em comum...
Escrevo-o, porque tu o sentes também.
E assim a escrita é esse palavrizar que nos une a todos, naquilo que, para além de todas as diferenças, somos comoventemente em comum...
Gatos, vocês o que são?
Onde quer que eu escreva, sempre por perto, a velarem-me as palavras...
Abro-lhes a janela e grito "vão"! Quantos telhados por galgar, quantas aventuras por descobrir...
Mas ficam, quais poetas do sono, embalados nas aventuras da minha imaginação.
Um dia, deixo-vos as palavras e fujo eu para o telhado. Ou então adormeço aos vossos pés, enquanto vos oiço, teclando aqui e ali, experimentar vidas, desfiar a emoção.
Gatos... agora a sério... Vocês o que são?
Abro-lhes a janela e grito "vão"! Quantos telhados por galgar, quantas aventuras por descobrir...
Mas ficam, quais poetas do sono, embalados nas aventuras da minha imaginação.
Um dia, deixo-vos as palavras e fujo eu para o telhado. Ou então adormeço aos vossos pés, enquanto vos oiço, teclando aqui e ali, experimentar vidas, desfiar a emoção.
Gatos... agora a sério... Vocês o que são?
Do antropocentrismo
O antropocentrismo desmistifica-se à medida que conhecemos as nossas barreiras temporais e geográficas.
Se o universo existisse para servir o Homem, porque teria ele nascido há 13,7 mil milhões de anos, se o Homem apareceu apenas há 1,8 milhões?
E para quê um universo tão grande, para uma espécie que apenas sabia, na sua génese, caminhar sobre a Terra?
A Terra e todas as suas criaturas, o Universo e todas as suas criaturas, não existem apenas para satisfazer as necessidades do Homem. Pelo contrário, quanto mais o Homem se sentir parte do Todo, na humildade da sua existência, mais próximo se sentirá do verdadeiro propósito de Viver.
Se o universo existisse para servir o Homem, porque teria ele nascido há 13,7 mil milhões de anos, se o Homem apareceu apenas há 1,8 milhões?
E para quê um universo tão grande, para uma espécie que apenas sabia, na sua génese, caminhar sobre a Terra?
A Terra e todas as suas criaturas, o Universo e todas as suas criaturas, não existem apenas para satisfazer as necessidades do Homem. Pelo contrário, quanto mais o Homem se sentir parte do Todo, na humildade da sua existência, mais próximo se sentirá do verdadeiro propósito de Viver.
Como irmãos
"Rabi Pinchas perguntou aos seus discípulos como é que se reconhece o momento em que acaba a noite e começa o dia: "É o momento em que há luz suficiente para distinguir um cão de um carneiro?", perguntou um dos discípulos. "Não, respondeu o rabi". "É o momento em que conseguimos distinguir uma tamareira de uma figueira?", perguntou o segundo. "Não, também não é esse momento", replicou o rabi. "Então é, quando chega a manhã?", perguntaram os discípulos. "É no momento em que olhamos para o rosto de qualquer pessoa e a reconhecemos como nosso irmão ou irmã", replicou o rabi Pinchas. E concluiu: "Enquanto não o conseguirmos, continua a ser noite".
In A noite do confessor, Tomas Halik
In A noite do confessor, Tomas Halik
Carta de uma Célula
Querido ser,
Quem te fala é talvez a parte mais ínfima de ti, aquela que, de tão minúscula, tantas vezes esqueces, preocupado que estás com tudo aquilo que existe fora de ti. Mas eu sou tu e tu és eu. Desde o princípio de tudo, quando o nada deu lugar à matéria, e esse tudo se foi desfiando, como um gigantesco novelo de lã.
Memória desse tempo não tenho. Sou como tu: de tanto ter nascido e morrido, esqueço-me daquilo que aqui me trouxe. E nasço sempre como se fosse a primeira vez. Fundo-me, multiplico-me, estico, cresço, vivo e morro. Tu não pensas em mim como eu não penso em ti. Simplesmente deixo-me acontecer.
Mas hoje, querido ser, porque te lembraste de mim, eu lembrei-me de ti e lembrei-me de tudo. Porque há sempre um momento, no nosso percurso, em que precisamos de recordar o que somos e porque fazemos o que fazemos, vida após vida. É nesse singelo momento que tomamos consciência de tudo, do que já fomos, do que somos e do que temos para ser. Percebemos que somos insignificantes para o Todo, mas que essa insignificância é absolutamente significativa, para cada um de nós.
Hoje, quando olhaste para mim, eu estava a brincar com as minhas irmãs, com a alegria e a inocência que tu também tens dentro de ti (não te esqueças que tu és eu e eu sou tu). Rodopiámos umas com as outras, abraçámo-nos, mergulhámos e viemos ao de cima. Ouvias as nossas gargalhadas? As nossas gargalhadas são as tuas. Nós gargalhamos dentro de ti quando tu estás bem, repousado, feliz, em sintonia com o melhor de ti mesmo e o melhor de tudo aquilo que existe à tua volta.
Mas tu nem sempre és assim, lembras-te? Não te culpes, não fiques triste. Toma apenas consciência daquilo que és e daquilo que fazes. Sabes que sempre que te agrides, com palavras e ações, nós sofremos contigo. Imagina que estás serenamente a dar um mergulho na praia e de repente a terra à tua volta começa a agitar-se. Não sabes por que razão decidiu a Terra tremer, não sabes o que fazer, não sabes como pará-lo. E as águas onde te moves começam também a agitar-se violentamente. És arrastado por ondas gigantes e, à tua volta, assistes à morte e à destruição de tudo o que podia ser belo e harmonioso. Revoltas-te e perguntas porquê. Mas não há forma de voltar atrás. Apenas podes reconstruir-te nessas perdas, viveres tudo de novo, procurares outra vez a beleza e a harmonia que perdeste.
Assim vivo eu e as minhas irmãs dentro de ti. Na paz de tudo o que existe, até que decides agitar-te, provocar um terramoto ou deixar-te afetar por ele. É certo que às vezes não terás como evitá-lo. Às vezes estás apenas a ser vítima dos terramotos dos outros. Mas preciso que entendas que, sempre que te agitas, nós sofremos as consequências disso. A beleza e a harmonia de tudo aquilo que vivemos dentro de ti é quebrada. À minha volta, assisto à nossa destruição, que é também a tua destruição. Vejo as minhas irmãs a adoecerem e a morrerem, perguntando-se porquê. E eu pergunto-me porquê também. Por que tantas vezes te tentas destruir por dentro, com aquilo que comes, aquilo que consomes, a forma como vives, a forma como lidas com os outros, como geres os teus sentimentos e lidas com as tuas ações e as dos outros também.
Nós somos a tua vida, nós queremos dar-te vida, querido ser, mas quando nos destróis, é possível que não te consigamos salvar. E nós tentamos – como tentamos! Como uma guerra, dizemos umas às outras que temos de lutar por ti. Unimo-nos, esforçamo-nos. Mas sabes que às vezes as guerras cansam e o entusiasmo esmorece. Às vezes as minhas irmãs perdem as forças e desistem de lutar. Desertam. Ou simplesmente deixam-se morrer, e a morte alastra-se como uma praga. Deixamos de ter forma de lutar e morremos todas contigo.
Outras vezes, cansadas de lutar, algumas das minhas irmãs revoltam-se. Fazem de tudo para te chamar a atenção. Atacam-te aqui e ali, manifestam-se, provocam-te dor e sofrimento. Gritam-te que pares, mas tu nem sempre consegues entender. Não paras para nos ouvir. Queixas-te ao mundo do que se passa dentro de ti, quando nós suplicamos, cá dentro, que nos ajudes a salvar-te. Que mudes o que tens de mudar, para continuarmos a ser o que sempre fomos, o que tanto podemos vir a ser.
Claro que um dia morrerás e nós morreremos contigo. Existimos para isso mesmo, para nos renovarmos a cada dia, em cada vida. Mas nós trabalhamos com alegria para que tu possas experimentar todas as alegrias da existência. Para que tu possas rir, brincar a abraçar o mundo como nós te abraçamos, dentro de ti. Não podemos evitar a morte, a tua e a nossa contigo. Mas podemos dar sentido a cada dia da nossa existência. Usufruindo em pleno dessa grande alegria que é viver cada momento.
Por isso te peço, querido ser, cuida de nós o melhor que puderes, para que nós te possamos ajudar a seres quem tu podes ser. Escuta-nos, dialoga connosco e protege-nos das agressões que puderes, para que nós possamos também proteger-te daquelas que não puderes evitar.
A sempre tua,
Célula
Quem te fala é talvez a parte mais ínfima de ti, aquela que, de tão minúscula, tantas vezes esqueces, preocupado que estás com tudo aquilo que existe fora de ti. Mas eu sou tu e tu és eu. Desde o princípio de tudo, quando o nada deu lugar à matéria, e esse tudo se foi desfiando, como um gigantesco novelo de lã.
Memória desse tempo não tenho. Sou como tu: de tanto ter nascido e morrido, esqueço-me daquilo que aqui me trouxe. E nasço sempre como se fosse a primeira vez. Fundo-me, multiplico-me, estico, cresço, vivo e morro. Tu não pensas em mim como eu não penso em ti. Simplesmente deixo-me acontecer.
Mas hoje, querido ser, porque te lembraste de mim, eu lembrei-me de ti e lembrei-me de tudo. Porque há sempre um momento, no nosso percurso, em que precisamos de recordar o que somos e porque fazemos o que fazemos, vida após vida. É nesse singelo momento que tomamos consciência de tudo, do que já fomos, do que somos e do que temos para ser. Percebemos que somos insignificantes para o Todo, mas que essa insignificância é absolutamente significativa, para cada um de nós.
Hoje, quando olhaste para mim, eu estava a brincar com as minhas irmãs, com a alegria e a inocência que tu também tens dentro de ti (não te esqueças que tu és eu e eu sou tu). Rodopiámos umas com as outras, abraçámo-nos, mergulhámos e viemos ao de cima. Ouvias as nossas gargalhadas? As nossas gargalhadas são as tuas. Nós gargalhamos dentro de ti quando tu estás bem, repousado, feliz, em sintonia com o melhor de ti mesmo e o melhor de tudo aquilo que existe à tua volta.
Mas tu nem sempre és assim, lembras-te? Não te culpes, não fiques triste. Toma apenas consciência daquilo que és e daquilo que fazes. Sabes que sempre que te agrides, com palavras e ações, nós sofremos contigo. Imagina que estás serenamente a dar um mergulho na praia e de repente a terra à tua volta começa a agitar-se. Não sabes por que razão decidiu a Terra tremer, não sabes o que fazer, não sabes como pará-lo. E as águas onde te moves começam também a agitar-se violentamente. És arrastado por ondas gigantes e, à tua volta, assistes à morte e à destruição de tudo o que podia ser belo e harmonioso. Revoltas-te e perguntas porquê. Mas não há forma de voltar atrás. Apenas podes reconstruir-te nessas perdas, viveres tudo de novo, procurares outra vez a beleza e a harmonia que perdeste.
Assim vivo eu e as minhas irmãs dentro de ti. Na paz de tudo o que existe, até que decides agitar-te, provocar um terramoto ou deixar-te afetar por ele. É certo que às vezes não terás como evitá-lo. Às vezes estás apenas a ser vítima dos terramotos dos outros. Mas preciso que entendas que, sempre que te agitas, nós sofremos as consequências disso. A beleza e a harmonia de tudo aquilo que vivemos dentro de ti é quebrada. À minha volta, assisto à nossa destruição, que é também a tua destruição. Vejo as minhas irmãs a adoecerem e a morrerem, perguntando-se porquê. E eu pergunto-me porquê também. Por que tantas vezes te tentas destruir por dentro, com aquilo que comes, aquilo que consomes, a forma como vives, a forma como lidas com os outros, como geres os teus sentimentos e lidas com as tuas ações e as dos outros também.
Nós somos a tua vida, nós queremos dar-te vida, querido ser, mas quando nos destróis, é possível que não te consigamos salvar. E nós tentamos – como tentamos! Como uma guerra, dizemos umas às outras que temos de lutar por ti. Unimo-nos, esforçamo-nos. Mas sabes que às vezes as guerras cansam e o entusiasmo esmorece. Às vezes as minhas irmãs perdem as forças e desistem de lutar. Desertam. Ou simplesmente deixam-se morrer, e a morte alastra-se como uma praga. Deixamos de ter forma de lutar e morremos todas contigo.
Outras vezes, cansadas de lutar, algumas das minhas irmãs revoltam-se. Fazem de tudo para te chamar a atenção. Atacam-te aqui e ali, manifestam-se, provocam-te dor e sofrimento. Gritam-te que pares, mas tu nem sempre consegues entender. Não paras para nos ouvir. Queixas-te ao mundo do que se passa dentro de ti, quando nós suplicamos, cá dentro, que nos ajudes a salvar-te. Que mudes o que tens de mudar, para continuarmos a ser o que sempre fomos, o que tanto podemos vir a ser.
Claro que um dia morrerás e nós morreremos contigo. Existimos para isso mesmo, para nos renovarmos a cada dia, em cada vida. Mas nós trabalhamos com alegria para que tu possas experimentar todas as alegrias da existência. Para que tu possas rir, brincar a abraçar o mundo como nós te abraçamos, dentro de ti. Não podemos evitar a morte, a tua e a nossa contigo. Mas podemos dar sentido a cada dia da nossa existência. Usufruindo em pleno dessa grande alegria que é viver cada momento.
Por isso te peço, querido ser, cuida de nós o melhor que puderes, para que nós te possamos ajudar a seres quem tu podes ser. Escuta-nos, dialoga connosco e protege-nos das agressões que puderes, para que nós possamos também proteger-te daquelas que não puderes evitar.
A sempre tua,
Célula
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