30/04/15

Da arte e da Saudade

A arte não nos rouba a saudade, mas materializa-a, e a materialização é sempre uma forma (a forma humana) de eternização.

Neste mundo em que nada é eterno, acredito a arte é a eternidade possível...

Ao Francisco e ao seu irmão Manuel Guerra, o meu OBRIGADA!


21/03/15

Da Poesia que descia em mim

Quando, na minha juventude, as palavras me pediam que as escrevesse, vestia um vestido branco e fugia para o terraço de minha casa, para as escrever à luz das estrelas. Era o meu vestido da poesia. Aquele que me transformava num corpo qualquer sem nome sem rosto, sem passado nem futuro, capaz de albergar, por isso mesmo, todas as vidas que nele quisessem habitar. Que através dele quisessem escrever-se neste mundo...
Enfiada no meu vestido da poesia, eu não era mais eu. Tão pouco as palavras eram minhas. Talvez por isso nunca me tenha sentido poeta, mas apenas alguém a quem, por vezes, por razões que eu desconhecia, descia da terra da poesia um qualquer poema que eu rabiscava, o melhor que podia e sabia...

A todos os Poetas (os que o são de facto, os que são às vezes, os que foram uma vez que fosse nesta vida), a todos os Poemas (melhores, piores, inacabados ou que ficaram por escrever) e a todos os Leitores (finalidade última de todas as palavras)... um Feliz Dia da Poesia!

20/03/15

Do Nada e do Tudo Perfeito-Imperfeito que Somos

Sinto em mim o odor da terra. O canto dos pássaros. O brotar das sementes.
Sou gota das chuva de Março. Sou vento morno. Bafo.
E sou Terra. Terra que gira, que sente, que dança em torno do Sol que a ilumina, de mãos dadas com a Lua. Dia, Noite, Chuva, Frio, Calor, Odor, Amor. Sou Terra que ama o que dela nasce e todas as criaturas que dela vivem. Até as criaturas que a destroem, sem entender que não são nada sem ela. Sem mim.
Sou Terra que ama também o que, fora de mim, continuará a existir, mesmo que um dia eu definhe. Sou Terra que ama o movimento dos planetas, a sintonia das galáxias, e toda a perfeição do universo a que pertenço. Quantos universos, fora deste, existirão? Quantas dimensões paralelas e tantas outras coisas que desconheço? E, nos meus 510 milhões de Km2, sinto-me uma pequena gota num poderoso oceano.
Depois volto a mim. 50 kgs de gente. E penso que nada de nada justifica o mal que se faz pela importância que se dá a tudo aquilo que, na verdade, não tem importância alguma. A experiência da Vida é este existir. Este sentir. Este usufruir. Abraçando cada canto desta Terra e Amando cada uma das criaturas que habita connosco este minúsculo cantinho do Universo.
Não sendo eu nada, creio ser esta a única forma de ser tudo aquilo que importa...
"Sinto em mim o odor da terra. O canto dos pássaros. O brotar das sementes. Sou gota das chuva de Março. Sou vento morno. Bafo. E sou Terra. Terra que gira, que sente, que dança em torno do Sol que a ilumina, de mãos dadas com a Lua. Dia, Noite, Chuva, Frio, Calor, Odor, Amor. Sou Terra que ama o que dela nasce e todas as criaturas que dela vivem. Até as criaturas que a destroem, sem entender que não são nada sem ela. Sem mim. Sou Terra que ama também o que, fora de mim, continuará a existir, mesmo que um dia eu definhe. Sou Terra que ama o movimento dos planetas, a sintonia das galáxias, e toda a perfeição do universo a que pertenço. Quantos universos, fora deste, existirão? Quantas dimensões paralelas e tantas outras coisas que desconheço? E, nos meus 510 milhões de Km2, sinto-me uma pequena gota num poderoso oceano. Depois volto a mim. 50 kgs de gente. E penso que nada de nada justifica o mal que se faz pela importância que se dá a tudo aquilo que, na verdade, não tem importância alguma. A experiência da Vida é este existir. Este sentir. Este usufruir. Abraçando cada canto desta Terra e Amando cada uma das criaturas que habita connosco este minúsculo cantinho do Universo.
Não sendo eu nada, creio ser esta a única forma de ser tudo aquilo que importa...

13/03/15

Do Mistério da Arte

O que é a Arte? Porque nos sopra ao ouvido? Nos toma a mão, o corpo, a voz e o olhar? O que quer de nós, Humanos? O que precisa que desvendemos? Que transformemos? Porque nos usa e para quê?

Enquanto houver Arte, há Mistério.
E enquanto houver Mistério, há Vida.


Sobre a Turbulência de Van Gogh:

"É difícil exprimir com rigor" como "num período de extremo sofrimento, Van Gogh fosse de certa forma capaz de perceber e de representar um dos conceitos extraordinariamente mais difíceis que a Natureza já mais apresentou à Humanidade."

Do Sonho que eu também Sonho

Sonho

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.

Agostinho da Silva, in 'Poemas'
08/03/15

Dia da Mulher

Dia para pensar sobre as Mulheres da Minha Vida. Aquelas que me deram nomes, a cor dos olhos, a perna fina, a teimosia e a alegria de viver. As que não tive oportunidade de conhecer e as que tomaram conta de mim. A que me deu um Pai, a que me deu uma Mãe, a que com todo o amor me trouxe à vida e a que cresceu comigo, partilhando casa, pais e afetos. As minhas queridas sobrinhas e aquela que saiu de dentro de mim, herdeira de tantas coisas que o tempo não conseguiu apagar. A que me deu um Marido. E todas aquelas que, antes dele, o carregaram também de formas e feitios que hoje se espelham nos meus filhos. As Tias. As Primas. As Professoras. As Amigas. As colegas. Mulheres ricas, pobres, magras, gordas, feias e bonitas, simpáticas e com mau feitio. A todas elas o meu Obrigada. Viemos ao mundo carregando o mesmo sexo, que fez parte de nós, das nossas lutas e das nossas entregas. E depois de nós outras virão. Com maior ou menor liberdade para serem o que quiserem, e se afirmarem em todo o seu esplendor, depende também de nós...
Feliz Dia da Mulher!

27/02/15

Do Pássaro que me cativou

Podia ser só um pássaro que eu observava da minha janela todos os dias. Um pássaro no céu, como tantos outros. E eu alguém que o olhava de uma janela, como tanta gente.
Mas algo naquele pássaro me cativou. Era um pássaro agitado que batia furiosamente as suas asas. Depois, deixava-se escorregar pelo vento, cansado, para logo voltar ao seu ponto inicial e retomar o bater das asas, sem parar.
“De que lhe servem as asas se não percorre o céu?”, perguntei-me. “Porque se esforça tanto, se não sai do mesmo lugar?”.
Só então percebi porque me cativara aquele pássaro. É que aquele pássaro era eu, esbracejando sem sair da cadeira, indo e regressando aos mesmos erros, arriscando mas temendo, sonhando mas desistindo. O horizonte estava além e eu estava ali. O sol chamava-me todas as manhãs para um abraço fecundo e eu fechava-lhe a cortina.
Levantei-me da cadeira, abri as janelas e gritei-lhe: “Força, Pássaro! Avança sem medo! Tens asas… não desperdices o céu!”
E quase posso jurar que o ouvi gritar-me de volta: “Salta da cadeira, Humana! Vem cá para fora. Tens pernas… não desperdices a vida!”